Frank-Jürgen Richter foi um dos diretores do Fórum Económico Mundial, com principal foco nos mercados asiáticos e, em 2005, criou o Horasis, um think tank [grupo de discussão com objetivo de criar ideias] que, desde 2016, leva a Cascais  políticos e empresários de todo o mundo. Este ano, o evento que já foi apelidado como “a Davos do Sul”, tem como tema inovar as lideranças em tempos de rutura. Como diz o organizador, os atuais governos estão a falhar, há “uma crise na classe média” e “a tecnologia está a criar empregos, mas só para uma elite muito pequena”.

Estamos a assistir a uma escravatura moderna, porque muitos empregos podem ser passados [outsourced] para freelancers, já não há nenhuma segurança no emprego”, diz Frank-Jurgen Richter.

A edição de 2020 do Horasis Global Meeting realiza-se em Cascais, de 28 a 31 de março, no Centro de Congressos do Estoril. Em 2019, também em conversa com o Observador, Frank-Jürgen Richter já mostrava uma faceta de arauto das desgraças, afirmando que ia acontecer “uma crise económica global” Este ano, justificando-se, afirma que tal “já está a acontecer”. “Se se olhar para países como Itália, [percebemos que] está numa crise profunda. A Alemanha, que é um pilar económico da Europa está a alcançar 0% de crescimento”, diz.

Esta crise também está a espoletar problemas sociais, diz referindo-se à uberização da economia (modelos de trabalho como o de motoristas da Uber, em que não há empregador direto). Segundo Richter, a tecnologia não está salvaguardar as mudanças necessárias, isso cria problemas sociais e há mudanças políticas.

Para o responsável do Horassis, é preciso intervenção dos governos para colmatar as falhas que a revolução tecnológica está a criar. “A pergunta tem sido se podemos pegar num trabalhador metalúrgico e educá-lo como um programador informático. Acho que não. Há muitos empregos que se vão perder”, justifica. E é esta mudança, de acordo com o antigo diretor do Fórum Económico Mundial, que está levar a uma “falha” na classe média.

O melhor exemplo disto [crise na classe média face à disrupção tecnológica na economia] é França. Veja-se o movimento dos coletes amarelos, é o descontentamento da classe média. Sentem que foram deixados de fora da globalização”, refere.

Atualmente, há cada vez menos empregos que possam dar estabilidade e segurança a esta faixa da população que está a diminuir em muitos países, refere. Por causa disso, “há uma revolução política a acontecer. As revoluções no passado eram espoletadas pela classe dos trabalhadores, agora é pela classe média (…), os que já não podem dar a educação que esperavam dar aos filhos”. Estas mudanças estão também a criar alterações políticas, diz o alemão. “Veja-se a América do Sul e veja-se o Chile, tiveram uma revolução. Era a Suíça da América do Sul. A Colômbia também está a ter protestos e era uma país relativamente seguro [na zona]”, justifica.

2020 vai ser um ano decisivo. Há eleições [nos EUA], há conflitos geopolíticos e questões na Ásia e muitas tensões. 2020, do ponto de vista da economia, vai ser um ano de queda, já se prevê que estamos em queda”, volta a dizer Frank-Jürgen Richter.

Neste cenário macro, o responsável do Horassis olha muito para os EUA, que já só são competitivos “em Silicon Valley e à volta de Boston [indústria tecnológica]”. Não só pelo exemplo de rutura que a liderança de Trump mostra — que, apesar disso, “tem uma liderança forte –, mas pelos impactos que esta administração está a ter. “Vemos que muitos dos tratados do passado, como a NATO, a ONU, até a construção europeia (com o Brexit), estão a falhar (…). Os parceiros tradicionais já não trabalham uns com os outros”, refere.

Hong Kong, para mim, não é uma questão política, é uma questão económica. estas pessoas jovens vão para a rua porquê? porque Hong Kong é um lugar caro, e estes jovens não têm capacidade para viver. não casam porque não podem sustentar uma família e, outra vez, é uma crise da classe média”, afirma.

E sobre o fim de parcerias, a guerra económica entre os EUA e a China parece-lhe ser o ponto principal do futuro da economia mundial, até porque este país asiático “está agora na vanguarda da tecnologia”, devido aos avanços no reconhecimento facial e a inteligência artificial. “São muito modernos no que toca a tecnologia, mas fica a questão: usar ou abusar da tecnologia? [A China levanta] Muitas questões, como a Huawei e sobre os dispositivos que andam por todo o lado e podem espiar pessoas”, diz. Contudo, para Frank-Jürgen Richter, “não se pode dizer que a China devia ser governada à maneira portuguesa ou americana” porque “é uma cultura diferente, com antecedentes diferentes”.

O que é blockchain?

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blockchain é uma estrutura de dados que regista transações virtuais. Cada transferência tem um código associado que permite que não seja alterada. Por não funcionar num só sistema único e ser compartilhado em rede numa base de dados a que todos podem aceder, permite saber que transações são feitas. É devido a esta tecnologia que se surgiram as criptomoedas, como a Bitcoins. Ao registar os movimentos feitos por ser de acesso público, dá aos utilizadores confiança de que os resultados não são adulterados.

O nome significa “cadeia de blocos”, referente aos blocos de informação criados, que se interliga com outros automaticamente, para tornar o sistema fiável. A tecnologia permite a dois utilizadores fazerem transações sem intermediação de terceiros com, teórica, máxima segurança.

É também relativamente às questões que a China levanta, e sobre os temas que vão ser discutidos este ano no Horassis, que Frank-Jürgen Richter refere o impacto que as criptomoedas e a tecnologia blockchain estão a ter na economia. “As pessoas confundem sempre blockchain e as criptomoedas, mas o blockchain está a expandir. As criptomoedas não estão a subir como antes”, como já tinha antecipado em 2018.

A China está a investir em criptomoedas, mas basta olhar para o que o Facebook está a fazer e toda a oposição dos bancos centrais. Acho que o Facebook está a perder. Os estados nunca vão largar o controlo das políticas monetárias”, refere.

Quanto à conferência que organiza, e que quer continuar a levar a Cascais nos próximos anos, refere que esta edição antecipa uma próxima importante: “o próximo ano [2021] é uma altura muito boa, porque Portugal vai ter a presidência da União Europeia”. Segundo o organizador, esta liderança portuguesa pode levar ao Horasis aquilo que o Fórum Económico Mundial leva a Davos, na Suíça — atuais líderes máximos de países que ainda não marcaram presença, como França, EUA ou Reino Unido.

O Horasis Global Meeting 2020 decorre em Cascais de 28 a 31 de março, no Centro de congressos do Estoril. Em 2018, mais de 600 empresários, governantes e especialistas de todo o mundo estiveram presentes. Este ano, além de representantes do governo português, como o primeiro-ministro António Costa, a conferência vai contar com nomes como José Manuel Barroso, vice-presidente da Goldman Sachs International e antigo presidente da Comissão Europeia, Hank McKinnell, presidente do conselho de administração da Moody’s, ou Yonov Fred Agah, diretor geral adjunto da Organização Mundial do Comércio.

Este ano, no final da conferência, e tendo em conta o que será discutido sobre estes e outros temas na conferência, o objetivo de Frank-Jürgen Richter é que os participantes assinem “uma Declaração de Cascais com propostas de uma nova liderança” com ideias para “reformar”, por exemplo, as Nações Unidas.