Francisco Rodrigues dos Santos já escolheu a sua direção e teve de equilibrar várias sensibilidades. Desde logo, o novo líder rodeou-se dos seus soldados da Juventude Popular (que importou para a direção nacional), tentou uma união (até agora com pouco êxito) ao escolher membros das outras listas e optou por figuras de uma ala mais conservadora do partido — e quase não tem mulheres. Um dos seus vice-presidentes disse mesmo em 2002 que a homossexualidade era “uma doença que não é normal” e tentou impedir uma marcha de orgulho LGBT no Porto. João Almeida não gostou da forma como o tentaram associar à ida do seu apoiante António Carlos Monteiro para a direção e há militantes que votaram em Lobo d’Ávila descontentes com o facto de ter aceitado ser ‘vice’ do novo líder.

Na lista para a Comissão Política Nacional, outra curiosidade: a sogra de Francisco Rodrigues dos Santos integra a lista. Isto não é uma novidade: já fazia parte da comissão política de Assunção Cristas, na lógica de divisão de sensibilidades que normalmente ocorre. Por outro lado, paridade é um conceito que não existe na nova comissão executiva (que também não havia na anterior, embora o fosso não fosse tão grande): na direção de “Chicão” não há mulheres vice-presidentes e apenas duas estão no órgão de cúpula do partido.

A tentativa de ‘união’ (que não está a resultar)

É a máxima de manter os amigos próximos, mas os adversários mais próximos ainda. À semelhança do que costuma ser a negociação pós-moções no CDS, o novo líder convidou elementos das duas listas vencidas para a cúpula do partido.

[“Não seremos muleta de ninguém”. O primeiro discurso de “Chicão” como líder]

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Desde logo, escolheu para primeiro vice-presidente Filipe Lobo d’Ávila, o terceiro candidato mais votado deste fim de semana, com 14,5% dos votos. O antigo secretário de Estado da Administração Interna não tinha aceitado “arranjinhos” com Cristas, mas tinha feito saber que estava disposto a integrar uma solução para promover a unidade do partido (independentemente de quem ganhasse).

Em troca, Lobo d’Ávila, que costuma encabeçar uma lista ao Conselho Nacional, não avançou para aquele órgão. Vantagem: isso aumentará a votação na lista apoiada por Rodrigues dos Santos (que tem de enfrentar a de João Almeida). Dará também uma imagem de maior pacificação do partido.

Francisco Rodrigues dos Santos integrou ainda, numa estratégia de ter as várias sensibilidades do Congresso, um dos apoiantes de João Almeida: António Carlos Monteiro. O antigo secretário-geral do CDS era da linha de Cristas e foi o número dois de Almeida nas legislativas no círculo de Aveiro. Mas o facto de procurar a união não significa que a consiga.

João Almeida lamentou este domingo ter ouvido uma falsidade sobre a forma como este convite a António Carlos Monteiro ocorreu: “Ouvi as declarações, ouvi que o convite foi feito na minha presença e é mentira”. O candidato revelou que o seu antigo apoiante lhe deu “conhecimento do convite” que foi feito pelo novo líder do CDS, mas, além de ter avançado que o convite não foi feito na sua presença, João Almeida revelou que “não sabia se ele ia aceitar ou não”. E acrescentou, de forma crítica: “O convite não tem problema. O presidente do partido é livre para convidar quem quiser. Agora, para legitimar [a aceitação], não é preciso dizer que houve um envolvimento que não existiu.” Durante a tarde de sábado, o Observador assistiu a uma conversa entre António Carlos Monteiro e Francisco Rodrigues dos Santos durante cerca de meia hora numa das laterais do pavilhão.

A conversa entre Francisco Rodrigues dos Santos e António Carlos Monteiro

Na direção mais alargada, Rodrigues dos Santos integrou ainda Abel Matos Santos (candidato que abdicou a seu favor horas antes da votação das moções) como vogal da comissão executiva. A tendência TEM fica assim também representada. A TEM quer, à semelhança de outros grupos que apoiam Francisco Rodrigues dos Santos, que o antigo líder Manuel Monteiro seja refiliado no CDS.

Nenhuma mulher nas vice-presidências e apenas duas como vogais

Depois de o CDS ter sido liderado por uma mulher, nem o presidente, nem nenhum dos sete vice-presidentes, nem o secretário-geral, nem o coordenador autárquico são do sexo feminino. Ou seja: não há nenhuma mulher nos nove lugares cimeiros. Na anterior Comissão Executiva havia seis mulheres (a presidente e uma vice-presidente e quatro vogais), agora há apenas duas mulheres como vogais.

O antigo líder parlamentar do Bloco de Esquerda, Pedro Filipe Soares, já atacou Francisco Rodrigues dos Santos com um tweet a criticar a ausência de mulheres nos lugares cimeiros: “A paridade de género nas vice-presidências do Francisco Rodrigues dos Santos é um regresso do CDS às origens.” Uma crítica do Bloco de Esquerda, para a estratégia de “Chicão”, é uma medalha.

As tropas de Rodrigues dos Santos

As “gentes” de Francisco Rodrigues dos Santos, como lhe chamou António Pires de Lima, integram naturalmente a comissão política do novo líder do CDS. ‘Chicão’ levou para a sua cúpula várias daquelas que são as suas pessoas de confiança. Desde logo, o seu braço-direito e vice-presidente na Juventude Popular, Francisco Laplaine Guimarães. Laplaine Guimarães é amigo próximo, sempre acompanhou o atual líder nas lutas da ‘jota’ e exerceu até as funções de assessor de imprensa nesta campanha para a liderança.

Para secretário-geral do partido, o novo líder chamou outro dos seus amigos mais próximos e também vice-presidente da Juventude Popular: Francisco Tavares. ‘Chicão’ escolhe pessoas em quem confia e o seu amigo Francisco já tinha sido também secretário-geral da JP. Isto significa que muita da estrutura da direção do novo CDS passará por aquilo que tem sido a estrutura das direções de Francisco Rodrigues dos Santos na JP.

Depois, Francisco Rodrigues dos Santos chamou para a sua equipa aqueles que o apoiaram. Do Porto, por onde elegeu uma parte significativa dos delegados que o apoiaram, o novo líder escolheu como vice o presidente da concelhia, Miguel Barbosa (sobre o que defende, já lá vamos). Outro dos vice-presidentes escolhidos foi o rosto da sua candidatura em Viseu: Paulo Duarte. Em novembro, Paulo Duarte tinha representado a fação ‘Chicão’ contra a função Cristas-Almeida nas eleições para a distrital, mas perdeu para Francisco Mendes da Silva. Ainda numa lógica regional, Francisco Rodrigues dos Santos chamou Artur Lima para a sua direção, mas fez questão de lhe dar uma vice-presidência política para que ficasse claro que este não integrava a direção por inerência, por ser presidente do CDS/Açores — onde haverá em breve eleições regionais.

Há mais um vice-presidente que era apoiante de Rodrigues dos Santos: Sílvio Cervan. É um antigo deputado, associado a uma ala mais conservadora do partido que também se notabilizou como vice-presidente do Benfica de Luís Filipe Vieira. Há aqui um equilíbrio dos principais clubes lisboetas: Rodrigues dos Santos é do Sporting e foi um dos apoiantes do atual presidente Frederico Varandas.

Um ‘vice’ que defendeu que a homossexualidade “é uma doença que não é normal”

Aumenta a importância do cargo ocupado, aumenta o escrutínio. O até agora presidente da concelhia do CDS do Porto, Miguel Barbosa, passou a ser vice-presidente do partido. No passado, o agora dirigente já tinha enfrentado João Almeida, quando este era presidente da JP e Barbosa era presidente da distrital.

Em junho de 2002, Miguel Barbosa, como presidente da distrital da JP, anunciou que ia pedir ao Governo Civil que impedisse qualquer desfile no âmbito da Semana do Orgulho Gay, que estava a ser planeado para o Porto. “Não é com desfiles ordinários que se consegue seja o que for”, disse na altura. Miguel Barbosa afirmou ainda na época que “a sexualidade de cada um é assumida na intimidade e no recato do lar” e classificou a homossexualidade como “uma doença que não é normal”.

Na altura, segundo relatou o jornal Público, as associações de defesa dos direitos dos homossexuais protestaram contra o líder distrital da JP Porto. A associação Não Te Prives considerou as declarações “um ataque claro aos direitos da população homossexual”. Paulo Vieira, dirigente da associação, classificou ainda as afirmações como “discriminatórias e homófobas” e acusou o centrista de produzir “um discurso de ódio”.

João Almeida ficou na altura do lado das associações. Como líder da Juventude Popular, fez um comunicado a demarcar-se de Barbosa, onde dizia que a “opinião pessoal deste dirigente [Miguel Barbosa] a ninguém mais vincula, não correspondendo em absoluto a qualquer tomada de posição da Juventude Popular quanto ao tema versado”. João Almeida destacava ainda que a JP “é uma organização de matriz democrata-cristã, que tem a tolerância como valor fundamental da sociedade” e acrescentava: “Entendemos que o direito à manifestação faz sentido na medida em que não ponha em causa a ordem pública e o equilíbrio social”.

Questionado este domingo pelo Observador sobre se mantém as suas posições, Miguel Barbosa recusou-se a “comentar frases descontextualizadas, truncadas de forma torpe, que represtinam casos artificialmente criados há quase 20 anos, sem qualquer atualidade e que só servem os interesses daqueles que querem enlamear o partido e colá-lo a um radicalismo que ninguém subscreve”.

A sogra (que continua) e os críticos de Cristas na CPN

Francisco Rodrigues dos Santos tentou ainda ter várias sensibilidades na escolha de vogais da Comissão Política Nacional — o órgão de direção mais alargado — embora abrigue vários críticos de Cristas. É o caso de Altino Bessa, crítico da direção de Cristas e importante apoiante de Lobo d’Ávila, ou de Pedro Pestana Bastos, um dos principais opositores de Cristas no Congresso de 2018, em Lamego.

Com a saída de Francisco Rodrigues dos Santos a noiva é uma das vice-presidentes que pode assumir a liderança interina da JP. (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Outro elemento curioso é que Francisco Rodrigues dos Santos escolheu a sogra (mãe da namorada e também dirigente da JP, Inês Vargas) para integrar a sua lista como vogal da Comissão Política Nacional. Rosa Guerra é mãe da namorada de ‘Chicão’, mas também vereadora da coligação PSD/CDS na Câmara Municipal do Bombarral. Foi a número dois da lista por Leiria às legislativas e foi eleita em 2017 líder distrital do CDS de Leiria. A sogra do novo líder já ocupava aquele cargo com Assunção Cristas.