No final de março, mais concretamente no dia 30, Singapura registava apenas 35 novos casos de Covid-19. Era então o valor mais baixo da semana e que permitia detalhar algo que é muito complicado encontrar em qualquer país mais ou menos assolado pela pandemia: os locais de contágio. Neste caso três, aquilo que se denomina de clusters: um dormitório para trabalhadores migrantes, o bloco de apartamentos Wilby Residences e o bar Hero’s. Ao todo, como explicava o The Straits Times, quase metade nesses novos infetados tinham ligação aos três locais, sendo que todas fizeram questão de alertar moradores e clientes habituais para o que se passara. E havia mais um caso num porteiro do Centro Nacional de Doenças Infeciosas, em isolamento desde os primeiros sintomas.

O país era apontado como um exemplo no combate à pandemia pela própria Organização Mundial da Saúde. Como destaca a BBC, ainda a pandemia, então surto, não tinha o nome de Covid-19 e Singapura já tinha agido.

As razões apontadas tinham vários caminhos, das lições aprendidas com a pandemia da SARS a uma aplicação que foi criada pelo governo (e explicada pelo Los Angeles Times) que permitia sinalizar todos os pontos de passagem na comunidade de cada uma das pessoas infetadas, reduzindo (dentro do possível) a possibilidade de transmissão na comunidade e reforçando a capacidade de agir em determinados espaços. Singapura e “melhores práticas” davam as mãos sempre que se falava sobre o novo coronavírus, algo ainda mais louvável pela proximidade geográfica com a China. No entanto, em cerca de duas/três semanas, tudo mudou. E hoje é um problema.

Singapura teve um número recorde de novos casos. Dos 447 registos, 404 são entre trabalhadores que vivem em dormitórios (Foto: Getty Images)

Em abril, houve uma subida acima dos 300% no número de novos casos, com um aumento de quase 3.000 novos infetados quando tudo apontava para uma condição controlada. No bom e no mau, Singapura volta agora a ser notícia. E se as políticas de controlo funcionaram numa primeira fase em que muitos dos novos casos vinham do exterior, agora enfrentam problemas que obrigam a outras soluções pelos dormitórios de migrantes. Mas o problema que hoje se reflete no país e ganhou dimensão crítica tem outros antecedentes só agora percebidos.

Mesmo quando os números estavam controlados e confinados a determinados focos que iam sendo detetados antes que tomassem um peso de propagação, vários especialistas recusavam euforias. “É assim, por agora”, diziam. E foi aí que se deu o primeiro erro de gestão da pandemia, de acordo com Yik-Ying Teo, reitor de uma Escola de Saúde Pública do país citado pela BBC: o regresso de milhares de pessoas ao país vindas de locais onde as medidas de isolamento tardaram em ser implementadas propagaram o vírus por Singapura. A regra da quarentena de 14 dias existia para turistas mas, entre os que voltaram, e que não apresentavam sintomas, muitos estariam infetados. “Ainda assim, hoje é fácil dizer que se deveria ter limitado as interações mas porque há muito mais informação”.

Hong Kong, Singapura e Taiwan preparam novas medidas para conter novo surto

Agora, o problema tem a ver com as centenas de casos detetados em dormitórios. “Se tivéssemos sabido da rapidez de propagação do vírus, tínhamos feito as coisas de outra forma”, admitiu Lawrence Wong, ministro do Desenvolvimento Nacional. E como os setores da construção não fecharam logo, agora foi demasiado tarde.

“Aquilo que está a acontecer agora na zona de dormitórios em Singapura é uma indicação do que poderá acontecer noutros países, em particular aqueles com menos recursos e ordenados mais baixos. Basta olharem para muitos dos países na parte Sul da Ásia e em algumas partes de África: existem muitas comunidades que vivem num tipo de condições muito semelhantes a dormitórios. É preciso que todos os governos olhem para a situação de forma franca e transparente para perceberem o que podem fazer para minimizarem o risco de terem surtos incontroláveis nessas zonas onde as pessoas vivem muito juntas umas das outras”, comentou Yik-Ying Teo.

Singapura tem hoje um confinamento com características semelhantes a vários países na Europa e no mundo, com escolas e negócios não essenciais parados, saídas de casa só autorizadas para compras de bens de primeira necessidade ou idas à farmácia e sanções severas para quem desrespeitar as indicações. Mais: ao contrário do que fazia, deixou de “desencorajar” o uso de máscaras em público, algo que fazia. O principal problema está localizado e confinado – as comunidades de migrantes, de quarentena desde a semana passada mas que representam mais de metade dos 3.699 casos no país (e hoje têm um peso acima dos 80% no número de novos casos). Comunidades que representam um universo de 300 mil pessoas num país com 5,7 milhões de habitantes.

Lamento que estejamos a atravessar esta fase mas, olhando para a tendência, estou preocupado porque se não tomarmos novas medidas a situação pode tornar-se ainda pior e porque um novo grande cluster pode levar as coisas para um ponto além do limite”, admitiu o primeiro-ministro, Lee Hsien Loong.

Durante várias semanas, sem necessidade de haver um lockdown mais ativo como o que existe hoje, Singapura tornou-se um exemplo mas um passo em falso inverteu por completo essa situação. Como explica o LA Times, esses dormitórios onde se chegam a concentrar 20 trabalhadores em beliches com cozinhas e casas de banho partilhadas e que nunca deixaram de ir para os seus trabalhos levaram a uma propagação de casos em poucos dias.

“Todo o modelo económico de Singapura tem por base aproveitar uma mão de obra barata de terceiro mundo para criar uma economia que se diz do primeiro mundo. Funcionou tudo bem enquanto estavam separados do resto da sociedade, alojados em dormitórios que ficavam distantes da cidade. O problema é que um vírus não respeita esse tipo de segregação tipo Apartheid e aconteceu uma explosão”, disse ao jornal Alex Au, vice-presidente de um grupo de advocacia que trabalha questões laborais com os migrantes, a Transient Workers Count Too.

É por isso que, em declarações ao The New York Times, Ezekiel Emanuel, vice-reitor das Iniciativas Globais da Universidade de Pensilvânia, defende não haver possibilidade “de manter um país aberto de forma contínua durante um ano. “Se Singapura não conseguiu isso, não imagino como conseguiremos fazer. Como sempre defendi, isto será uma montanha russa com muitas ondas de abertura e fechos parciais se necessário”, disse.

Singapura teve entretanto de implementar um sistema de confinamento, fechando entre outras atividades a restauração (Foto: Getty Images)

Os números desta quarta-feira são o espelho fiel da atual realidade, com um aumento recorde de 447 novos casos para um total de 3.699 infetados. Como explica o The Straits Times, que acrescenta ainda 41 casos recuperados nos dados, 404 dos novos casos são trabalhadores residentes no país que vivem em dormitórios. “Estamos muito preocupados que esta abordagem possa expor muitos mais trabalhadores migrantes ao risco de contrair o vírus da Covid-19”, disse à Reuters Rachel Chhoa-Howard, investigadora da Aministia Internacional. E o fecho de uma série de clínicas de médicos voluntários imposta pelo governo em fevereiro para que não houvesse possíveis cruzamento de contaminação, focando tudo nos hospitais do Sistema Nacional de Saúde, aumentou também esta escalada porque muitos desses mesmos trabalhadores não têm acesso aos cuidados necessários.

Até mesmo aquilo que merecia elogios de todas as partes há pouco mais de um mês é colocado agora em causa. Em Singapura, a fronteira entre o bom e o mau exemplo de combate à Covid-19 mostrou ser demasiado ténue.