Para Martin Braithwaite, é um conto de fadas. Para o Barcelona, é uma solução estilo penso rápido para um problema que não deverá ficar resolvido. Para o Leganés, é mais um obstáculo numa temporada que já não estava a ser nada fácil. Esta quinta-feira, 20 dias depois do encerramento oficial do mercado de inverno, o Barcelona anunciou a contratação de Braithwaite, até aqui avançado dinamarquês do Leganés. E na frase anterior é mesmo necessário sublinhar “20 dias depois do encerramento oficial do mercado de inverno”.

Mas a história começa antes. Começa no início de janeiro, quando Luis Suárez se lesionou e foi confirmado que iria falhar o resto da temporada. No mercado de inverno, e com uma mudança de treinador à mistura, o Barcelona emprestou Carles Aleñà e Abel Ruiz para encaixar uma almofada financeira para se atirar ao mercado em busca de um avançado. As negociações com o Valencia pelo nome predileto, o ex-Benfica Rodrigo, caíram dias antes do fecho do mercado, Cédric Bakambu, uma solução de última hora que vinha da China, ficou pelo caminho, e Trincão só é reforço em julho: à meia-noite de 31 de janeiro para 1 de fevereiro, o Barcelona não tinha contratado ninguém para esta época.

Os adeptos mostraram-se preocupados, a imprensa espanhola não deixou o assunto passar incólume mas o cenário até nem era, pelo menos nessa altura, dantesco: afinal, o Barcelona continuava a ter Messi, Griezmann, Ansu Fati e ainda Dembélé, acabado de regressar depois de se ter lesionado em novembro num jogo da Liga dos Campeões. O problema foi que, ainda antes de voltar aos relvados e apenas duas semanas depois de ser reintegrado, Dembélé voltou a lesionar-se durante um treino ainda com maior gravidade. Rotura muscular total, cirurgia na Finlândia, final da temporada e ausência do Euro 2020. E o avançado francês voltava a deixar o Barcelona com apenas três jogadores de ataque, sendo que nenhum deles é um avançado-centro de raiz.

E é aqui que chegamos a Braithwaite. Sem um avançado de área claro, com o mercado fechado, com um treinador acabado de chegar e lutas internas entre plantel e diretor desportivo, o Barcelona via-se preso numa encruzilhada numa altura em que faltam cerca de três meses para o final da temporada. A opção era só uma: ativar um cenário previsto nos regulamentos da Federação espanhola e pedir, com base na extensão da ausência de Dembélé (o avançado francês vai ficar de fora durante seis meses e o requisito mínimo para esta cláusula são cinco meses), uma janela de mercado individual e extraordinária. A Federação aceitou o pedido e concedeu ao Barcelona 15 dias para contratar um avançado.

Como esta é uma regra interna do futebol espanhol, o Barcelona só poderia contratar jogadores a um outro clube espanhol e estava ciente de que o novo elemento não poderia ser inscrito na Liga dos Campeões. As possibilidades, à partida, eram três: Lucas Pérez, do Alavés, Ángel Rodríguez, do Getafe, e Martin Braithwaite, do Leganés. O último, e também aquele com a cláusula de rescisão mais elevada (18 milhões de euros), foi o escolhido. Esta quinta-feira, o Barcelona anunciou a chegada do avançado norueguês de 28 anos que já passou por Toulouse, Middlesbrough e Bordéus mas nunca deixou grandes saudades em nenhum dos clubes.

Braithwaite está longe de ser um prodígio ou um diamante em bruto. É uma solução fast food que o Barcelona repete, depois de na temporada passada ter assegurado o surpreendente empréstimo de Kevin-Prince Boateng (que não marcou nenhum golo, fez quatro jogos, saiu para a Fiorentina no verão e já foi emprestado ao Besiktas em janeiro). Ainda assim, Braithwaite era o melhor marcador do Leganés, com oito golos: um Leganés que está em penúltimo, a lutar pela manutenção, e que não terá a oportunidade que o Barcelona teve para contratar um substituto para o avançado. Para os adeptos do Barcelona, Braithwaite é um jogador “de segunda” que provavelmente não terá grande sucesso em Camp Nou; para os adeptos do Leganés, Braithwaite era um dos principais ativos numa campanha pela permanência na primeira liga que vai durar até ao fim da época.

Mas Braithwaite à parte, a verdade é que o Barcelona continua a viver um período de substancial instabilidade interna. Depois de a Cadena SER ter revelado, no início da semana, que o Barcelona patrocinou “contas-fantasma” que tinham como objetivo melhorar a imagem pública do presidente Josep Maria Bartomeu e denegrir a dos jogadores, depois de o mesmo Bartomeu ter negado a história e ter garantido que vai rescindir contrato com a empresa que prestava esses serviços, depois de o presidente ter convocado uma reunião de urgência com o plantel, Lionel Messi deu uma entrevista. Um Messi que nunca falou tanto como agora, que nunca foi tanto a cara da equipa como agora e que ainda não está convencido de que o esquema destapado pela Cadena SER não é verdade.

“Isto apanhou-me de surpresa porque estava a viajar. Quando cheguei, enteirei-me de tudo. O presidente disse-nos o mesmo que disse na conferência de imprensa. Qual era a situação, o que se tinha passado e que não podia dizer muito mais. O mesmo que todos sabem. A verdade é que acho muito estranho acontecer uma coisa destas. Mas também diziam que havia provas. Temos de esperar para ver se é verdade ou não. A mim, na verdade, pareceu-me muito estranho”, disse o jogador argentino ao Mundo Deportivo. Messi garantiu ainda que “não pensa” em sair do Barcelona, que gostava muito de que Neymar voltasse ao clube mas que também gostaria da contratação de Lautaro Martínez, do Inter Milão, e que “passou mal” com o despedimento de Ernesto Valverde.