No primeiro dia de junho do ano passado, o Liverpool confirmou uma profecia que estava escrita desde a temporada anterior. A derrota na final da Liga dos Campeões de 2017/18, às mãos de um Real Madrid que ainda era de Cristiano Ronaldo e de um Zidane pré-Lopetegui e Solari, deixou os reds de Jürgen Klopp com um amargo de boca ainda maior do que o normal em caso de desaire. A lesão de Salah, os erros de Karius, o azar de um modo geral: nada correu bem ao Liverpool em Kiev. E Klopp teve de esperar por Madrid.

Em junho de 2019, contra o Tottenham, o Liverpool conquistou a Liga dos Campeões que escapava há quase 15 anos, a histórica sexta do palmarés do clube inglês e o primeiro título de Jürgen Klopp desde que chegou a Inglaterra. E fez tudo isso depois de uma reviravolta frente ao Barcelona que vai ficar para sempre nos livros de História, fez tudo isso pouco depois de lutar pela vitória na Premier League até à derradeira jornada e fez tudo isso enquanto todos acreditavam que este Liverpool, o Liverpool de Klopp, seria aquele tipo de equipas que iria sempre até ao fim para nunca ganhar nada. Em junho de 2019, o Liverpool exorcizou os fantasmas de Kiev em Madrid.

Esta terça-feira, na primeira mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões, o Liverpool regressava a Madrid. A Madrid e ao Wanda Metropolitano, o estádio onde derrotou o Tottenham com golos de Salah e Origi, para defrontar o Atl. Madrid de Diego Simeone. Na primeira ronda a eliminar da defesa do título europeu, o clube inglês cruzava-se com os espanhóis que procuravam na Europa a salvação de uma temporada que se antevia gloriosa e que se está a revelar praticamente vazia.

Ainda sem João Félix, ainda sem Herrera, ainda sem Trippier mas com o regresso de Diego Costa às convocatórias, Simeone surpreendia ao lançar Lemar no onze inicial: o médio ex-Mónaco está longe de ser um habitué nas escolhas iniciais do treinador argentino e aparecia na condição de titular para tentar desacreditar aquilo que Klopp achava que sabia sobre a equipa espanhola. O que o técnico alemão sabia de certeza, tal como mostrou na antevisão da partida, era que tanto ele como Simeone eram dos treinadores mais hiperativos no banco de suplentes. “As pessoas dizem que sou emotivo junto à linha. Se eu sou nível 4, diria que o Diego é nível 12. É como se eu estivesse no jardim de infância, ao pé dele. Depois de tantos anos lá, oito anos…é muito tempo. Continuar a ter este nível de emoção é absolutamente impressionante”, disse Klopp.

A titularidade de Lemar foi a grande surpresa de Simeone no onze do Atl. Madrid contra o Liverpool

Nível 4 ou 12, no jardim de infância ou na universidade, Jürgen Klopp aparecia em Madrid com aquele que é, nesta altura, o onze mais forte do Liverpool: Mané foi poupado no fim de semana, ao não ser titular, e voltava às opções iniciais, Fabinho aparecia de início no meio-campo e Joe Gomez estava ao lado de Van Dijk na defesa. O Atl. Madrid, que apresentava Correa e Morata na frente de ataque, entrou em campo com duas linhas claras de quatro que se juntavam na hora de defender e só precisou de quatro minutos para mostrar que as mentes teóricas que diziam que o Liverpool já estava apurado se apressaram no diagnóstico.

Quando as equipas ainda se estudavam mutuamente, Saúl acabou por inaugurar o marcador com alguma sorte à mistura: canto batido na direita, Fabinho é surpreendido quando a bola lhe vem parar aos pés e acaba por fazer a assistência perfeita para Saúl, que ao primeiro poste só precisou de encostar à saída de Alisson (4′). Surpreendido com a desvantagem precoce, o Liverpool assentou arraiais no meio-campo do Atl. Madrid mas mostrava algumas dificuldades na hora de transformar a óbvia superioridade na posse de bola em oportunidade, esbarrando na muralha espanhola. Além da defesa organizada da equipa de Simeone, o Liverpool parecia estar a viver uma noite algo desinspirada, com Trent Alexander-Arnold a desenhar cruzamentos disparatados, algo raro no lateral, e Mané e Salah a desperdiçarem as escassas desatenções da defesa do Atl. Madrid.

Entretanto, e a realizar precisamente o jogo que lhe é mais confortável, acabava por ser o Atl. Madrid a beneficiar das melhores oportunidades da primeira parte. Morata viu Robertson, com um grande corte, roubar-lhe o desvio ao segundo poste depois de um cruzamento perfeito de Renan Lodi (20′) e permitiu a Alisson, pouco depois, uma defesa importante depois de tirar Fabinho do caminho (26′). O avançar dos minutos no relógio levaram o Atl. Madrid cada vez mais para trás, com o bloco totalmente recuado e próximo da própria grande área e o Liverpool a colocar o elemento mais defensivo na linha do meio-campo. Na ida para o intervalo, e com o Atl. Madrid ainda em vantagem, a equipa de Simeone estava totalmente tranquila a defender durante 95% do tempo para depois lançar o contra-ataque nos restantes 5%.

No início da segunda parte, tanto Simeone como Klopp optaram por mexer desde logo: o argentino tirou um mais do que discreto Lemar para lançar Marcos Llorente e o alemão trocou Mané, ainda com pouco ritmo e já com um cartão amarelo, por Origi. Depois de alguns lances de pouco discernimento em que o Liverpool cometeu erros na saída de bola e permitiu ao Atl. Madrid subir as linhas, os ingleses voltaram a colocar-se por completo no meio-campo adversário e Salah ficou muito de empatar, depois de um grande cruzamento de Alexander-Arnold (53′). O avançado egípcio cabeceou ao lado e desperdiçou a melhor oportunidade de que tinha beneficiado até então, já que era claramente o elemento do Liverpool mais marcado, pressionado e limitado pelos espanhóis, com dois jogadores do Atl. Madrid a caírem sempre em cima de Salah.

Simeone tirou Morata para lançar Vitolo e fez regressar Diego Costa, que entrou para o lugar de Correa. Jürgen Klopp desfez de vez o habitual tridente ofensivo e tirou Salah, que teve sempre pouco espaço para construir, para colocar Oxlade-Chamberlain em campo. Henderson acabou por sair com dificuldades físicas já nos últimos dez minutos — depois de protagonizar a melhor oportunidade do Liverpool, ao rematar ao lado já no interior da grande área — e Simeone ia pedindo o apoio das bancadas, olhando para a vitória como uma possibilidade cada vez mais provável. O último quarto de hora foi jogado quase por inteiro no terço mais recuado do Atl. Madrid, que já abdicava por completo de estender o jogo e separar as linhas e estava totalmente focado na defesa do resultado.

Apenas pela terceira vez esta temporada, o Liverpool terminou um jogo sem marcar qualquer golo, perdeu no Wanda Metropolitano e vai para a segunda mão dos oitavos de final em desvantagem na eliminatória. Já o Atl. Madrid, cujas vozes mais pessimistas apontavam como eliminado logo à partida, surpreendeu com um arranque forte, uma consistência que raramente demonstrou desde o início da temporada e venceu de forma inteiramente justa pela estratégia delineada na perfeição. Ainda que esteja tudo em aberto para o segundo jogo, até porque a vantagem de um golo é mais do que escassa para visitar Anfield com tranquilidade, a verdade é que Diego Simeone bateu Jürgen Klopp, bateu o campeão da Europa e bateu os críticos. O nível 12 de Simeone apanhou de surpresa o nível 4 de Klopp.