O distanciamento social e o reforço dos hábitos de higiene, melhorando a forma como lavamos as mãos e as desinfectamos, diminuem as hipóteses de sermos contagiados pelo coronavírus. Mas este esforço de nada serve se continuarmos a manusear objectos potencialmente contaminados, sejam eles o telemóvel ou o automóvel. Um e outro devem merecer a mesma atenção no que respeita à imunização, isto se queremos continuar a evitar a doença que no mundo já infectou 1,5 milhões de indivíduos e liquidou 87.700, números que (infelizmente) não param de aumentar.

Não se sabe ainda tudo sobre este novo vírus que veio da China, mas já se sabe que, à semelhança de outros germes similares, também este possui uma camada protectora de proteínas e gordura. Sucede que qualquer sabão – do azul e branco, mais barato, ao mais macio, cheiroso e mais caro – é constituído por moléculas que atacam a gordura, desfazendo a camada protectora do vírus, acabando com ele. Isto desde que estejam em contacto durante largos segundos (os especialistas apontam para 20 segundos), e daí a necessidade de lavar as mãos prolongadamente. O álcool a 70% procede de igual forma e mais rapidamente.

Porquê a limpeza e desinfecção?

Os automóveis são dos “objectos” mais sujos com que contactamos diariamente, capazes de espalhar todos os tipos de doenças. Já se sabe que o coronavírus é capaz de permanecer activo em determinadas superfícies durante mais de uma semana, o que levanta problemas adicionais no caso de automóveis partilhados. É o caso dos táxis ou viaturas de carsharing, mas também dos veículos de transporte público e automóveis partilhados, como aqueles que estão ao serviço de empresas, onde são utilizados por vários funcionários.

Mesmo no carro da família, se utilizado pelo pai, mãe e filhos, todo o cuidado é pouco, para evitar que, se algum deles for infectado, a Covid-19 não se alastra rapidamente aos restantes, o que só se evita se reforçarmos a limpeza e a desinfecção do veículo.

Pontos a ter em atenção

Há vários locais onde tocamos constantemente – nós e todos os que utilizam o veículo. No exterior, são os fechos das portas e a tampa de acesso ao depósito de combustível, onde é fácil que até os peões que passam possam espirrar e cobri-los com gotículas contaminadas.

No interior, a probabilidade de contactar com o vírus é menor, mas não inexistente, sendo os locais mais problemáticos aqueles com que contactamos mais regularmente. Os mais evidentes são, sem dúvida, o volante, as alavancas dos piscas, luzes e caixa de velocidades, além das alavancas ou botões que utilizamos para regular o assento e as pegas das portas e comandos dos vidros. Mas convém não esquecer o ecrã central, sobretudo se for táctil, o retrovisor interior e todo o tablier e consola, onde é fácil tocar ou colocar o telemóvel.

É preciso ter igualmente em conta os locais com que entramos em contacto nos assentos traseiros e na bagageira, sendo fundamental começar por retirar todos os objectos, papéis e lenços velhos que tendem a acumular-se nas bolsas das portas, pois estes funcionam como um íman para vírus, bactérias e fungos.

Curiosamente, não é preciso exagerar

Para lavar o exterior do veículo basta visitar com maior regularidade a máquina de lavagem e, nos intervalos, borrifar com álcool os puxadores. Já o habitáculo é mais complexo e moroso. O álcool isopropílico a 70% é muito popular entre os profissionais que limpam e desinfectam veículos, uma vez que é relativamente “meigo” para os plásticos, tecidos e peles usadas no interior, garantindo ainda assim que o vírus não escapa. No entanto, não deve esfregar violentamente, pois isso vai descolorar as superfícies, deixando uma marca indesejável.

Optar por lavar um carro com água e detergente para interiores também é uma solução (com o necessário cuidado), enquanto para os assentos, sejam eles revestidos a pele ou a tecido, há produtos específicos. Há ainda quem opte pela limpeza a vapor, igualmente eficaz. Vale tudo para evitar recorrer a uma empresa especializada nestes trabalhos, na medida em que isso implica meter dentro do seu carro um estranho que pode estar contaminado, o não é muito aconselhável nos dias que correm. E não se esqueça dos tapetes e alcatifas, pois é aí que vai parar tudo o que lhe cai das mãos – a si e, sobretudo, das crianças.

O que não deve fazer

Há produtos químicos que garantem limpezas profundas. Porém, deixam igualmente marcas profundas nas superfícies com que contactam. É o caso das lixívias e dos produtos à base de amónia.

Tenha particular atenção aos materiais que pretende limpar e utilize os ideais para os tecidos para lavá-los, deixando os das peles para as superfícies revestidas por este material, sejam ele verdadeiro ou sintético. E tenha particular atenção ao volante, pois se o sol já tem tendência para o secar, o facto de recorrer a químicos mais agressivos pode ser o fim dele. Com a agravante que um novo pode ser mais caro do que julga, especialmente se tiver muitos comandos incorporados e airbag.

Cuidados a ter em conta

Convém ter presente que, por muito “simpáticos” para os materiais do habitáculo que sejam os produtos de limpeza, bem como o álcool isopropílico (ou isopropanol), não foram pensados para realizar lavagens regulares, sejam elas diárias ou, no limite, semanais. Esta necessidade de desinfecção, fruto da Covid-19, pode deteriorar excessivamente plásticos, peles e tecidos, pelo que é aconselhável que, depois da imunização, se siga um período de tratamento. À laia do que acontece com a hidratação das mãos, quando se abusa das lavagens de loiça sem luvas.

Existem no mercado bons produtos para proteger peles, sem as tornar gordurosas ou escorregadias (pouco aconselhável para o volante), que hidratam essas superfícies impedindo que se deteriorem. Com os tecidos usados nos assentos e, em alguns casos, nas portas acontece o mesmo, sendo que o tratamento não é necessário que se siga a cada operação de desinfecção. Mas alguma regularidade será bem-vinda.

E o ar condicionado?

O ar condicionado, que tanto nos satisfaz aquecendo ou arrefecendo o interior, mas sobretudo reduzindo a sua humidade, é tradicionalmente uma máquina de espalhar doenças. De bactérias a fungos, passando por vírus, pode sair de tudo um pouco por aqueles bocas de ventilação. Felizmente, há algo que se pode fazer para evitar males maiores.

Como de momento não é recomendável visitar uma empresa especializada em desinfectar aparelhos de ar condicionado, a solução passa por substituir o filtro do ar condicionado e o do habitáculo. Mais importante do que isso, utilizar um químico (normalmente disponível em forma de aerossol) destinado a liquidar os germes que se acumulam no sistema de ventilação.

Há outras tecnologias e produtos?

Se está a pensar que existe por aí uma varinha mágica que, uma vez agitada, põe o habitáculo num “brinquinho”, o melhor é esquecer e agarrar-se ao aspirador, escovas e químicos de limpeza e desinfecção. Contudo, durante o combate a pandemia, as autoridades chinesas recorreram a um equipamento emissor de raios ultravioleta (UV) para desinfectar autocarros com grande rapidez e eficiência. De acordo com os chineses, o tempo necessário para imunizar um autocarro baixou de 30 a 40 minutos para apenas 5 a 7 minutos.

Mas os UV não são uma brincadeira. Matam os germes, mas também atacam qualquer porção de pele exposta e, sobretudo, os olhos, pelo que aconselhamos a adoptar outras práticas e deixar os UV deste tipo para os profissionais. De caminho, veja aqui a distância a que o operador se coloca no autocarro a ser desinfectado pelas lâmpadas de UV…