O candidato independente às eleições presidenciais guineenses de domingo José Mário Vaz acusou esta sexta-feira o ministro dos Negócios Estrangeiros português de falar sobre a Guiné-Bissau sem “saber nada” sobre o país.

O candidato referiu que fica “um bocado preocupado” com pessoas que falam sobre a Guiné-Bissau, mas “não sabem nada” sobre o país, dando como exemplo Augusto Santos Silva. De acordo com o candidato, que se recandidata ao cargo como independente, o chefe da diplomacia portuguesa “fala sobre a Guiné-Bissau e não procura realmente saber a verdadeira realidade da Guiné-Bissau”.

“Fico com pena”, disse, referindo que Santos Silva esteve “só uma vez” na Guiné-Bissau. “Seria bom que voltasse mais vezes para conhecer a realidade guineense”, disse.

Em declarações à Lusa em 29 de outubro, Santos Silva reconheceu como governo legítimo da Guiné-Bissau o executivo liderado por Aristides Gomes, demitido dias antes por José Mário Vaz, que nomeou um outro liderado por Faustino Imbali.

Grande parte da comunidade internacional opôs-se a estas decisões e a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) exigiu a demissão de Imbali, sob pena de impor “pesadas sanções” aos responsáveis pela instabilidade política. Também o Conselho de Segurança das Nações Unidas ameaçou com novas sanções “todos aqueles que minem a estabilidade” na Guiné-Bissau e apelou à “conduta ordenada” dos atores políticos.

Imbali acabou por se demitir, pouco antes de serem conhecidas as decisões dos chefes de Estado da CEDEAO, que se reuniram numa cimeira extraordinária no Níger, em 8 de novembro, e decidiram reforçar a presença da força de interposição Ecomib no país, advertindo o Presidente guineense de que qualquer tentativa de usar as forças armadas para impor um ato ilegal seria “considerada um golpe de Estado”.

Várias candidaturas assinam esta sexta-feira um acordo

O candidato anunciou ainda que várias candidaturas assinam esta sexta-feira um acordo para apoiarem o candidato que passar à segunda volta.

Está a combinar-se, um grupo de candidaturas de partidos políticos, celebrarem um acordo para em caso de um nós passar à segunda volta os outros apoiariam”, disse o Presidente cessante em declarações à agência Lusa, à margem de um comício em Biombo, a cerca de 50 quilómetros de Bissau, sem especificar de que candidaturas se trata.

Questionado sobre se isto é uma resposta à proposta feita pelo candidato Umaro Sissoco Embaló, apoiado pelo Movimento para a Alternância Democrática (Madem-G15, líder da oposição), José Mário Vaz respondeu: “Eu não digo isso”. No entanto, disse que “foi extraordinário” quando encontrou Sissoco Embaló durante uma ação de campanha dos dois candidatos em Buba, no sul do país. “Eu estava num lugar e ele foi cumprimentar-me. Eu gostei muito desse gesto. Isso é que é realmente a democracia“, disse.

O candidato do Madem G15 apelou em 19 de novembro para a união de todos os candidatos contra o que considera ser o “eixo do mal” representado por Domingos Simões Pereira, candidato do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC, no poder).

Sobre se esta confiante numa vitória à primeira volta, Jomav, como é conhecido, admitiu que “é difícil”.

Talvez a única pessoa que disse que vai vencer na primeira volta é o candidato adversário, o candidato do PAIGC, que esteve em Portugal e disse a toda a gente que ganharia na primeira volta”, mas quem viu esta campanha percebe que “ninguém tem condições de vencer na primeira volta”, disse.

Sobre quem vai apoiar na segunda volta, caso seja afastado da corrida no domingo, José Mário Vaz escusou-se a responder diretamente. “Não tenho problemas nenhuns. Neste momento o povo é soberano, o veredito é popular. Se for ou não for à segunda volta o povo é quem mais ordena. Eu vou cumprir rigorosamente aquilo que as urnas ditarem”, disse.

Em relação ao problema do diferendo com Domingos Simões Pereira, o Presidente cessante referiu que não sabe se existe. “O único problema que eu tenho como responsável deste país é a defesa intransigente da minha terra e do meu povo, é só”, disse.

Em 2015, José Mário Vaz demitiu Domingos Simões Pereira do cargo de primeiro-ministro e recusou novamente o seu nome para o cargo chefe de Governo em junho deste ano, após as legislativas de março.

Questionado sobre se as eleições presidenciais de domingo permitirão resolver a crise política que se regista no país há anos, Jomav recusou-se a falar sobre o assunto, referindo apenas que “não há crise política” na Guiné-Bissau.

Mais de 760 mil eleitores escolhem no domingo o próximo Presidente entre 12 candidatos. A campanha eleitoral termina esta sexta-feira e no país estão 23 observadores da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), 54 da União Africana (UA), 60 da CEDEAO e 47 dos Estados Unidos da América.