O atrasar do período mais crítico — a tal estratégia da curva sombrero, em vez de um grande esticão no número de casos, para não colapsar o sistema — vai atirar o pico do surto para mais tarde. O pico já não irá ocorrer em meados de abril, como previsto anteriormente. Segundo a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, prevê-se que o pico vai acontecer “nunca antes de maio” e explica: “Se calhar temos de começar a falar em planalto: quando chegarmos ao máximo dos casos da curva, andaremos ali alguns dias ou semanas [nessa fase], até porque sabemos que esta doença dura muito tempo”. Já terça-feira, como noticiou o Observador, este cenário tinha sido apresentado na reunião entre especialistas e líderes partidários.

Na conferência de imprensa diária de ponto de situação Graça Freitas destacou esta sexta-feira que a taxa de mortalidade do surto é de 1,8% em Portugal, mas admite que possa agravar com as consequências de algumas infeções que foram detetadas há pouco tempo.

“Temos poucos mortos nos lares, porque também os surtos nos lares começaram há muito pouco tempo. Entre o início do surto e o desfecho fatal há um período muito longo”, avisa a diretora-geral da Saúde, alertando que o facto da doença ter chegado aos lares pode aumentar a taxa de mortalidade, pois atinge agora ainda mais gente de uma idade de risco.

Graça Freitas pede ainda que os idosos possam ser dispersados por mais edifícios, para diminuir a probabilidade de contágio: “Em cada localidade, em cada vila, em cada concelho, existem lares de idosos. Uma medida preventiva que terá de ser a sociedade a organizar, é antes de aparecer um caso, haver forma de desdobrar a população do lar em duas instalações”.

Sobre os grupos mais vulneráveis, o secretário de Estado da Saúde lembrou que “é preciso não esquecer dos mais vulneráveis” na doença, lembrando os idosos, os doentes crónicos, a população em estabelecimentos prisionais ou as vítimas de doméstica. Para este último grupo, o governante revelou que uma das práticas será testar vítimas de violência doméstica antes de entrarem em casas-abrigo.

“A nossa escolha será sempre pela vida”

O governante lembrou que “a nossa maior arma continua a ser o isolamento social” e que cada um tem o dever de proteger este grupo. E por isso “este não é tempo de complacência, é de resiliência, resistência, de não nos deixarmos vencer pela ansiedade e pelo medo”. É um apelo para que as pessoas não facilitem no momento de ficar em casa.

Sobre os testes, que tem sido uma das questões mais polémicas, António Sales garante que “têm sido testadas mais pessoas”, destacando que “ontem foram testadas 2500 pessoas, para uma capacidade de testagem de 5600”. Além disso, o secretário de Estado revela a “introdução de outro tipo de testes, que não são testes rápidos, mas demoram à volta de três horas”.

Quanto à questão ética em que os médicos podem ser colocados perante uma decisão — entre quem salvar, no caso de ser impossível salvar toda a gente, como já acontece em Espanha e Itália –, António Sales quis deixar claro: “A nossa escolha será sempre uma escolha pela vida.” E acrescenta: “O nosso código ético-deontológico obriga-nos sempre a optar pela vida. Qualquer morte terá um critério clínico, mas não será prescrita, não será uma escolha”.

O secretário de Estado revelou ainda que na “próxima semana” vão começar a chegar “encomendas faseadamente” de ventiladores, além de uma disponibilidade de entidades que oferecem ajuda. Foi criada uma task force de especialistas a avaliar a qualidade desses equipamentos.

Sobre eventual compra, António Sales destaca que o Estado tem “sempre ido ao mercado”, mas tem havido “dificuldades de aquisição, porque há muitos agentes no mercados” e destaca, por exemplo, que “os EUA entraram nesse mercado”. Quanto preço dos ventiladores adquiridos, António Sales destaca que é “muito diferenciado, podem custar 11 mil euros, 15 mil euros e podem ir até aos 80 mil euros”. Há ainda uma outra preocupação com a qualidade, avaliada por uma task force criada para o efeito, que procurará “garantir que o material fica [e é util ao] SNS para além desta crise”.

O governante diz ainda que os 4.500 médicos responderam ao pedido do Serviço Nacional de Saúde para se juntarem ao combate ao surto irá “permitir o equilíbrio entre a atividade e o período de descanso”. Relativamente custo que o Estado terá ao solicitar serviços dos privados, governante não quis confirmar se os privados vão ser pagos pela tabela do SNS, dizendo que a situação está “em estudo”.

António Sales reconhece que nas atuais circunstâncias vão “aumentando situações de depressão. ansiedade, medo, stress”. O governo explica que já existem planos de saúde mental “ativados no Norte e Alentejo” e que “além de reforçar estes planos” o governo vai “estendê-los às outros autoridades regionais no saúde”. O governo diz que os “profissionais” já estão “no terreno” e lembrou que “a própria linha SNS 24 tem também essa componente.

Mais conselhos de Graça Freitas

A diretora-geral da Saúde deixou vários conselhos. Um deles é que as pessoas não devem deixar de ir às urgências: “Se têm mesmo de ir devem ir. Uma pessoa que tem uma doença grave não pode deixar de ir a uma urgência”. E acrescentou: “O mundo Covid não pode perturbar tudo o resto que sejam as nossas doenças e as nossas necessidades.”

Graça Freitas confirmou que existe um risco maior de transmissão mais grave em “locais coletivos e de grande dimensão” onde haja ar condicionado. “Os navios por exemplo. Como calcula, um navio de cruzeiro daquela dimensão funciona com uma enorme capacidade de ar-condicionado”, explicou. Isto porque, o aparelho “pode, a partir das gotículas, aerossolizar, tornar essas gotículas muito mais finas, que ficam em suspensão no ar e são transmitidas a uma maior distância”.

A diretora-geral da Saúde negou ainda que as entidades que decidem localmente cordões sanitários estejam a incumprir as regras, já que as autoridades de saúde “têm competência” para, avaliando o risco, tomar essa medida. “Em determinadas zonas, as autoridades de saúde entenderam, com base na avaliação do risco, que deviam quebrar essa barreira”, acrescentou.