Não deve ser surpresa que os animais de estimação, tal como os humanos, têm bactérias na boca e nos intestinos. É por isso que uma dentada de um cão ou de um gato pode provocar uma infeção grave, mas também não se pode descartar o risco de uma infeção depois de uma lambidela, em especial se houver uma ferida. Uma equipa de médicos do Hospital da Cruz Vermelha de Bremen, na Alemanha, reportaram o caso de um homem que morreu com uma infeção causada por uma bactéria canina depois de ter sido lambido pelo cão.

O homem de 63 anos desenvolveu sintomas semelhantes aos de uma gripe, mas a doença evoluiu e ele acabou por morrer com uma infeção generalizada causada pela bactéria Capnocytophaga canimorsus, que vive normalmente nas gengivas dos cães.

Ricardo Lobo, presidente da Associação Nacional de Médicos Veterinários dos Municípios, disse ao Observador que nunca tinha ouvido falar desta bactéria, mas lembrou que em casos muitos raros e específicos, como as pessoas com doenças no fígado ou no sistema imunitário, o contacto com uma bactéria, tenha ela origem nos animais ou não, pode resultar numa infeção grave. Mas, insiste, “não há razão para alarme.”

Foi o que aconteceu com um doente de 54 anos  — diabético, fumador e sem baço — que deu entrada no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, em choque séptico (com uma resposta desregulada à infeção) por causa da Capnocytophaga canimorsus, com a infeção grave espalhada até às extremidades. Neste caso, a infeção não foi fatal, mas obrigou a amputação de alguns membros, como já tinha acontecido a outros doentes.

O caso do doente alemão, no entanto, é mais invulgar: o homem era saudável e não tinha marcas de dentadas. Tudo o que o doente referiu foi ter contactado com o cão que lhe deu algumas lambidelas.

“Os donos dos animais com sintomas de gripe devem procurar aconselhamento médico se os sintomas ultrapassarem o que é normal numa simples infeção viral, o que, neste caso, foram falta de ar severa e petéquias [manchas vermelhas na pele],”, escrevem os médico no artigo publicado na revista científica European Journal of Case Reports in Internal Medicine. “Os médicos que se deparem com estes doentes devem perguntar se tiveram contacto com cães ou gatos.”

No artigo publicado pelos médicos de Bremen não fica claro se a bactéria era resistente a antibióticos, mas os 16 dias de tratamentos no hospital não conseguiram evitar que o homem morresse.

Resistência à vacinação entre as 10 maiores ameaças à saúde em 2019

O aumento do número de bactérias resistentes a antibióticos e aos antibióticos a que são resistentes foi considerada uma das 10 maiores ameaças à saúde em 2019 pela Organização Mundial de Saúde. Muito trabalho tem sido feito junto de médicos e doentes para fazerem um bom uso dos antibióticos: usar só para tratar infeções bacterianas, cumprir o tratamento até ao fim e não aceitar vendas sem prescrições, por exemplo.

As mesmas preocupações devem ser tidas com os animais de companhia e de produção, alertou na semana passada Jorge Moreira da Silva, presidente da Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica de Medicamentos Veterinários, durante a semana mundial de sensibilização para o uso de antibióticos: “Isto pressupõe o uso do antibiótico certo, na doença e altura certas, na quantidade e duração certas e, no caso dos animais de produção, respeitando-se os intervalos de segurança — entre o último dia de administração do medicamento e o dia que se pode consumir os produtos de origem animal sem perigo de efeitos adversos para o ser humano”.