Claro que apetece começar dizendo “I was there!”. Eu estava lá quando saiu o primeiro álbum do LCD Soundsystem. Mas esse “lá” é tão gigante quanto o desabafo de James Murphy em “Losing My Edge”, o primeiro single, editado em 2002. No meu caso, estava “cá”, em Portugal, Lisboa, onde chegaram cedo os ecos do que acontecia Brooklyn e a que a revista Spin chamava na altura “a primeira cena rock em Nova Iorque nos últimos 15 anos que não é só fachada”. James Murphy e banda também chegaram “cá” cedo. Os primeiros concertos em Portugal (dois no Lux Frágil, incríveis! Eu estava lá!) foram em 2005, o ano em que saiu o álbum de estreia.

A história do LCD Soundsystem confunde-se com transição do século e a agitação vivida em Nova Iorque na altura, o 11 de Setembro, a retromania, os hipsters, a infiltração da música de dança na comunidade indie, a era do mp3 que disponibilizava toda a música num só click… LCD Soundsystem, o disco, é o mais importante do grupo e um dos essenciais deste século. Saiu há 15 anos, mas será preciso recuar pelo menos 20 para percebermos como aconteceu.

Para isso também precisamos conhecer um pouco da história de James Murphy, que formou o LCD Soundsystem já depois dos 30, mas tinha bandas desde os 12 anos. Nenhuma foi relevante, mas Murphy sempre teve fé. Aos 22 anos até recusou um convite para ser argumentista da série “Seinfeld” porque tinha mais que fazer (obviamente, arrependeu-se). Em vez disso, além dos seus projetos pessoais, começou a ser “rato de estúdio”, vestindo a pele de produtor e engenheiro de som, trabalhando com bandas como June of 44 ou Six Finger Satellite.

[“Tribulations”:]

A epifania que lhe mudou a vida aconteceu em 1999, na pista de dança, depois de experimentar ecstasy com Tim Goldsworthy, numa festa onde David Holmes estava a pôr música. Tim Goldsworthy, britânico que tinha criado com James Lavelle a Mo’Wax (selo fundador do trip hop) e também com ele partilhado o projecto UNKLE, tinha ido com Holmes para Nova Iorque para gravar o álbum Bow Down To The Exit Sign no estúdio onde trabalhava Murphy. Tornaram-se melhores amigos (depois zangaram-se e em 2013 Murphy e a DFA processaram Goldsworthy por quebra de contrato e enriquecimento indevido). Juntos começaram a arquitetar uma “coisa” chamada DFA (Death From Above) e a sonhar com uma “cena” que sacudisse a entediante vida noturna de N.Y., misturando a recém descoberta música de dança com punk e pós punk originais.

Antes de ser editora, a DFA organizou festas privadas onde valia tudo, Stooges como Kraftwerk ou Donna Summer, mais ou menos no mesmo espírito dos 2ManyDJs na Bélgica, mas um pouco antes e com uma abordagem tecnicamente mais livre. Recentemente, James Murphy confessou que a inspiração para misturar diferentes estilos veio de David Holmes, mas na altura, quando o “seu” conceito alastrou como vírus de coolness, em Nova Iorque e não só, sentiu-se copiado na atitude e na playlist e fez “Losing My Edge”, um exercício de indignação e ironia perante a usurpação de ideias e referências por parte de pessoas que, ao contrário dele, não tinham estado “lá”. Todo o discurso é um pouco patético, e por isso irresistível. James Murphy chateado com os “putos mais bonitos, com melhores ideias e mais talento” que têm em mp3 toda a sua coleção de discos e mais ainda, aproveita para se gabar da coleção de discos e faz um interminável name dropping das suas bandas de eleição.

[“Losing My Edge”:]

Três anos depois da edição original em maxi, este épico fundador foi incluído no primeiro álbum e enuncia o essencial para percebermos James Murphy e o LCD Soundsystem. Por um lado, dá-nos o ponto de vista do “trintão” que se sente ameaçado pelos “mais novos” e pela facilidade com que, na era da internet, conseguem ter informação na ponta da língua sobre coisas que nunca viveram (a tal “borrowed nostalgia for the unremembered eighties” como ele diz com quase desprezo). Por outro, avança com uma lista de nomes que servem de coordenadas para entender o universo da banda. Além disso, revela uma das maiores forças de Murphy enquanto escritor de canções: a desarmante honestidade. “On Repeat”, por exemplo, também do primeiro álbum, expressa um dos grandes dilemas dos músicos ditos underground: “Gostava de me queixar mais sobre os ricos, mas depois os filhos deles iam correr pela rua e aparecer em todos os concertos. Ninguém quer isso”. James Murphy nunca lidou bem com o hi(p)sterismo.

O LCD Soundsystem e a DFA não estavam sozinhos na cena de Nova Iorque, havia The Strokes, Yeah Yeah Yeahs ou The Rapture, por exemplo. Os Rapture foram, aliás, fundamentais para a afirmação da DFA e para James Murphy treinar os seus dotes de produção e escrita de canções (a sua marca está por todo o primeiro álbum da banda). Todos estes grupos tinham algo de obviamente retro, mas que soava fresco naquele presente, sobretudo a quem não conhecia as bandas do punk e pós punk de quem vinham muitas das ideias.

A capa do primeiro álbum dos LCD Soundsystem, editado a 24 de janeiro de 2005

Fazendo justiça à teoria que diz que as modas se repetem a cada 20 anos (hoje, mais rapidamente, acredito), o que aconteceu no início deste século replicou o que se tinha passado em Nova Iorque 20 anos antes, quando os estilhaços do punk começaram a abrir caminho para a new e no wave, punk funk, disco punk, e outros estilos desviantes que cruzavam guitarras com congas, sintetizadores, ruído, eco… Bandas como Talking Heads, Konk, Liquid Liquid, ESG, e outras, estiveram no epicentro desse fervilhar criativo e há partículas de todos eles no som do LCD Soundsystem e várias outras bandas do início do séc XXI. Na altura, colectâneas como New York Noise (Souljazz) ou Mutant Disco (Ze Records) ajudaram também a recuperar o espírito e os nomes dessa época, fornecendo um contexto histórico para um presente efervescente e citacionista. O LCD Soundsystem nunca escondeu, antes celebrou, os seus heróis e eles nunca foram só de Nova Iorque. A sombra de Mark E Smith e dos The Fall (de Manchester) esteve sempre presente, sobretudo na forma desdenhada e nasalada com que, às vezes, “canta”. Em 2004, em entrevista ao jornal britânico The Guardian, Murphy afirmava: “Sempre fui um bom imitador. Adoro música. Não sou assim tão original”.

É relativamente fácil identificar as referências por detrás das canções do primeiro álbum da banda e não há mal nenhum nisso. “Daft Punk is Playing At My House” não soa a Daft Punk (só a punk eletrónico), mas coloca-os em cena (já estavam desde “Losing My Edge”, quando se gabava de ter sido “o primeiro a passar Daft Punk aos putos do rock, no CBGB”). “Movement” tem linha de sintetizador à Suicide e título de álbum dos New Order, mas evoca sobretudo The Fall. Murphy já terá dito que os The Fall eram os seus Beatles, mas citou os próprios Beatles em “Never As Tired As I’m Waking Up” cuja guitarra é quase decalcada de “Dear Prudence”. Esta é uma das canções mais calmas e, talvez por isso, foi das menos valorizadas na altura, mas, tal como “Great Release” (que lembra Brian Eno da fase Taking Tiger Mountain) merece ser redescoberta precisamente por sair fora do baralho.

[“Daft Punk is Playing at my House” ao vivo no programa de David Letterman em 2007:]

“Thrills”, segundo o próprio Murphy, está entre “Warm Leatherette” dos The Normal e “Get Ur Freak On” de Missy Elliott/ Timbaland. “Disco Infiltrator” tem um sample de Kraftwerk e orienta-se a partir dele, “Give It Up” lembra Gang of Four e “Tired”, uma das canções mais enérgicas do disco e da banda, apesar do título, é no wave misturada com Stooges. “Beat Connection” (com o rescaldo do 11 de Setembro estampado na frase “it’s the saddest night out in the USA”), inspira-se nas desbundas rítmicas de Liquid Liquid e confirma o regresso em força do cowbell como instrumento fétiche. Claro que também há Talking Heads, um pouco por todo o lado mas sobretudo em “Yr City Is A Sucker”. Tal como abundam referências a disco, house e techno, no fundo, o que faz pulsar o LCD Soundsystem em pista (a versão de “Throw” de Carl Craig, muito tocada ao vivo pelo LCD Soundsystem por esta altura, é avassaladora!).

Nada disto tira pertinência artística, relevância histórica, charme ou eficácia ao álbum de estreia do LCD Soundsystem. Das canções mais obscuras aos singles mais adesivos (como “Yeah”), dos épicos que desenvolvem em pista de dança, a energia concentrada em canções com pouco mais de 3 minutos, o disco continua consistente e forte. Quinze anos depois, é seguro dizer que sobreviveu ao hype e justo reconhecer que, este disco e toda a atividade de James Murphy, tornaram a nossa cultura musical mais rica,  porque nos fizeram ir à procura das raízes (e se não fizeram então, podem fazer agora, é sempre tempo). No balanço atual, não perdeu edge nenhum.