Quatro diretores desportivos em cinco anos. A instabilidade diretiva do Barcelona, que no relvado se mostra na política de contratações, na relação entre o plantel e a cúpula do clube e na paciência com protagonistas que representam a instituição há vários anos, é um dado inegável na história recente dos catalães. Em cinco anos, Zubizarreta, Robert Fernández, Pep Segura e Éric Abidal foram os homens fortes do futebol do Barcelona — e o número pode estar prestes a aumentar novamente.

Esta terça-feira, como culminar de uma série de sinais de alarme que davam conta de que nem tudo estava bem no Barcelona, estalou a guerra civil no clube catalão. Tudo começou com uma entrevista de Abidal, diretor desportivo, ao Sport e ao Mundo Deportivo, os principais jornais desportivos da Catalunha. O dirigente francês abordou vários temas da atualidade do clube, incluindo a contratação de Trincão, mas foi quando foi questionado sobre a recente destituição de Ernesto Valverde e consequente substituição por Quique Setién que as palavras de Abidal se tornaram uma espécie de rastilho. O antigo jogador assumiu que deu o primeiro passo rumo ao despedimento de Valverde e explicou os motivos, atirando farpas aos jogadores.

Discussão no treino, falta de harmonia, críticas internas: como o fim de um ritual explica o que se passa no Barcelona

“Via os jogos e não olhava para o resultado mas sim para a forma como se jogava, para a tática, para o trabalho dos jogadores, que não jogavam muito. Foco-me nesses detalhes. Muitos jogadores não estavam satisfeitos nem trabalhavam muito e também havia um problema de comunicação interna. A relação entre o treinador e o balneário foi sempre boa, mas há coisas que enquanto ex-jogador consigo entender. Comuniquei ao clube aquilo que pensava e disse que era necessário tomar uma decisão”, disse Abidal. A reação às declarações do diretor desportivo não foi institucional mas quase: Lionel Messi, na respetiva conta pessoal do Instagram, respondeu à entrevista de Abidal e fez eclodir em definitivo uma cisão entre plantel e dirigente.

“Honestamente, não gosto de fazer estas coisas mas acho que cada um tem de ser responsável pelas suas funções e assumir as próprias decisões. No caso dos jogadores, daquilo que se passa no relvado, para além de que somos os primeiros a reconhecer quando não estamos bem. No caso dos responsáveis da direção desportiva, também devem assumir as suas responsabilidades e sobretudo assumir as decisões que tomam. Por último, acho que quando se fala de jogadores era bom dar nomes porque caso contrário estamos a sujar todos e a alimentar coisas que se dizem e que não estão certas”, escreveu o jogador argentino, numa rara tomada de posição contra um antigo colega. A resposta de Messi, que para além de ser o elemento mais importante da equipa é também o capitão e o líder indiscutível do grupo, abriu a porta a uma crise interna no Barcelona que está a ter repercussões já esta quarta-feira.

Messi e Abidal foram colegas de equipa e conquistaram juntos duas Ligas dos Campeões

Josep Maria Bartomeu, o presidente do clube, está em Bruxelas em representação do Barcelona no Parlamento Europeu mas vai regressar de urgência a Espanha ainda esta quarta-feira para reunir com Éric Abidal. A manutenção do francês no cargo não é um dado adquirido e é, aliás, a via de negociação menos provável — não só pelo episódio da entrevista mas também por aquilo que foi o mercado de inverno que terminou na semana passada. Abidal assumiu o cargo de diretor desportivo no verão, quando as contratações de De Jong e Griezmann já estavam fechadas, e fez parte do grupo de trabalho que falhou o resgate de Neymar ao PSG. Já em Janeiro, e face à lesão grave de Suárez, o Barcelona falhou a contratação de um avançado — as negociações por Rodrigo não foram bem sucedidas, assim como as por Chimy Ávila, Trincão só chega em julho e Cédric Bakambu voltou para trás quando já estava prestes a apanhar um voo rumo a Barcelona.

Quem também já reuniu esta quarta-feira foi Messi com os restantes capitães de equipa: o jogador argentino quis perceber se a opinião do restante plantel ia ao encontro da sua, principalmente tendo em conta que o balneário catalão tem um forte contingente francês que é próximo de Abidal. Segundo o AS, os restantes capitães — Busquets, Piqué e Sergi Roberto — garantiram a Messi que os jogadores apoiam a resposta à entrevista do diretor desportivo e defendem a demissão de Abidal, para que a novela não se transforme numa bola de neve e possa existir um novo capítulo. Griezmann, Dembélé, Umtiti e Lenglet, os franceses, incluem-se no respaldo sem ressalvas ao capitão.

Além da crítica aos jogadores para justificar a saída de Ernesto Valverde, Abidal ainda contradiz Xavi na entrevista. Na antecâmara do despedimento do treinador espanhol, o diretor desportivo aproveitou a Supertaça de Espanha, disputada na Arábia Saudita, para se deslocar a Doha e convidar Xavi para assumir desde já o comando técnico do Barcelona. A proposta foi confirmada pelo próprio antigo jogador dos catalães, que acrescentou que recusou por achar que não se tratava do timing correto. Abidal, por sua vez, garante que não feito qualquer convite ao atual treinador do Al Sadd. “Não houve oferta. Se ele a tem, que a mostre, porque nunca a vi. Na primeira reunião que tivemos, o Xavi ouviu. Na segunda, tinha de nos apresentar um plano. O que saiu na imprensa eram coisas mais políticas do que desportivas. Não faço política, só falo de futebol. A mim só me interessa falar da maneira de trabalhar de um treinador e saíram muitas coisas menos tudo aquilo que falámos”, atirou o francês.