O Conselho de Administração da RTP emitiu esta segunda-feira um comunicado a anunciar que aceitou o pedido de demissão de Maria Flor Pedroso do cargo de diretora de informação, que assumiu em outubro de 2018.

No documento, o Conselho de Administração (CA) revela o motivo invocado pela jornalista para colocar o lugar à disposição: “Face aos danos reputacionais causados à RTP, não tem condições para a prossecução de um trabalho sério, respeitado e construtivo, como sempre tem feito”.

O Observador sabe que Cândida Pinto, Helena Garrido, Hugo Gilberto e António José Teixeira, diretores adjuntos de Maria Flor Pedroso, e Joana Garcia, Rui Romano e Alexandre Brito, seus sub-diretores, também estão a colocar os respetivos lugares à disposição do Conselho de Administração da RTP.

Depois da “auscultação dos motivos invocados pela diretora e exclusivamente por esses motivos, o Conselho de Administração considera que não tem “outra alternativa que não seja aceitar essa decisão”, prossegue o comunicado. “O CA agradece a Maria Flor Pedroso, jornalista de idoneidade e currículo irrepreensível, o trabalho desenvolvido de forma dedicada, competente e séria enquanto diretora de informação de televisão da RTP”.

Leia aqui o comunicado da Administração da RTP

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O Conselho de Administração (CA) da RTP recebeu uma comunicação da Diretora de
Informação Maria Flor Pedroso a colocar o seu lugar à disposição, por esta considerar
que, face aos danos reputacionais causados à RTP, não tem condições para a
prossecução de um trabalho sério, respeitado e construtivo, como sempre tem feito.
Após auscultação dos motivos invocados pela Diretora e exclusivamente por esses
motivos, o CA considera que não tem outra alternativa que não seja aceitar essa
decisão.
O CA agradece a Maria Flor Pedroso, jornalista de idoneidade e currículo
irrepreensível, o trabalho desenvolvido de forma dedicada, competente e séria
enquanto Diretora de Informação de Televisão da RTP.
O Ca acredita que a linha editorial que vinha a ser desenvolvida pela direção, assente
num jornalismo objetivo e rigoroso, livre e independente, isento e plural é a matriz de
um serviço público de excelência, em absoluto contraste com a crescente tendência
para um jornalismo populista e sensacionalista que repudiamos veementemente e que
é imperativo combater.
O CA nomeará em breve uma nova direção à qual continuará a exigir a implementação
das melhores práticas, para que o jornalismo feito pela RTP seja o mais completo, o
mais sério, o mais credível e o mais isento, ao total serviço do público.

Por seu turno, numa carta enviada ao presidente da RTP, a que a Lusa teve acesso, Maria Flor Pedroso reiterou que a direção de informação que liderou “nunca cedeu a motivação outra, que não a da causa de uma informação livre, isenta, plural e independente”.

“Face à reiterada exposição pública de insinuações, mentiras e calúnias, à qual eu e a minha direção somos totalmente alheios, face aos danos reputacionais causados à RTP, considero não haver condições para a prossecução de um trabalho sério, respeitado e construtivo, como tentámos realizar ao longo deste ano de mandato”, escreveu Maria Flor Pedroso na carta, em que colocou o seu lugar à disposição. “A construção de realidades alternativas a partir de meias verdades, da qual se alimenta um certo tipo de jornalismo no qual não me revejo, é um dos problemas da sociedade atual que precisa de um jornalismo vigoroso e rigoroso, livre e independente, isento e plural para robustecer as sociedades democráticas”, acrescentou.

Para esta segunda-feira estava marcado um plenário de jornalistas, convocado pelo Conselho de Redação da RTP, onde seria debatido e analisado o conflito entre a equipa do “Sexta às 9”, coordenado pela jornalista Sandra Felgueiras, e a agora demissionária diretora de informação da televisão pública.

Em causa estão as acusações feitas por Sandra Felgueiras a Maria Flor Pedroso sobre o adiamento do programa “Sexta às 9” sobre a prospeção de lítio em Portugal, que chegou a ser anunciado para o dia 13 de setembro deste ano mas acabou por ser emitido apenas após as eleições legislativas, a 11 de outubro. “Perante a gravidade do conteúdo da reportagem emitida por esse programa de investigação a 11 de outubro, no qual se dá conta da abertura de um inquérito pelo Ministério Público ao processo de concessão de uma exploração de lítio em Montalegre, envolvendo o Governo de então, é evidente que se trata de uma questão central apurar, com celeridade, a verdadeira razão que motivou a suspensão do programa”, argumentou o grupo parlamentar do PSD, que apresentou um requerimento para a audição de Felgueiras, Pedroso e Gonçalo Reis, presidente da RTP.

O caso do lítio e as acusações de Sandra Felgueiras

Ouvida no passado 3 de dezembro na comissão parlamentar de Cultura e Comunicação, a jornalista responsável pelo programa de reportagem “Sexta às 9”, disse que “era possível” ter emitido o programa “Sexta às 9” logo a 13 de setembro e com o tema do lítio, acrescentando que nunca antes o programa tinha sido suspenso durante campanhas eleitorais. “Se me perguntam diretamente se era possível fazer o programa ‘Sexta às 9’ durante o mês de setembro, a minha resposta é ‘sim, era possível com o lítio’.”

Na Assembleia da República, a jornalista explicou que, mais do que com a diretora de informação, era com a diretora adjunta Cândida Pinto que costumava tratar de todos os assuntos relacionados com o programa, e revelou que, contra o que era habitual, no passado dia 23 de agosto terá tido uma reunião com as duas, onde lhe terá sido comunicado que afinal o programa, na altura em pausa de verão, só regressaria a 11 de outubro, cinco dias depois das legislativas. “Foi-me dito que iria haver ajustes em função da campanha eleitoral. O que eu reparo e que vejo é que de facto os ajustes que houve foi apenas no dia 6 [de setembro]. No dia 13 não houve nada, no dia 28 houve um programa ‘Eu, cidadão’, curiosamente feito por Cândida Pinto, dia 26 não houve nenhum especial sobre Tancos apesar de o programa ‘Sexta às 9’ ter sido o amplo difusor de um caso que o Ministério Público acabou por confirmar em acusação pública”, disse a jornalista, que começou por se apresentar como parte de uma equipa de quatro jornalistas — “um deles precário” —, e por alertar para as potenciais consequências do seu depoimento. “Eu estou mandatada por todas essas pessoas que me acompanham a dar as respostas que vos irei dar, mas peço que os senhores deputados compreendam que tudo aquilo que eu vou dizer hoje poderá ter repercussões profissionais não só na minha vida como na vida destas pessoas.”

Na base das demissões dos oito membros da direção de informação da RTP, com Maria Flor Pedroso à cabeça, estão as acusações da jornalista Sandra Felgueiras

Mais de um mês antes do início da comissão parlamentar, a 30 de outubro, Maria Flor Pedroso já tinha garantido em comunicado que a reportagem em questão só teria ficado pronta “horas antes” de ser emitida. No texto, assinado por toda a direção de informação da RTP, a jornalista rejeitou terminantemente a polémica: “A Direção de Informação da RTP-TV jamais tolerará ser utilizada como arma de arremesso político-partidário seja por quem for. (…) A investigação, evocada pelo líder do PSD na discussão do Programa de Governo, não estava concluída durante a campanha eleitoral”.

Ouvida na comissão parlamentar de Cultura e Comunicação, Maria Flor Pedroso garantiu que o adiamento não se deveu ao tema da reportagem em questão e assegurou que, se tivesse sido informada de que “havia notícia”, a reportagem teria sido imediatamente difundida. “Se houvesse notícia sobre o lítio, ela iria para o ar assim que ela estivesse pronta para ir para o ar, em tempo de campanha eleitoral ou não”, acrescentou, referindo ainda que para si é ” absolutamente irrelevante” se é tempo de campanha ou não para a emissão de notícias.

Segundo “boicote”: o caso do ISCEM

Entretanto, na passada sexta-feira, 13, depois de o jornal i ter dado conta de novas acusações de Sandra Felgueiras contra Maria Flor Pedroso, o PSD agendou um debate de atualidade no parlamento sobre a isenção da RTP. De acordo com o i, terá sido em sede de Conselho de Redação (CR) que a jornalista responsável pelo “Sexta às 9” voltou a acusar a então diretora de informação de ingerência e “boicote”, dessa feita a propósito de uma reportagem que envolveria a própria Maria Flor Pedroso.

A investigação em questão versaria os negócios de Regina Moreira, proprietária do Instituto Superior de Comunicação Empresarial (ISCEM), onde Flor Pedroso foi professora assistente de jornalismo radiofónico desde 2006 e até ao encerramento. Segundo o i, a equipa do “Sexta às 9” estava a investigar alegadas irregularidades como a venda do edifício e a cobrança indevida de dinheiro aos alunos que iam para outras escolas, depois de o ISCEM ter sido fechado pelo Ministério da Educação, e terá tentado chegar à fala com Regina Moreira que, na versão de Sandra Felgueiras, se terá recusado a dar entrevistas presenciais, argumentando que tinha sido Maria Flor Pedroso a aconselhá-la a fazê-lo.

Numa nota enviada ao Público, ainda durante a passada sexta-feira, Maria Flor Pedroso, que já tinha negado “liminarmente” as acusações de Sandra Felgueiras numa nota enviada à redação da RTP, expôs a sua versão dos acontecimentos e explicou que terá sido interpelada no passado dia 8 de outubro, no final de uma reunião de professores do ISCEM, por Regina Moreira, “dando-lhe conta de que tinha recebido vários contactos e chamadas do ‘Sexta às 9’ com um pedido de entrevista que ela não queria dar”. Para defender “os interesses da RTP” perante a “reiterada recusa da entrevista”, escreve o Público, Maria Flor Pedroso terá  sugerido à proprietária do ISCEM que respondesse por escrito — “sem, nunca, a ter informado da investigação do Sexta às 9”, assegurou a então diretora  de informação do canal público de televisão.

Abaixo-assinado em defesa de Maria Flor Pedroso 

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Confrontados com o grave ataque público à integridade profissional da jornalista Maria Flor Pedroso, os jornalistas abaixo assinados não podem deixar de tomar posição em sua defesa, independentemente das questões internas da empresa onde é Diretora de Informação, que manifestamente nos ultrapassam.

1- Maria Flor Pedroso é jornalista há mais de 30 anos. Sem mácula. Jornalista exemplar. Reconhecida e respeitada pelos pares.

2- Maria Flor Pedroso é uma das mais sérias profissionais do jornalismo português. Chegou por mérito ao cargo que atualmente ocupa. Defensora irredutível do jornalismo livre, rigoroso. Sem cedências ao mediatismo, a investigações incompletas, ou à pressão de poderes de qualquer natureza.

3- Maria Flor Pedroso foi escolhida pelos pares para presidir à Comissão Organizadora do 4.° Congresso dos Jornalistas Portugueses, uma iniciativa que se revelou um marco na discussão dos problemas da profissão.

4- Maria Flor Pedroso é frontal. Rejeita favores. Nunca foi acusada de mentir.

Esta segunda-feira eram já perto de 150 os jornalistas, de várias redações e meios de comunicação, a defender Maria Flor Pedroso num abaixo-assinado onde fazem notar que “Maria Flor Pedroso é jornalista há mais de 30 anos, sem mácula”, uma “jornalista exemplar”, “reconhecida e respeitada pelos pares” e “uma das mais sérias profissionais do jornalismo português”. Os subscritores, entre os quais se incluem nomes como os de Adelino Gomes, Ana Sousa Dias, Anselmo Crespo, Carlos Andrade, Cristina Ferreira, Fernando Alves, Francisco Sena Santos, Goulart Machado, Henrique Monteiro, João Garcia, João Paulo Guerra, José Carlos Vasconcelos, José Mário Costa, José Pedro Castanheira, José Silva Pinto, Luísa Meireles, Nicolau Santos, Ricardo Costa, Rui Pêgo, São José Almeida e Sérgio Figueiredo, sublinham ainda que Maria Flor Pedroso é “defensora irredutível do jornalismo livre, rigoroso”, “sem cedências ao mediatismo, a investigações incompletas, ou à pressão de poderes de qualquer natureza”.

No mesmo texto, a que nos últimos dias não têm parado de se juntar nomes e assinaturas, salienta-se ainda que Maria Flor Pedroso —  uma profissional “frontal”, que “rejeita favores” e “nunca foi acusada de mentir” — “foi escolhida pelos pares para presidir à Comissão Organizadora do 4.° Congresso dos Jornalistas Portugueses, uma iniciativa que se revelou um marco na discussão dos problemas da profissão”.