Camus passou grande parte da vida a desfazer a sua própria imagem. Depois dos anos da Guerra, em que o seu Combat era quase universalmente visto como a mais acabada forma de resistência intelectual, Camus punha água na fervura e explicava que não falava “por ninguém”; coroado O Estrangeiro com o prefácio de Sartre que lhe dava o primeiro lugar entre as obras literárias existencialistas, Camus apressava-se a explicar que não era um existencialista e que não acreditava nas suas conclusões; e, sobretudo, a sua obra troca permanentemente as voltas aos seus admiradores. Ele bem explica que não sabe exatamente para onde se encaminha, mas este passo incerto valeu-lhe o estatuto intelectual mais esquizofrénico da França novecentista.

Ainda hoje é vulgar ver O Estrangeiro nas listas dos livros mais populares de França e Camus apresentado como a antonomásia do Escritor Francês. Esta popularidade, no entanto, é conquistada, pelo menos a partir de 1951, contra o seu próprio meio. Nos anos 40, Camus é quase divino. É um herói da resistência, ninguém tem dúvidas sobre o seu papel, é corajoso, é lido e apreciado em toda a França e está prestes a publicar o seu primeiro grande êxito literário, O Estrangeiro.

Sartre, que emerge do pós-guerra como o Papa intelectual de Paris, prefacia o livro e lança Camus para a vanguarda do pensamento. Mersault, o homem que olha para o mundo sem o filtro das disposições existenciais, denuncia o absurdo do mundo. A indiferença diante da morte da mãe ou do assassínio são o verso filosófico de O Ser e o Nada; a ideia de que o mundo não existe tal como o vemos senão pelo modo como disposições arbitrárias o apresentam ganha corpo neste estranho livro, tão contido, aparentemente tão simples, mas que tão bem expressa o desconforto do Homem que percebe que as suas categorias e os seus códigos já não servem para apreender o mundo. O Estrangeiro é a expressão confusa daquilo que Sartre tornará claro com o seu Ser-para-si: o nosso modo de apreender o mundo não é dado pelo mundo e pode não estar certo. Mersault é uma alternativa, a grande libertação Sartriana mostrará que há várias — é o Homem que determinará as suas próprias categorias, o Homem poderá criar o seu próprio mundo.

“O Estrangeiro” faz parte da recente reedição da obra do autor francês pela Livros do Brasil

Camus beneficiou relutantemente desta glória literária. Escrevia nos Temps Modernes e privava com os maiores cérebros da Sorbonne, mas à distância inicial – afinal, Camus vinha de uma família pobre da Argélia, não tinha frequentado os grandes liceus nem as grandes Universidades Parisienses — começou a somar-se um afastamento mais perigoso. Enquanto a esquerda se excita com a depuração, Camus assina o documento a pedir o perdão de Robert Brasillach, condenado à morte, não por ter combatido com os alemães, mas simplesmente pelas suas opiniões. A aproximação dos intelectuais aos vários comunismos também não é seguida por Camus com o mesmo fervor. Embora a escravatura Americana e o regime de Franco sirvam sempre para mostrar que também há males no Ocidente, as execuções soviéticas e os gulags merecem sempre a sua rejeição.

É certo que, nalguns jornais comunistas mais ortodoxos, a imagem de Camus começa logo aí a ser desconsiderada; mas na generalidade do meio intelectual francês, o Homem de Argel continua a ser apreciado. Não tem a perícia filosófica de outros, mas a Universidade aprecia este Homem real, que esteve inequivocamente com a resistência e que escreve, mesmo que sem grande precisão de conceitos, com apurado sentido filosófico. O Combat mantém o seu prestígio e A Peste e A Queda são ainda grandes êxitos.

Ora, é com O Homem Revoltado que se dá uma verdadeira mudança na imagem de Camus. O Homem Revoltado é um livro filosófico, cheio de aforismos sonantes, que mistura vagamente filosofia pura com ação. As teses não são as mais profundas, mas a intenção é clara e sincera: Camus quer elogiar a rebeldia solitária, o indivíduo anárquico e solitário, movido por um desejo de paz que se mistura com um desejo romântico de revolução. É aqui que a sua rejeição do comunismo é mais clara, em que o intelectual engajado é criticado com sinceridade e também aqui que Camus rejeita condescender com os crimes dos regimes socialistas em nome do ideal mais puro.

Sartre e Camus

Pouco depois, Raymond Aron lançará O Ópio dos Intelectuais, um livro com uma força e um peso que o de Camus, embora com intenções parecidas, nunca conseguiu ter. Aron criticou o marxismo e isso fez dele um especialista incontestado em Karl Marx; ninguém podia negar que ele lera aquilo de que todos falavam e que navegava com mais segurança nas águas que rejeitava do que muitos que a bebiam. O livro de Camus, embora estilisticamente mais interessante, é visto apenas como uma tentativa ingénua e algo tola de destruir algo muito maior do que ele.

A reação a O Homem Revoltado é violentíssima; sai uma recensão nos Temps Modernes a que Camus responde, e a contra-resposta, aí de Sartre, é arrasadora.

“Se o seu livro (…) fosse composto por conhecimentos reunidos à pressa, adquiridos em segunda mão? A sua mistura de convencimento triste e vulnerabilidade sempre nos desencorajou de lhe dizermos toda a verdade”.

Há, obviamente, má-fé na crítica de Sartre, que tanto entusiasmo mostrou quando apareceu O Estrangeiro; mas de facto a análise mostrou várias fragilidades no pensamento de Camus, de que modo eram inconsequentes os seus raciocínios, e a incapacidade do autor para seguir os seus postulados até às últimas consequências. Sartre transformou a imagem de Camus na de um filósofo para alunos de Liceu, de tal maneira que a sua reputação se descredibilizava a cada dia. Tony Judt conta, a este propósito, uma história reveladora. Raymond Queneau terá ido ver uma peça de Camus, e estava preocupado com o que lhe diria no fim. Gallimard sugeriu-lhe que perguntasse simplesmente “Está contente com a peça?”. Todo o episódio, desde a previsão de que não vai gostar, à condescendência da pergunta, à conversa entre os dois homens de letras, mostra na perfeição de que modo Camus estava desacreditado no meio intelectual.

“O Homem Revoltado”

Ora, marginalizado pelo grupo dominante, Camus nem nos outros proscritos encontrava apoio. Aron, talvez aquele que mais se aproximava da sua posição em relação à Argélia, gostava do rigor argumentativo que faltava a Camus, pelo que também era frequente desconsiderar as suas declarações; e o grupo dominante seguinte, com Foucault à cabeça, criticava Sartre e o existencialismo por aquilo que ainda podiam ter em comum com Camus. O Humanismo e a liberdade do indivíduo são uma das bêtes noires de Foucault. A ideia do indivíduo contra o mundo, que alimentou a ficção existencialista, é denunciada por um Foucault muito mais interessado em identificar as estruturas que determinam este indivíduo. O Homem de Camus é, para Foucault, uma ficção ingénua.

Camus foi, provavelmente o maior mal-entendido da história intelectual francesa. Ele não se cansou de o explicar. Não tinha interesse na política, embora ela, primeiro com a Resistência depois com a Argélia, tenha feito e desfeito a sua reputação. Não se via como um filósofo, e os seus livros foram sujeitos a um escrutínio académico para o qual não estava preparado. Nem se via como um existencialista, embora o existencialismo lhe tenha moldado a reputação. Apesar de tudo isto, apesar do escárnio intelectual e do descrédito permanente, a obra de Camus, sobretudo a romanesca, envelheceu surpreendentemente bem. Muito antes de sonhar em conhecer Sartre, numa crítica a um dos seus livros, Camus explica que “Anunciar o absurdo da existência não pode ser um objectivo, apenas um ponto de partida”. Ora, é isto que torna a sua literatura credível.

As respostas de Mersault aos problemas da sua vida foram sempre interpretadas como se a sua fraqueza fosse intencional. Mersault tenta responder ao absurdo, mas a resposta é tão fraca que prova que não há resposta. Camus, no entanto, não se regozija com isto. Camus não está interessado no absurdo, quer uma solução para ele. As propostas são insuficientes, mas isso ó nos dá um retrato mais compassivo do Homem. Camus não é um falso desesperado, que se alimenta do desespero para aumentar a glória mundana. Camus nunca esteve confortável no mundo e nunca parou de tentar fugir ao desconforto. As tentativas nem sempre foram boas, mas o percurso foi fascinante.