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Raquel Rei e Ana Areias conheceram-se num estúdio de comunicação, no Porto, mas depressa perceberam que o design gráfico não chegava – do que gostavam mesmo era de objetos. Durante uns meses, resolveram tirar uma parte do dia para pôr as mãos na massa e inscreveram-se em aulas de cerâmica com o ceramista José Fraga. “Íamos três vezes por semana, das cinco às oito, e foi muito bom porque em vez de exercícios de artesanato, levávamos algumas referências e ele mostrava-nos como é que as podíamos pôr em prática”, conta Raquel, de 32 anos. “Começámos a desenhar uma coleção dentro da própria aula e no fundo executámos as nossas primeiras peças com a ajuda dele.”

Com as mãos na roda de oleiro, fizeram nascer uma linha de recipientes brancos e cinzentos que encaixavam uns nos outros, à qual chamaram Mesa. “Como vínhamos do design gráfico, queríamos fazer tudo modular, em que a base funciona também como tampa, o que se revelou uma dor de cabeça porque as medidas tinham de sair muito certinhas”, diz Raquel. O esforço compensou, e em 2016 nasceu oficialmente a Madre.

A mesa de apoio, feita em madeira, pode ser comprada com o tampo no mesmo material ou em resina colorida. © Bruno Nacarato/Madre

O nome vem da peça-mãe a partir da qual se fazem os moldes em cerâmica, mas o passo seguinte foi explorar outros materiais além do barro. Vieram os bancos de madeira e as bases em resina, uma original colher de café em latão banhado a prata dourada e, já mais recentemente, peças de arrumação de secretária em silicone maleável e até um colar em mogno.  Tudo com uma linguagem minimal e de inspiração nórdica.

“Tudo isto nos interessa”, diz Ana, de 30 anos, acrescentando que em cima da mesa estão também projetos dentro do têxtil. “Gostamos de criar relações entre os materiais e nem sequer nos colocamos na área da decoração para a casa, porque sentimos que não somos só isso. Preferimos dizer que fazemos objetos em geral.”

As edições são limitadas, o que significa que quando acabam, acabam. Foi precisamente o que aconteceu com estas bases para copos. © Bruno Nacarato/Madre

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Mais do que coleções, têm edições limitadas, em que a escala das peças vai respondendo à procura – um luxo a que se permitem por continuarem a ter o design gráfico como atividade principal, no estúdio que abriram entretanto (Degrau). “As pessoas encomendam e nós vamos produzindo, ou então fazemos pequenas séries em que quando acaba, acaba”, diz Raquel, dando como exemplo as bases para copos coloridas, entretanto esgotadas. “Acabamos por trabalhar sobretudo com produtores pequenos, mais na onda dos makers, que nos conseguem garantir quantidades razoáveis de 100 a 150 peças.” “Por vezes propomo-nos fazer visitas de estudo às fábricas ou ateliers, que acabam por ser uma inspiração”, acrescenta Ana, concretizando: “Gostávamos de fazer uma peça em esmalte, por isso andamos a conhecer fábricas aqui no Norte para perceber como é que eles trabalham. Ultimamente até temos chamado à Madre um laboratório, porque o que acontece é que descobrimos um material e vamos à procura de quem é que nos pode ajudar a trabalhá-lo, como é que se faz, que dureza é que se consegue ter.”

Palavra aos objetos que ainda se podem encontrar à venda:

Bases

© Bruno Nacarato/Madre

São quatro quilos de material, “quase o mesmo de uma peça de mármore”, mas são feitas em resina (polipropileno). Além de funcionarem como bases individuais, disponíveis em várias cores, podem ainda ser usadas como o assento de um banco também criado  pela Madre (que, por sua vez, pode servir como mesa de apoio). “As bases são feitas com um escultor que se interessa por novos materiais”, conta Raquel. “Ele é muito virtuoso, faz desde estátuas das rotundas a próteses e velas de Fátima.” Preço: 228€

Chávenas

© Bruno Nacarato/Madre

Disponíveis em duas cores, verde-menta e amarelo-claro, os copos de cerâmica trouxeram uma surpresa e uma amizade. “Vêm do nosso interesse pela cerâmica e são feitos numa pequena fábrica em Barcelos, onde descobrimos que são  também fabricados muitos dos projetos que admiramos, de Berlim e Copenhaga. É uma empresa familiar e artesanal: quando vamos lá, almoçamos em casa do artesão e trazemos tomates da horta.” Preço: 10€ o par.

Colher

© Bruno Nacarato/Madre

Na verdade, não é bem uma colher, é antes a sua versão minimal: um stick para mexer
o café. “Esta peça veio no seguimento da primeira coleção, em que estávamos a fazer tudo à base de cilindros e, no fundo, só trabalhávamos alturas e espessuras.” Feita em latão banhado a prata dourada, na fábrica da Topázio, a peça é vendida ao par e custa 74€.

Copo alto

© Bruno Nacarato/Madre

São primos das chávenas, mas com mais uns centímetros de altura e outra função. “Achámos que podia ser interessante derivar do formato do café para o escritório e vemos isto como um copo para as canetas. Normalmente esses copos são sempre enormes, mas nós gostamos de ter só duas ou três na secretária.” Preço: 8€

Colar

© Álvaro Martino/Madre

O desafio foi lançado pela Portojoia: fazer uma colaboração com a designer de joias Telma Mota. Do encontro nasceu um fio de prata com uma peça em mogno que junta as formas orgânicas da joalheira com a geometria e as linhas direitas da Madre. Preço: 125€

Banco

© Álvaro Martino/Madre

É o que se chama aproveitamento de espaço. “Esta peça foi uma encomenda de um restaurante: queriam ter bancos inspirados nas tabernas portuguesas, mas em que as pessoas pudessem pousar a carteira e o casaco. Então arranjámos a solução da corda em baixo.” O banco é feito em freixo e no futuro a ideia é que se possa personalizar a cor da corda na loja online. Preço: 80€

Artigo publicado originalmente na revista Observador Lifestyle nº6 – Especial 100% português (novembro 2019).