Estávamos nós à procura da nossa dignidade, depois de termos gasto 3 euros numa empanada fria, quando subitamente encontrámos aquilo que melhor define o segundo dia completo de Web Summit. Ali, no stand da SAP, impresso num vinil demasiado grande para ignorar, estava uma frase que, como outras imagens aterradoras ao longo das nossas vidas, dificilmente nos deixará: “the future of business has feelings” (o futuro dos negócios tem sentimentos, em português). É isso mesmo que acabaram de ler. Visitámos o espaço da SAP e uma promotora explica-nos que se trata de uma nova vertente da SAP chamada “Experience Management” (gestão de experiência).

Pesquisamos um pouco mais e compreendemos. A premissa é nobre: em 2019, a SAP reconhece que há vida para além dos números de uma empresa. Esqueçam por momentos os custos, as receitas, as vendas, ou o número de seres humanos prensados vivos para obtenção de mais lucro. É preciso saber o que os consumidores, os nossos clientes, sentem. E porquê? Porque, assim, “Your company can then automate actions across business functions to drive improvement in customer, employee, product, and brand experiences.” Vomitámos um bocadinho na boca.

(Para aqueles que não falam inglês poderem perceber porquê, a frase diz: ‘A sua companhia pode depois automatizar ações através de várias funções de negócio para levar a uma melhor experiência dos cliente, empregados, de produto e de experiência de marca’).

Os cínicos empedernidos dirão que isto é uma das maiores balelas em que tropeçaram nos últimos tempos, e têm razão. Não é fácil sentirmo-nos insultados por um software de gestão, mas a equipa de marketing da SAP conseguiu. Parabéns a todos os envolvidos. Se o assalariado que há em si não apreciar, a SAP tem um novo tagline para si: “the future of business has few unemployment benefits” (ou em bom português, ‘se te despedem, estás lixado’).

Tanta conversa sobre o futuro dos negócios deixou-nos com vontade de saber mais. Foi assim que, imbuídos de desesperança em relação ao futuro da espécie e com um ligeiro refluxo provocado pela empanada, percorremos o recinto da Web Summit em busca das melhores ideias de negócio. Aqui fica uma lista:

OnoranzeFunebriCloud

O nome desta startup parece ter sido gerado aleatoriamente, mas desengane-se quem acha que estes rapazes não têm um objetivo claro. A sua startup oferece “funeral services in the cloud” e foi um dos melhores trocadilhos que encontrámos por aqui. Antes que pensem que isto é um novo tipo de funeral numa roda gigante no Parque Eduardo VII, convém explicar que se trata de um serviço que permite gerir uma agência funerária através de um serviço de cloud, para que as agências funerárias tenham a sua vida facilitada e as nossas memórias perdurem seis palmos debaixo da terra e num servidor em Bangalor.

Goodsomnia

A missão da Goodsomnia é a de solucionar um problema mais mundano do que a morte. Esta startup sueca quer que deixemos de ressonar. Mais uma vitória moral para todos os que como nós, acham que a maioria destas startups perdem muito tempo com problemas de primeiro mundo. Curiosamente, não encontrámos nenhuma startup no recinto que se propusesse a resolver o problema da habitação condigna para todos. A Goodsomnia oferece um teste de ressono, ou será ressonanço? Seja como for, se queremos resolver problemas de primeiro mundo no Parque das Nações, podíamos começar por uma startup que fosse capaz de resolver o problema dos odores corporais.

Wetime

A bridge builder for families. Next level social media, bringing families closer together. Open for partnerships and sharing knowledge.” Nada como uma startup que pretende facilitar a comunicação entre nós e aquele tio racista que faz partilha de todos os posts do núcleo de Oeiras do Chega.

PDFMonkey

Sabem aquele tipo que canta muito mal e ainda assim decide participar num concurso de talento? Esse mesmo, o primo em terceiro grau que não cumprimentam desde o crisma da vossa irmã mais nova. Todos nos questionamos: será que esta gente não tem amigos ou familiares que os impeçam de comprometer o seu futuro no planeta? Agora imaginem que, em vez de um tipo sem noção do rdículo a cantar Bruno Mars, o vosso primo criava uma startup que se propunha ajudar o mundo a resolver esse importante flagelo que é a criação de documentos PDF. Agora imaginem que ele não tem amigos ou familiares em condições de lhe explicar que este problema terá sido resolvido há muito tempo. Não sabemos precisar quando, mas foi há tanto tempo que o Tim Berners-Lee ainda não precisava de fazer um exame anual à próstata. Nada que impeça este founder (fundador) de avançar sem medos: “document generation as a service. Easy. Fast. Secure!” E, em breve, falido.

Nanos AI

A descrição desta startup parece saída de um livro de Maria de Lurdes Modesto: “1/3 of Deep Learning, 1/3 of Computer Vision, 1/3 of Online Marketing”. Pelas nossas contas, isto dá três terços de bullshit(tretas) ou uns coscorões maravilhosos.

Mynameis

É um tema comum na vida das startups dizer-se que o mais importante é pensar na qualidade do produto. Sem um bom produto, nada mais interessa. Pois bem, a equipa da Mynameis foi fiel a esse princípio e não perdeu mais do que 8 segundos na criação do nome da empresa. Mas é a sua definição que mais nos interessa: “A mobile marketplace for ridiculously expensive video calls with people whose immediate attention is hard to get”. Estão a ver aquela ideia genial que teria pernas para andar se a pudessem apresentar ao Elon Musk? Esqueçam aquilo que vos disseram quando compraram bilhete para o Web Summit. Não vai acontecer. O Elon Musk está em Bel Air a fumá-las. Sendo assim, tomem lá esta app que, provavelmente, também não vos vai ajudar, ainda que precisem de pagar uma mensalidade para vir a descobrir isso.

Swiing

A Swiing é uma espécie de Tinder para o nosso gosto musical. Até aqui tudo bem, exceto o pitch que nos é feito por um rapaz engravatado que nos explica porque é que a Swiing não é uma glorificação de algo que o Spotify já faz. São onze da manhã do segundo dia completo da Web Summit, e o pitch do rapaz já soa gasto, em terceira ou quarta mão, não sabemos se robótico ou se saído de um sequela de Get Out sobre empreendedores. Por momentos apetece-me atirar um copo de água à cara do rapaz, não porque me sinta incomodado, mas simplesmente para ver quantos semicondutores consigo queimar.

Snikpic

Uma startup que soa a dick pic e promete ajudar marcas e micro-influenciadores a colaborarem como nunca. Parece o clube de swing mais estranho de sempre. Inscrevemo-nos como utilizadores beta. Depois dizemo-vos como correu.

Impresso

A impresso oferece serviços de “professional dating and career advancement”. Suspeitamos que vão estoirar o orçamento de marketing em advogados.

Coopsight Ventures

Este problema não é exclusivo da Coopsight Ventures, mas poucas startups terão sido tão claras a não explicar ao que vêm: “software for VCs creating revolutionary data-sharing ecosystems out of venture funds portfolio start-ups” (até podíamos tentar traduzir isto, mas é exatamente a mesma coisa, trocando apenas for por para, e out of por fora de). Se restarem dúvidas, aqui vai a sua missão conforme aparece no website: “We create insights for business ecosystems through matchmaking tools. We spur cooperation that creates positive impact, guiding towards newer intuitions.” Se ainda assim não perceberam, mais vale dizer-vos que esta é uma startup russa cuja única morada disponível no site fica em Shanghai. Talvez seja esse o objetivo: não percebermos rigorosamente nada do que estas empresas fazem, para que consigam operar em paz e reeleger Donald Trump. Também pode ser da tal empanada que caiu mal.

Kngro

E esta doença em que o nome de metade das startups acrescenta consoantes ou suprime vogais em palavras até aí fáceis de compreender e universalmente aceites? Não há uma polícia do alfabeto que prenda esta gente

LiveMusicHub

Apresenta-se como “Tripadvisor, Myspace and LinkedIn all in one”, o que faz desta plataforma um fortíssimo candidato a pior sítio da internet.

Vencedor da Web Summit 2019: DecideAct

A DecideAct é uma consultora dinamarquesa que se apresentou na Web Summit com uma ideia que nos fez rir: organizam funerais para estratégias falhadas. A estatística é poderosa: 75% das ideias peregrinas e respetivos planos de ação inventados por seres humanos em organizações falham. A solução foi encontrada: “The service is simple. A Strategy Funeral Agent will print your failed strategy one last time, put it in a cardboard box and cremate it. The remains will be returned to you in a timelessly designed urne.”

Ainda há esperança, amigos. Era afinal o sinal de precisávamos: algumas dúzias de startups depois, estava finalmente na hora de nos dirigirmos ao Bota Feijão, uma empresa que gastou 50 euros em tinta para pintar o logotipo numa parede, sem seed funding, um sítio onde os badges da Web Summit são mal vistos, o pitch é “se quiseres comes, se não quiseres desampara a loja”, o customer espera em pé e talvez tenha a sorte de conseguir mesa, a Unique Value Proposition é de lamber os dedos, e, acima de tudo, um local onde o futuro do negócio é desprovido de sentimentos, mas crocante e suculento como em poucos locais a sul da Bairrada. Descansa em paz, meu querido leitão.

*Vasco Mendonça é publicitário e co-CEO da associação recreativa Um Azar do Kralj

*Francisco Peres escreve artigos a fazer pouco de anglicismos mas tem como títulos profissionais as palavras copywriter e content strategist. Até à data de publicação deste artigo trabalhava com várias startups, mas suspeita que isso está prestes a mudar.