Até há poucos dias, o Reino Unido tinha uma estratégia diferente para combater o novo coronavírus. Numa altura em que vários países começavam a fechar escolas e locais públicos, desde museus e outros espaços fechados até parques públicos, o governo do Reino Unido tomou a decisão de atrasar essas medidas.

Porém, as declarações de Boris Johnson na segunda-feira indicam uma clara mudança de rumo. “Chegou a altura de todos pararmos, de reduzirmos os contactos sociais e de deixar de fazer viagens desnecessárias”, alertou o primeiro-ministro britânico esta quarta-feira. “A partir de agora temos de ir mais a fundo”, disse ao país, que registou para já 1.543 casos, dos quais 55 morreram.

Mas, afinal, o que mudou para o governo do Reino Unido mudar de ideias?

A resposta curta é esta: os números assustaram.

De acordo com a BBC, a mudança de rumo do governo britânico surgiu depois de um grupo de cientistas da Imperial College London ter publicado um estudo esta segunda-feira onde eram avaliadas três estratégias para lidar com o novo coronavírus:

  • Supressão, em que se procura quebrar as cadeias de transmissão, promovendo políticas de isolamento e disrupção da vida comum até para quem não tem sintomas, como a China fez;
  • Mitigação, fase que consiste em tentar conter o surto através dos cuidados prestados aos infetados com sintomas mais graves, aceitando que vai haver gente infetada com sintomas ligeiros, levando a uma desejada imunidade pós-infecciosa. Esta tinha sido a estratégia do Reino Unido agora;
  • Não fazer nada, deixando que o vírus se instale na população.

O relato de um médico britânico: “Estão a mandar-nos para o matadouro”

O que os cientistas da Imperial College London concluíram foi que, no caso de não se fazer nada, 81% da população ficaria infetada e 510 mil pessoas morreriam até agosto — uma opção que não foi considerada pelo governo britânico. Porém, a opção da mitigação, que foi praticada até agora, apresentava números preocupantes: cerca de 250 mil mortes, tanto pelo novo coronavírus como por outras doenças que não seriam atendidas perante uma pressão avassaladora do sistema público de saúde.

Por isso, os cientistas da Imperial College London defenderam o modelo de supressão — recomendando-o tanto ao Reino Unido como “aos países que conseguirem mantê-lo”. E de acordo com a BBC e  o The Guardian, foi o facto de as conclusões deste estudo terem chegado ao governo britânico que levou Boris Johnson e os seus ministros a tomarem medidas mais restritivas no combate ao novo coronavírus.

O caminho da supressão, porém, pode ter consequências negativas, sublinha o estudo da Imperial College London. “A supressão, embora tenha tido êxito na China e na Coreia do Sul a esta data, comporta consigo enormes custos sociais e económicos que podem por sua vez ter um impacto significativo na saúde e bem-estar [da população] a curto e longo prazo”, alertam os autores do estudo. Nesta altura, porém, perante a perspetiva de morrerem 250 mil pessoas na sequência desta crise, esse é um risco que Boris Johnson prefere correr.

“Nós não vamos fechar as escolas agora”. A estratégia inglesa tem sido diferente: irá manter-se?