O julgamento do caso da morte de Marco Ficini sofreu um primeiro adiamento. E um segundo. E um terceiro. À quarta, apesar do pedido de alguns advogados argumentando a existência de arguidos que tinham também essa condição no caso de Alcochete e queriam estar presentes nos dois locais, foi mesmo de vez. E a terceira sessão chegava já com um grande adiantamento de todos os trâmites, com a audição de Luís Pina, acusado de um crime de homicídio qualificado e outros quatro tentados. Esse seria o grande ponto de interesse esta terça-feira.

[O resumo do dia 2 do julgamento do caso Marco Ficini]

No primeiro dia, marcado pela presença na sala de Alano Silva entre os 22 arguidos – sendo que três falharam essa sessão inicial no Campus da Justiça – depois de ter fugido para Angola no âmbito do do caso de Alcochete, o que levou à emissão de um mandado de detenção internacional e à realização de um processo à parte (ainda que não se esperasse que fosse extraditado por nacionalidade angolana), prestaram declarações um elemento da claque encarnada No Name Boys e três da claque verde e branca Juventude Leonina, todos representados pelo advogado Manuel Cabaço. De resto, mais ninguém falou. E assim se avançou para o segundo dia, com testemunhas.

Entre os oito minutos em que que Danilo Ossuman falou para basicamente explicar que não tinha estado junto à rotunda Cosme Damião nem nas imediações do Estádio da Luz e os vários depoimentos de spotters que referiram a (pouca) ajuda prestada na investigação por decisão da própria Polícia Judiciária, passando pelos testemunhos de Luís Pereira, inspetor da Polícia Judiciária da Unidade Criminal e primeiro a encontrar Marco Ficini no chão já sem vida, e João Manuel Ferreira, inspetor chefe da Polícia Judiciária que foi o titular do processo por estar ainda na altura na secção de homicídios, o segundo dia ficou marcado pela audição de família e amigos do adepto italiano que era apoiante do Sporting, que falaram não só na estabilidade profissional e financeira de Ficini mas também no atual estado da mãe, que na altura tinha o apoio direto no domicílio do filho mais novo.

[O resumo do dia 1 do julgamento do caso Marco Ficini]

Neste terceiro dia, que apesar do dispositivo policial reforçado dentro e fora da sala do Campus da Justiça voltou a contar apenas com quatro arguidos da claque No Name Boys (a divisão de bancos, com os adeptos encarnados à direita e os verde e brancos à esquerda, facilita a identificação), voltou a falar-se e muito da 32.ª sessão do julgamento do caso de Alcochete por haver quase metade dos advogados presentes em comum nos dois processos antes do juiz presidente Francisco Henriques dar início aos trabalhos, já com Luís Pina na sala (pouco depois das 10h15), uns minutos antes das 10h30 e ouvindo por videoconferência Ângelo Varela, um dos poucos elementos da Unidade Metropolitana de Informações Desportivas que não tinha sido ouvido na passada terça-feira.

“Quando a PJ pediu para que tentássemos identificar alguns adeptos, deslocámo-nos às instalações deles. Certezas não tinha, indiquei apenas dois ou três nomes para que depois continuassem as diligências nesse sentido”, disse, num primeiro testemunho que voltou a demorar cerca de três minutos e com apenas duas perguntas para o spotter que na altura fazia mais o acompanhamento das claques do Benfica antes de uma interrupção de alguns minutos devido a um problema na câmara onde as testemunhas prestavam depoimento que demorou mais tempo a ser resolvido (neste caso ajeitar o foco da imagem) do que propriamente o testemunho que se seguiria – e com o juiz presidente Francisco Henriques de quando em vez a colocar as mãos na cabeça entre comentários entre o ângulo, o cabo ou a possibilidade de falar de pé na tentativa de acelerar algo que todos percebiam que seria rápido.

– “Mas não prescinde porquê? Não viu nada, ninguém viu nada…”, questionou ainda durante a espera o juiz presidente, a propósito de uma testemunha que a procuradora do Ministério Público não quis abdicar.

Francisco Pinto, chefe da Unidade Metropolitana de Informações Desportivas desde 2015 que acompanhava mais os adeptos do Sporting, acabou por ser então chamado enquanto se resolviam os problemas técnicos. “Fui chamado para ir à Judiciária com a minha equipa, indicámos algumas pessoas de ambas, a partir de imagens de um lado e de outro, nem houve nenhuma formalidade. Foi só passado um vídeo sem qualidade, ainda perguntámos se era preciso mais alguma coisa mas não disseram nada…”, salientou. “Então olhe, sem mais formalidades veja lá se reconhece aqui alguém”, atirou o juiz Francisco Henriques, quando se preparava para ligar o computador ao cabo da TV na sala para mostrar algumas imagens do circuito CCTV junto à rotunda Cosme Damião.

Depois de se aproximar da TV onde iam passando as imagens, Francisco Pinto explicou que nessa zona não tinha conseguido reconhecer ninguém, apenas nas imagens dos carros quando saíram do Estádio José Alvalade. “Eles vêm por aqui, depois isto parece uma tourada”, dizia Francisco Henriques. “Este aqui quase que aposto que é o adepto italiano”, acrescentou. “Não, olhe que não é esse. Veja a cor das calças dele”, respondeu Carlos Melo Alves, advogado de Luís Pina. “Então mas ele era o último, não?”, retorquiu. “Não, não era o último”, ouviu entre as descrições que iam sendo feitas por parte de quem já viu as imagens por variadas vezes.

O ator que acabou como “testemunha com credibilidade discutível”

Seguia-se então a segunda tentativa para falar com a testemunha seguinte por videoconferência, Ricardo Castro, ator e produtor. “Lembro-me que passava das 2h da manhã, estava na minha casa no sétimo andar onde tenho vista privilegiada para o Estádio da Luz. Junta-se sempre pessoal ali, para bater palmas, para apoiar ou para chamar nomes. Aquilo que pensava era que estavam à espera do autocarro. Abri o estore e percebo que está uma grande quantidade de indivíduos, alguns com umas tochas verdes e estavam a bater com palmadas, com ferros e com pedras tudo o que era carro. Os carros iam-se tentando desviar. Lembro-me que entretanto esses mesmos carros começaram a afunilar numa zona perto das piscinas, que vai dar à Avenida Lusíada. Lembro-me de um carro, um Renault Clio, que até decorei por ser o mais simples, e um indivíduo que tinha um ferro que começou a bater, a bater, a bater”, começou por explicar entre muitos outros detalhes deixados na primeira intervenção.

“Percebi que queriam ir àquele carro em especial. A intenção era mesmo partir, agredir. Esse carro tinha outro a travá-lo à frente e outro atrás. Por isso, deu uma guinada para fugir a quem estava a chamar os outros para lhe irem fazer mal, para o irem matar. Depois, esses indivíduos iam fazer uma espécie de ataque final a esse automóvel. A seguir, todos os indivíduos fugiram que nem ratos, trepavam escadas, desapareceram. Houve um carro que ainda fez marcha atrás e seguiu. Depois chegou um outro carro, saiu um senhor e levantou os braços, quase a dizer ‘O que é que vocês fizeram…’. Não fui logo lá abaixo por medo ou batiam-me. Desci depois e estava um taxista e um PSP. O taxista até estava semi detido porque o polícia pensava que tinha sido ele a fazer o atropelamento e fui eu que disse que o taxista não tinha culpa nenhuma, até deixei o meu contacto. Até às 6h ou 7h da manhã, nem consegui adormecer, estava de mão dada com a minha mulher”, completou antes das questões da procuradora.

– Primeiro foi a parvoeira, pareciam miúdos da escola a ver quem era o maior mas depois galgou porque não bater no carro só para meter medo, era mesmo mais. Aquilo foi um momento de tanta aflição, de tanto medo…
– Tem a certeza que a pessoa atropelada era a pessoa que estava a bater no vidro do carro?
– Sim, essa pessoa rodeou o carro e tinha um ferro. Ouvia-se perfeitamente que era metal enquanto chamava os outros e estavam a preparar-se para um ataque final e o condutor deu uma guinada para que não o agredissem.
– Tinha carros à frente e também atrás?
– Sim, à frente tinha e atrás também porque afunilava, alguém resolveu parar e o único sítio que aquele Renault Clio conseguia ir era aquele, para a zona das piscinas. O que bateu com o ferro era o mais violento de todos. Os outros davam umas pantufadas, até houve um homem que ficou cheio de medo e que só ia levar a namorada…
– Junto ao passeio também do lado direito estariam mais pessoas?
– Não me lembro de ver mais pessoas, só de ver esse homem a bater, a bater, a bater e a chamar os outros…
– Quando houve então a debandada geral?
– Depois de ter sacudido, depois dessa guinada, as pessoas que faziam parte do grupo desse senhor… No meio do instinto de sobrevivência, com dois espelhos no carro, tudo muito rápido, é impossível ter tudo… Todo esse grupo desse senhor, que tinha um indivíduo com qualquer coisa do Sporting, uma camisola, ia fazer um último ataque, a dizer ‘Eh pá matem, é aquele! É aquele!’, e fez marcha atrás provavelmente para assustar. Com essa guinada não foi atropelado nem esmagado, foi só projetado. Essa guinada ainda criou mais fúria para irem atacar esse automóvel, essa pessoa. Os carros queriam desviar-se, eles é que iam para cima dos carros. Chegavam a abrir as portas dos carros em andamento só para agredirem…

Um dos juízes começou então a fazer perguntas de forma mais detalhada sobre o que viu em momentos distintos daquela madrugada. Por exemplo, que as agressões ao Renault Clio tinham sido no lugar do condutor e no lugar ao seu lado, para onde foi pela frente. “Ele guinou para o lado da pessoa e…”, disse. “Queremos saber o que o senhor viu mas objetivamente, não é o que viu e o que acha, isso compete-nos a nós”, atirou um dos juízes, que de quando em vez ia abanando a cabeça com algumas respostas. “A primeira imagem que tenho foi a batalha campal. Vi carros que vinham da outra rotunda e alguns deram várias voltas à rotunda. Houve um carro, um Mercedes ou um BMW, um carro bom, que deu umas quantas voltas à rotunda. O Clio veio com outros carros e depois ficaram todos ali afunilados”, reforçou, antes de Francisco Henriques fazer também algumas perguntas.

– Então passou por cima dele quando fez marcha atrás…
– O carro estava parado, o senhor do ferro estava a bater, faz marcha atrás, dá uma guinada e sacode-o. Ele cai no chão e depois faz marcha atrás mais uns metros…
– Não, sacode, volta ao mesmo sítio, depois faz marcha atrás e volta a ir embora, ficou atropelado…
– E o carro estava à frente ou atrás do corpo?
– À frente.
– Então como passou por cima dele a fazer marcha atrás?
– Não, o senhor do Clio guinou o carro, sacudiu-o…
– Ok, até aí tudo bem…
– Depois volta ao seu lugar e há carros que começam a ir embora porque ultrapassou alguns limites
– Mas passou por cima do corpo?
– Não, só na marcha atrás quando os outros começaram a correr…
– Mas afinal quantas vezes passou o carro por cima do corpo?
– Só uma vez.
– Então mas como é que isso é possível?
– Porque ficou preso… Quando fez a marcha atrás passa por cima. Ele raspou, não passou por cima, empurrou-o, foi arrastado pela marcha atrás…
– Então não passou por cima do corpo?
– Passou.
– Então afinal?
– Primeiro foi sacudido, depois o carro arrastou, não passou por cima…

De seguida, o advogado da família de Marco Ficini quis apenas que a testemunha precisasse esse primeiro impacto, voltando também a dizer que procurava respostas objetivas. “Deu uma guinada, sacudiu o senhor que acabaria por falecer, sim. Se estava de pé? O senhor caiu, foi atingido, o carro sacudiu-o com a parte lateral…”, comentou no final do depoimento que ainda mereceu uma pergunta de Melo Alves, advogado de Luís Pina.

É uma testemunha cuja credibilidade pode ser muito discutível. Como vocês se perceberam…. Aquilo que se vê piscar de olhos, como já foi aqui falado, quando se fala muito depois é um problema. Esta testemunha é a primeira testemunha que coloca Ficini como uma figura violenta não sei se corresponde à realidade, que fique bem claro”, confidenciou já depois da sessão Carlos Melo Alves.

O perito que explicou uma perceção que um novo vídeo acabou por alterar

O advogado de defesa do adepto acusado de um homicídio qualificado e quatro tentados chamou depois Rui Silva, engenheiro mecânico de 38 anos que é perito na análise deste tipo de situações e que fez um relatório de várias páginas (pelo menos 37, como foi dizendo enquanto explicava o que apurou) sobre o que poderá ter acontecido. “O Renault Clio estava numa posição elevada quando bate no BMW, o que me leva a crer que já estaria por cima do corpo. Velocidade não consigo apurar porque não tenho medidas e preciso disso para quantificar as energias”, começou por referir, sobre a comparação dos danos no carro conduzido por Luís Pina e os vestígios no local.

“O atropelamento ocorre antes do impacto. O peão podia não estar numa posição vertical. Segundo o relatório da autópsia, que mostrava lesões severas na cabeça, no tórax e na bacia que, em termos técnicos, estão sempre num nível máximo, mas isso não é acompanhado pelas lesões nas pernas, que têm apenas escoriações. As próprias lesões mostram que o peão estaria tombado e só depois foi atropelado”, argumentou entre explicações técnicas para essas conclusões, acrescentando que “um corpo de 92 quilos provocaria danos na parte da frente do carro”, o que acabou por não se verificar. “O vidro da frente estava 43% partido, sendo que a parte do condutor era 54%. Ou seja, não conseguia ver, tinha de se desviar para o lado direito ou para o lado esquerdo de cabeça de fora para poder ver. Pode ter escorregado, porque a cabeça ficou do lado direito e o resto do corpo ao centro do carro. Até me parece que é no impacto entre o Clio e o BMW que o corpo acaba por desprender”, salientou.

Depois, o “momento” do dia: o coletivo de juízes chamou a testemunha e os advogados (se bem que também um dos arguidos, os jornalistas e as duas pessoas que estavam a assistir à sessão se colocaram de pé mais atrás para tentarem ver o que estava em causa) para verem imagens do atropelamento que nunca antes tinham sido vistas nem sequer pelos advogados e onde se vê o carro de Luís Pina, o Renault Clio, a dar solavancos na zona da rotunda de forma presumível com o corpo de Marco Ficini por baixo e sem outras viaturas à volta, o que acabou por gerar alguma estupefação entre todos os presentes – sobretudo porque, e em resumo, acabou por contradizer quase tudo o que tinha sido antes na sessão. “Não vejo embate nenhum nestas imagens, até estão afastados…”, atirou um dos juízes. “Ninguém viu estas imagens, nem sequer aqueles senhores ali que já fizeram o acórdão e tudo”, acrescentou o juiz presidente, numa “indireta” aos jornalistas que estão a acompanhar o julgamento.

“Tenho de analisar estas imagens e depois vou tomar uma decisão processual. Aquilo que o Luís Pina sempre disse era que tinha atropelado, os peritos da Polícia Judiciária escreveram e disseram que as marcas eram compatíveis com esse outro carro, as imagens não mostram a dinâmica com que tudo aconteceu… Aquilo que se vê nesse vídeo, sem analisar melhor, é já o momento em que a vítima está a ser atropelada, não mostra o ponto inicial do atropelamento. Vamos ver em que circunstâncias isso aconteceu. São imagens que se encontravam no processo mas estavam de tal forma escondidas. O coletivo entendeu que deviam ser visionadas, foram e vamos trabalhar agora essas imagens”, comentou no final desta terceira sessão do julgamento Carlos Melo Alves. A próxima sessão está marcada para a próxima semana, devendo as alegações finais começar logo no início de março