O cirurgião José Fragata, vice-reitor da Universidade Nova de Lisboa e diretor de serviço no hospital de Santa Marta, em Lisboa, criticou esta sexta-feira o excesso de política na discussão dos serviços de saúde em Portugal. “A saúde não pode estar a mudar a cada legislatura de três ou quatro anos. Quando o ciclo político muda, abanam os diretores dos hospitais. Não faz sentido”, afirmou o histórico cirurgião e professor que em 2017 foi responsável pelo implante do primeiro coração artificial em Portugal.

O médico esteve esta manhã no programa Direto ao Assunto da Rádio Observador para destacar a necessidade de reformas profundas no Serviço Nacional de Saúde e evidenciar que os problemas técnicos do SNS são mais relevantes do que os problemas políticos. “A saúde tem tido política demais”, disse José Fragata. “Quando faltam médicos em Almada, não é uma questão política. É uma questão técnica”, acrescentou o cirurgião, lamentando que a discussão sobre o SNS esteja focada “em dividir a saúde em público e em privado”.

“Quando qualquer um de nós está doente, preocupa-se primeiro com a gravidade da doença e com o que lhe vai acontecer. Em segundo, preocupa-se onde é que há de ir tratar-se que tenha qualidade e acesso — no tempo e na capacidade de pagarmos. Mas não se preocupa muito se vai ao público ou ao privado”, sublinhou o cirurgião.

Depois de, no início da semana, ter afirmado que o SNS está perto do “ponto de não retorno”, José Fragata repetiu na Rádio Observador que o SNS “tem vindo a sofrer um processo de erosão e degradação” e que, “se não se acudir em tempo útil, e o tempo útil é agora, pode chegar a um ponto de difícil recuperação”.

A solução, no entender do cirurgião, não passa apenas por injetar mais dinheiro no SNS, porque é preciso combater a “queda geral de moral no sistema”. “Durante todo este período foi havendo uma saída sistemática de médicos, enfermeiros e técnicos médicos, quer para o estrangeiro quer para o setor privado. Por questões de vencimentos baixos, mas também por falta de projeto, por falta de inovação”, lamentou.

José Fragata criticou também a distribuição e a gestão do tempo dos médicos em Portugal. “Portugal tem mais médicos do que a maioria dos países europeus, têm é menos enfermeiros. Provavelmente não será injetar mais médicos no sistema”, assegurou. O problema é que apesar de existirem médicos suficientes, estes não ocupam todas as necessidades do país, já que há muitos serviços que vivem “de médicos tarefeiros que trabalham 10 ou 15 horas num serviço e se vão embora para não voltar lá senão daí por três semanas”. “Há muitos médicos a 20 horas. Procuraram complementos salariais e de realização profissional no setor privado”, afirmou, acrescentando que, “quando se fala no número de médicos no SNS, estas pessoas estão lá em part-time. Não representam força de trabalho plena”.

O cirurgião, ele próprio que acumula as funções de diretor do serviço de cirurgia cardiotorácica no hospital de Santa Marta com o trabalho no setor privado, diz-se a favor da exclusividade dos médicos, mas “não por decreto”. “Se o funcionário é necessário e é bom, haverá interesse em fixá-lo numa tarefa só. Os médicos não deviam trabalhar em vários sítios, ter pluriemprego. Eu dirijo um departamento, acha que devia trabalhar num sítio de manhã e outro à tarde?”, questionou José Fragata, classificando o SNS como “uma empresa onde sistematicamente há falta de material, os salários são baixos, não conseguimos pagar melhor a quem faz melhor, não conseguimos contratar nem conseguimos despedir” — mas de que os médicos gostam e que por isso “não têm coragem de abandonar completamente”.