Título: O Silêncio das Mulheres
Autor: Pat Barker
Editora: Quetzal
Ano da Edição: fevereiro de 2020
Páginas: 380
Preço: 18,18€

“Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida
(mortífera!, que tantas dores trouxe aos Aqueus
e tantas almas valentes de heróis lançou ao Hades,
ficando seus copos como presa para cães e aves
de rapina, enquanto se cumpria a vontade de Zeus),
desde o momento em que primeiro se desentenderam
o Atrida, soberano dos homens, e o divino Aquiles.”*

Aquiles é o primeiro grande herói grego. É em torno dele — ou melhor, da sua “cólera” — que se desenrolam os acontecimentos narrados na Ilíada, o primeiro poema homérico sobre a reta final da Guerra de Troia, o conflito que opôs gregos e troianos na luta por uma mulher, Helena, a mais bela do mundo. Homero começa por lhe chamar “o divino”, mas ao longo da Ilíada, Aquiles vai acumulando muitos outros epítetos: às vezes é “o glorioso”, outras “o valente”; muitas vezes é o “de pés velozes” e será para sempre o “filho de Peleu”. Para as mulheres do último romance de Pat Barker, não era nenhuma dessas coisas: “Para nós, ele era ‘o carniceiro’”, declara Briseida logo na primeira página. Era o assassino cruel de pais, irmãos e filhos.

Briseida é uma das personagens femininas que, embora relevante, não tem voz na Ilíada, um poema que fala sobre a força, orgulho e honra masculinos. Uma “falha” que Barker se propôs a colmatar em O Silêncio das Mulheres, romance que reconta a história da Ilíada da perspetiva de Briseida, a narradora, e de outras mulheres que com ela foram feitas prisioneiras e tornadas escravas, incluindo sexuais, dos homens que mataram as suas famílias. Não quer isto dizer que O Silêncio das Mulheres é a história das mulheres da Guerra de Troia, porque não o é — o romance descreve, tal como o poema de Homero, a história de Aquiles, embora oferecendo um olhar renovado sobre um herói que é muito mais complexo do que aquilo que aparenta ser.

Em O Silêncio das Mulheres, a complexidade do filho de Peleu vai sendo revelada por um narrador improvável. Pouco se sabe sobre Briseida — Homero nada adianta na Ilíada além do facto de ter sido oferecida como troféu a Aquiles após o saque de Lirnesso, a sua cidade, e de isso ter causado o atrito com Agamémnon, comandante supremo do exército grego, que levou a “greve” do herói, à morte de Pátroclo, à de Heitor e à sua, anunciada no poema de Homero pelo seu cavalo, possuído pelas Fúrias, e concretizado no romance de Barker depois de profetizado pela sua mãe, a deusa Tétis. Pat Barker, autora conhecida sobretudo pela trilogia Regeneration, passada na Primeira Guerra Mundial, dá-nos assim a oportunidade de conhecer melhor a mulher que talvez a seguir a Helena mais influência teve na Guerra de Tróia e que, em última análise, levou à morte de Pátroclo e, depois, à de Aquiles.

Isso é feito através de vários saltos cronológicos, entre o tempo presente e o passado, durante os quais a escrava de Aquiles vai descortinando a vida anterior em que, apesar das limitações da condição de mulher, acredita que lhe era permitido existir, ser alguém. Enquanto escrava, uma das poucas funções que tem é a de atender Aquiles, o “carniceiro”, o assassino dos seus irmãos, com quem é obrigada a deitar-se todas as noites. Num ambiente onde impera a violência e a misógina, os únicos atos de bondade chegam-lhe, sem que primeiro o consiga compreender, de Pátroclo, o fiel companheiro de Aquiles que, aos poucos, faz surgir nela sentimentos de lealdade que jurou que nunca teria.

Quando o companheiro de Aquiles morre, assassinado pelo príncipe troiano Heitor, que o confunde com o Pelida no campo de batalha, Briseida sente a sua perda como sentiu a perda da sua família. Ela mesmo o diz, ajoelhada aos pés do seu cadáver: “Tive consciência de que perdera um dos amigos mais queridos que tivera na vida”. Ela apercebe-se da incoerência e, recorrendo a um artifício explorado por Barker ao longo de toda a narrativa, coloca-se no papel do leitor e questiona-se porque é que ama Pátroclo, porque é que está disposta a casar com Aquiles: “Talvez não entendam por nunca terem sido escravos”, responde.

A estranha relação de Briseida e Aquiles é um dos pontos mais interessantes do romance de Barker. O que os une não é amor nem desejo, mas um sentimento muito mais complexo que só se entende à luz da situação que ambos vivem. Da mesma forma, o relacionamento de Pátrocles e Aquiles, unidos por um entendimento que ultrapassa atos e palavras, não se resume a uma mera atração sexual ou aliança militar. Este é o grande feito da escritora britânica, vencedora do Booker Prize em 1995 com Eye in the Door — partindo de uma história que não é sua, Pat Barker conseguiu acrescentar-lhe novas camadas de complexidade sem descaracterizar as personagens de Homero. Aquiles continua a ser Aquiles — um homem que capaz das ações mais extremas e cruéis e ao mesmo tempo dos sentimentos mais profundos —, mas há mais nele do que nos conta o poeta, há uma nova dimensão, que só é possível antever porque a sua história é contada por alguém que está simultaneamente dentro e fora dela.

Essa é o grande milagre de O Silêncio das Mulheres, mas é também a sua grande falha. Por tanto querer sair da história de Aquiles, Briseida acaba por fazer parte dela e, até certa medida, fá-lo conscientemente. Quando tem a oportunidade de fugir, não o faz. Pátroclo é a sua justificação, mas não será Pátroclo apenas uma desculpa? A verdade é que a vida por que anseia, a existência plena enquanto ser humano, está-lhe vedada por ser mulher. Depois da morte de herói, grávida do filho dele, novamente casada e liberta da condição de escrava, Briseida diz que a sua “própria história pode começar”, mas essa história só existe em função de Aquiles, que lhe garantiu um bom casamento e um bom pai para o seu filho.

Se assim é, O Silêncio das Mulheres não pode ser um livro sobre as mulheres da Ilíada, cujas histórias continuam a não ter protagonismo e a existir em função dos homens que as dominam. O romance de Pat Barker é, tal como o primeiro poema homérico, a história da cólera de Aquiles. De Aquiles, “o divino”, “o valente”, “o carniceiro”. Porque o filho de Peleu é isso tudo — umas vezes violento, cruel, outras compassivo e capaz de amar. Complexo, como todos os seres humanos. E é por isso que, apesar de não fazer exatamente aquilo a que se compromete, é tão bom.

* Ilíada, tradução de Frederico Lourenço