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Marcelo mostrou-se curioso sobre um cenário mais duro que previa pico longo que ia durar 10 dias a meio de maio

RODRIGO ANTUNES/LUSA

Marcelo mostrou-se curioso sobre um cenário mais duro que previa pico longo que ia durar 10 dias a meio de maio

RODRIGO ANTUNES/LUSA

Um pico de dez dias a meio de maio e políticos curiosos. Os bastidores da reunião da elite política com cientistas

  • Texto de Rui Pedro Antunes, Ana Suspiro, Beatriz Ferreira e Rita Penela

Costa juntou políticos, parceiros sociais (nem todos apareceram) e especialistas numa sala. Marcelo quis saber se haveria vacina e porque é que gráfico apontava um pico de 10 dias a meio de maio.

Foi uma reunião entre uma parte de elite nacional, mas que funcionou como uma aula alargada com alguns dos maiores especialistas do país sobre coronavírus. Presidente da República, primeiro-ministro, presidente do Parlamento, líderes partidários e parceiros sociais juntaram-se no edifício do Infarmed, em Lisboa, para serem informados sobre tudo o que se passa em relação ao surto, num encontro promovido por António Costa. Ainda à porta fechada, confirmou o Observador junto de fontes presentes na reunião, Marcelo Rebelo de Sousa registaria a “unidade” entre os partidos e também faria ele próprio uma pergunta aos especialistas: “Quando estará disponível uma vacina para ser comercializada?” Ouviu o que mais tarde contaria cá fora: que o país pode passar o “inverno sem vacina”. Interventivo, o Presidente faria ainda uma pergunta sobre o pico do surto, já que foram mostrados dois gráficos: um que apontava para meio de abril, outro com um cenário que apontava para um pico em meados de maio e com uma duração de 10 dias. Foi sobre este último cenário que o Presidente fez perguntas.

António Costa deixou um apelo aos especialistas — com os outros líderes partidários a assistir — para que as decisões tomadas pelo governo, como “a manutenção do encerramento de escolas” ou de medidas de circulação restritivas, tenham uma “validação científica”. E pediu aos especialistas que o ajudem a explicar a vantagem para a saúde de cada medida tomada pelo governo. Assim, Costa reduz a margem para críticas dos restantes partidos.

O primeiro-ministro sugeriu também que a próxima reunião do género ocorra no fim do mês ou no início de abril, mas “antes da tomada de decisão de prolongamento do estado de emergência“. Neste caso, Marcelo e Costa querem vincular os restantes partidos à decisão de prolongar o que foi decretado pelo Presidente da República a 18 de março. Marcelo Rebelo de Sousa confirmaria esta vontade de nova reunião para essa altura, ao falar aos jornalistas no fim da reunião.

Curioso foi que os partidos não fizeram perguntas por qualquer ordem específica, mas sim por braço no ar. Quem queria, levantava o braço e questionava os especialistas. O líder da oposição, Rui Rio, não falou nem fez nenhuma pergunta (falaria apenas cá fora aos jornalistas). O líder da Iniciativa Liberal, João Cotrim Figueiredo, acabou por ser o primeiro a falar e quis saber se estavam garantidos os materiais de proteção dos profissionais. O líder do PCP, Jerónimo de Sousa, questionou os especialistas sobre se havia um plano estratégico específico para a proteção dos lares de idosos. E o PAN quis saber quais as soluções para a comunidade sem abrigo.

Costa pediu validação científica para as decisões do Governo, Rio não fez perguntas, PCP quis saber de um plano para proteger os lares, Iniciativa Liberal perguntou pelos materiais de proteção e Ventura quis saber dos testes.

A líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, também fez uma pergunta mais informativa. Ninguém destoou. Foi tudo “pacífico“, dizia um líder partidário ao Observador. “Foi uma reunião para lá da fronteira da política”, completava outro líder partidário. Ninguém, explicava ainda outro líder, “questionou a fiabilidade dos números oficiais”. Mas esses números são pesados: “Saí de lá mais preocupado do que quando entrei”, desabafou um dos líderes.

Todos perceberam que neste momento os especialistas não têm grandes certezas e ficou claro que não podem garantir que “não haverá um segundo surto“, nem quando poderá ocorrer. Pelo CDS falou o líder parlamentar, Telmo Correia, fazendo questões sobre a forma irregular da evolução da doença e com preocupações similares às questões que tinham sido feitas pelos restantes partidos.

O líder do Chega, André Ventura, fez uma pergunta sobre se não devia ser seguida uma “política de testes massivos e aleatórios“, já que se revelou eficaz noutros países. E questionou ainda se não é um perigo para Portugal “alguns países como os EUA e o Brasil” estarem a desvalorizar o problema e como Portugal (que permite voos para estes países) vai lidar com isso se eles decidirem manter as suas ligações com o país.

Certo para todos ficou, depois de ouvida a opinião dos especialistas, que a próxima reunião será para debater um novo período de estado de emergência no país e não para o levantamento de qualquer uma das restrições já implementadas. Até porque a evolução da Covid-19 é lenta e exige aos doentes um tempo de recuperação de cinco a seis semanas, não sendo possível aligeirar as medidas antes de decorrido esse tempo.

Como os parceiros sociais (que apareceram) viram a reunião

E se os políticos fizeram muitas perguntas, entre os parceiros sociais também houve dúvidas. Pelo menos entre os que apareceram. É que nem todos os parceiros sociais se fizeram representar ao mais alto nível: a CIP (a maior confederação empresarial em Portugal) não foi e, no caso da CCP e da Confederação do Turismo, os presidentes também não estiveram presentes. A CGTP esteve representada pela sua nova secretária-geral e a UGT pelas duas secretárias-gerais adjuntas (Carlos Silva não estava em Lisboa).

O secretário-geral da CAP, Luís Mira, descreve ao Observador uma reunião séria e científica, com uma apresentação baseada em factos e sem guerras políticas, à semelhança da análise feita pelos políticos. Também a representante da UGT, a secretária-geral adjunta Ana Paula Bernardo, sublinhou o ambiente de grande coesão, para além da preocupação que dominou a reunião.

Ana Paula Bernardo recorda que uma das questões mais recorrentes foi a de quando seria possível aliviar as medidas extraordinárias, mas os cientistas ainda não arriscam previsões, já que não há informação suficiente que o permita concluir.

Houve também perguntas muito concretas que ficaram sem resposta, como a de Luís Mira que quis saber se, quando começar a época da colheita da cereja daqui a um mês, os proprietários devem usar termómetros de recolha rápida de temperatura para monitorizar o estado de saúde dos trabalhadores. A resposta foi pouco conclusiva, até porque há outros sintomas mais comuns, como a tosse, e quando foi sugerido que talvez houvesse uma resposta daqui a um mês, Luís Mira respondeu que já seria demasiado tarde, os produtores teriam de começar já a comprar esse equipamento.

Nas apresentações técnicas foram mostrados exemplos de como estão as coisas a evoluir em outros países, a resposta que estão a dar e os resultados obtidos. Na frente do impacto económico e das medidas para conter esse efeito pouco foi referido, mas a ideia é que os futuros debates passem também a envolver outros especialistas, nomeadamente economistas, sociólogos e até psicólogos.

Os convidados ouviram também a explicação de que só há duas formas de ultrapassar os efeitos do vírus: ou a vacina, que ainda não existe, ou a imunização de 80% da população, o que teria um elevado preço em vidas e iria fazer colapsar o sistema de saúde. Luís Mira avisa que as pessoas têm de se preparar. “Não são apenas duas semanas, nem sequer 30 dias, que vão permitir ultrapassar a situação“.

A leitura dos sindicatos é também que o encontro foi, sobretudo, técnico e nada se falou sobre os direitos laborais dos trabalhadores. Nada que tivesse surpreendido Isabel Camarinha, secretária-geral da CGTP, que na noite anterior já tinha colocado essas preocupações na concertação social, junto do ministro da Economia e da ministra do Trabalho.

No encontro desta terça-feira, “não se tratou das políticas propriamente ditas, foi uma reunião onde os especialistas procuraram explicar os fundamentos das medidas tomadas“, explica Isabel Camarinha. Os técnicos da DGS defenderam que as medidas restritivas tomadas pelo Governo, como o encerramento de escolas e de estabelecimentos de atendimento ao público, estão a fazer “com que a curva [da epidemia] seja menos pronunciada”. Segundo as explicações dos especialistas, a curva deverá ser mais baixa devido às medidas de contenção. “Ou seja, não sobe nem desce repentinamente… vai indo mais devagar, mas será mais prolongada”, acrescenta a sindicalista. As estimativas não são garantias, mas têm por base a análise de outros países e das medidas implementadas em Portugal.

No fundo, “foi uma discussão muito à volta de questões médicas”, conta Ana Vieira, que representou a entidade patronal (o presidente, João Vieira Lopes, não pôde estar presente, justificou). À semelhança da CGTP, optou por não colocar questões. “Muito do que disseram já faz parte das recomendações da DGS“, diz Isabel Camarinha.

Ana Vieira descreve que as questões centraram-se ainda — maioritariamente da parte do PCP — nas medidas preventivas para a população mais idosa: como prevenir a doença e proteger os mais vulneráveis. “[Os especialistas] foram bastante claros. As explicações foram demoradas porque a maioria da audiência não era especialista.”

RODRIGO ANTUNES/LUSA

O resumo do Presidente. Marcelo diz que “há razões para ter esperança”

Da reunião, o Presidente da República retira três conclusões: estão todos unidos, os especialistas têm um papel essencial e os portugueses têm aderido e cumprido com o dever de recolhimento.

Mas também “há razões para ter esperança”, diz Marcelo Rebelo de Sousa, depois de participar na reunião. “Também se diria que era difícil juntar setores políticos tão diferentes. Vieram todos. Todos intervieram. Todos falaram. Todos estavam a remar no mesmo sentido. Todos remaram neste sentido, vão remar no mesmo sentido. Em pequenino, fizemos o que os portugueses estão a fazer nas suas casas: unimo-nos”, notou.

O Presidente da República, que foi dos primeiros a dar o exemplo, cumprindo duas semanas de quarentena em casa depois de contactar, em Belém, com uma turma de uma escola onde foi confirmado um dos primeiros casos da Covid-19 em território português, deixou ainda um recado sobre a “preocupação constante de verdade”: “Ninguém quer mentir a ninguém”.

“Agora, é evidente que à medida que se tem mais dados vai-se ficando mais à vontade para dizer que há de haver um momento em que se atinge o pico”, acrescentou o Presidente. “O número de contaminados não tem crescido ao número que se esperava e o pico pode deslocar-se, mas não é possível dizer quando e como”. Marcelo Rebelo de Sousa garantiu, porém, que está agora “menos preocupado”, porque “os portugueses estão a fazer com que a curva não seja igual à de outros países”.

Marcelo confirmou ainda aos jornalistas que a reunião será para repetir com uma “periodicidade razoável” e que deverá acontecer até ao final do mês. A renovação ou não do estado de emergência, por ele decretado, deverá ser “ponderada conjuntamente”.

Rio: “Quanto melhor para a saúde, pior para a economia”

E se durante a reunião Rio não falou, à saída jfez declarações aos jornalistas. Classificou a reunião como “extraordinariamente útil”, mas não deixou de mostrar preocupação com o lado económico desta pandemia. “Quanto melhor para a saúde, pior para a economia — e isto é dramático de equilibrar”, notou o líder do PSD. “Para a economia é melhor o pico muito alto, mas isso significa que vão morrer mais pessoas”, disse, reconhecendo que as medidas em vigor permitem “achatar o pico”, mas que ao mesmo tempo “prolongam no tempo” a luta contra a Covid-19 e os consequentes efeitos negativos na economia.

“A cada semana que passa, o problema económico que vamos ter lá à frente é mais expressivo e mais grave. Os grandes números estão certos. Isso é inequívoco. O que é melhor para a saúde, é pior para a economia”, frisou Rui Rio, mas sem no entanto deixar de pedir aos portugueses que ficassem em casa: “Estamos a ganhar, mas à custa de dificuldades económicas”.

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