A Farfetch apresentou prejuízos de 373,688 milhões de dólares em 2019, mas os investidores reagiram em alta, com as ações da empresa a subirem mais de 15% na bolsa de Nova Iorque. Para Luís Teixeira, responsável pelas operações da loja online de moda de luxo no mundo todo, a explicação é esta: “O mercado não olha a prejuízos, preocupa-se é que isto seja um negócio com resultados operacionais sólidos“.

Ao Observador, o Chief Operations Officer (COO) do primeiro unicórnio (empresas avaliadas em mais de mil milhões de dólares) com ADN nacional, explicou que a reação do mercado se deveu ao facto de a empresa ter apresentado receitas e um EBITDA [lucros antes de juros, impostos, depreciações e amortizações, ou seja, os resultados operacionais] acima das expectativas dos analistas. “Isto reflete o quão positivos os nossos resultados são“, afirmou.

“O valor no qual temos de nos focar é o EBITDA, que é o resultado operacional da empresa, e que sofreu não só uma grande melhoria face ao ano anterior como também em relação ao trimestre”, explicou Luís Teixeira.

Nas contas divulgadas na quinta-feira, a Farfetch apresentou uma margem (diferença entre as receitas e os custos) nos resultados operacionais negativa em 5,3% no último trimestre do ano e negativa em 13,6% no ano todo. Apesar de serem valores negativos, são melhores do que os apresentados no último trimestre de 2018 (8,6% negativos) e no final desse ano (19% negativos). Em teoria, quanto mais elevadas forem as margens de um negócio, mais sólido ele é. Quando as margens são negativas, a lógica é inversa: quanto mais estiverem a descer, melhor sinal é.

Se os resultados operacionais foram melhores, porque é que os prejuízos mais do que duplicaram? “Por causa de uma coisa da qual nos orgulhamos imenso: as ações que damos às nossas pessoas, que têm de vir nas contas em algum lado e que entram para aquilo que são os prejuízos”, explicou Luís Teixeira ao Observador.

Os colaboradores da Farfetch recebem uma compensação em ações da empresa, um valor que depois vai sendo distribuído ao longo de algum tempo. Se as pessoas entretanto saírem da empresa, mantêm as suas ações. “Estamos orgulhosos enquanto empresa por continuarmos a investir nas nossas pessoas e acho que o mercado olha para isso de forma positiva. Tivemos um bom ano e estamos a dar um reconhecimento às pessoas.”

Nas contas dos prejuízos entraram também as aquisições feitas durante o ano de 2019 — no último ano, a Farfetch comprou a empresa de calçado Stadium Goods por 250 milhões de dólares e a plataforma de marcas de design New Guards por 675 milhões —, que “representaram um grande investimento e têm ativos que são intangíveis e com amortizações diferentes”.

À semelhança do que já tinha sido dito em comunicado por Elliot Jordan, responsável pelas finanças da Farfetch, o caminho agora faz-se em direção aos lucros. Para 2021, fica a promessa de as operações da Farfetch se tornarem rentáveis. “Até agora eram os analistas a apontar 2021 como a data possível para o break-even [momento a partir do qual o negócio passa a ser rentável], mas ontem fomos nós que dissemos que temos como objetivo atingir o break-even no EBITDA ajustado, ou seja, nos resultados operacionais da empresa, nesse ano.”

“O interesse do analistas é que a empresa tenha capacidade para, dentro da sua atividade normal, gerar fluxo de caixa positivo, é esta a linha sobe a qual estamos a falar, a do EBITDA ajustado. Quando estamos a falar em negócios em hiper crescimento e muito investimento, aquilo que realmente é muito importante é garantir que a empresa atinja o break-even no EBITDA, no resultado operacional.”

Menos promoções levaram a margens superiores

Em agosto, a Farfetch apresentou uma alteração na estratégia do negócio, explicou Luís Teixeira, que passava por deixar de fazer tantas promoções no site. Resultado? “Tivemos uma margem superior ao que era esperado, conseguimos vender mais com mais margem.”

“Decidimos que não queríamos continuar a fazer muitas promoções, que íamos preservar o nosso negócio com a totalidade dos preços (full price) e menos promoções. E olhando para os últimos seis meses trimestres, este foi o primeiro trimestre em que gastamos menos em promoções”, afirmou o COO.

Com esta alteração, a empresa tentou direcionar a “aquisição de clientes muito mais por inspiração e aí tivemos o sucesso de crescer mais do que o esperado, mesmo depois de revir o nosso guidance em baixo”. A par disto, a loja online de moda de luxo começou a ter “algumas alavancas de eficiência”: “Somos mais eficientes, não é por acaso que dividimos o capítulo 1 do capítulo 2 e tivemos uma fase em que investimos imenso em tecnologia”.

Sobre a forma como os analistas e investidores reagiram à notícia da compra da New Guards, em agosto, Luís Teixeira explicou que o mercado não entendeu a estratégia que estava por detrás da compra.

“Entendeu como um desviar daquilo que é a nossa estratégia de longo prazo, quando isto encaixa totalmente na nossa estratégia de sermos a plataforma líder na moda de luxo. Entendeu que isto era um aumento muito grande de complexidade e que nos estávamos a meter num negócio de muito stock e muito risco. Mas não é uma empresa que tenho muito risco de stock, muito pelo contrário.”

O COO explicou que foi a compra da New Guards que permitiu à empresa lançar mais um produto, o Farfetch Beat, uma estratégia de lançamento de coleções únicas para alavancar a comunidade exclusiva de parceiros e marcas da empresa. “Sentíamos que estávamos a criar menos promoções, mas que a oportunidade de crescimento estava lá e tínhamos de criar uma forma de inspirar e, no fundo, criar o desejo por um produto que é limitado. E a melhor forma de o fazer era adquirindo uma plataforma especialista na criação de conteúdos.”

E deu um exemplo: no dia em que lançaram os produtos resultantes da parceria entre a Off-White e os Nike Air Jordan, a Farfetch registou o momento em que mais pedidos teve no site por minuto: foram 16 milhões por minuto. “Foi maior do que qualquer pico da Black Friday em 2019”. Este lançamento foi feito através da plataforma da New Guards e não teve qualquer investimento em marketing digital, referiu Luís Teixeira.

“Quando fizemos o investimento já sabíamos qual era a nossa estratégia e para onde queríamos caminhar. Queríamos uma plataforma que fosse respeitada, que criasse marcas e conteúdos. Portanto, estamos muito mais fortes com a New Guards”, afirmou.

Para 2020, a empresa quer continuar a crescer, mantendo as margens que tem agora e controlando os custos fixos. “Se temos o objetivo de atingir o break-even em 2021, isto não foi algo que começámos há três meses. O que temos de fazer é continuar a entregar e capturar quota de mercado, mas não a qualquer custo ou de forma a que as nossas margens sejam prejudicadas. Vamos continuar a investir na plataforma e na tecnologia”, esclareceu Luís Teixeira.

Isto não quer dizer que o investimento da empresa vai abrandar, porque o “negócio já é tão grande” que tem um “potencial imenso para entregar eficiência”. A loja online de moda de luxo tem mais de 2 milhões de utilizadores ativos, mais de 500 marcas parceiras direitas e mais de 20 clientes corporativos.

Em 2019, a loja online de moda de luxo faturou mais 52% do que em 2018, ou seja, mais de 2 mil milhões de dólares (2.139 milhões). As receitas também subiram 69% para 1.021 milhões de dólares e, segundo José Neves, a Farfetch cresceu a sua plataforma digital quase duas vezes mais rápido do que a indústria de luxo online.

Fundada em 2008 por José Neves e com sede em Londres, a Farfetch é a plataforma tecnológica líder global para a indústria da moda de luxo. Estreou-se na Bolsa de Nova Iorque a 21 de setembro de 2018, com um preço por ação de 20 dólares. Foi a primeira startup com ADN nacional a valer mais de mil milhões de dólares e a entrar para o grupo dos unicórnios.