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Pouco depois de Henrique Mandetta anunciar no Twitter ter sido demitido pelo Presidente do Brasil do cargo de ministro da Saúde, Jair Bolsonaro anunciou em conferência de imprensa o seu sucessor: o oncologista Nelson Teich. E, contrariando a troca de recados que marcou a relação entre o Chefe de Estado e agora ex-ministro nas últimas semanas, Bolsonaro disse: “Não condeno, não recrimino e não critico o ainda ministro Mandetta”.

O Presidente brasileiro, que tem defendido sempre que a economia do país não deve parar logo não deve haver quarentena coletiva, explicou que, desde o início da pandemia, defendeu sempre a “vida e emprego”. “É como um paciente que tem duas doenças. A gente não pode abandonar uma e tratar exclusivamente outra, porque no final da linha esse paciente pode perder a vida”, cita a Globo.

Não condeno, não recrimino e não critico o ainda ministro Mandetta. Ele fez aquilo que, como médico, achava que devia fazer ao longo desse tempo. A separação, cada vez mais, se tornava uma realidade. Mas não podemos tomar decisões de forma que o trabalho feito até o momento fosse perdido”, acrescentou.

As diferentes posições relativamente à contenção da pandemia do novo coronavírus ditaram a demissão de Luiz Henrique Mandetta do cargo que ocupava desde janeiro de 2019. Enquanto o Presidente Bolsonaro tem defendido que a economia do país não deve parar, o responsável pela pasta da da Saúde batia-se pelas recomendações da Organização Mundial da Saúde e pelo isolamento social. Mas a relação entre Presidente e ministro já há muitos meses que se degradara. Em setembro, escreve a Folha de São Paulo, o líder do Governo brasileiro — o Brasil tem um sistema político presidencialista — chegou a pensar substitui-lo, só não o terá feito pelo apoio que ele reunia no setor da Saúde.

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Uma divergência antiga

No domingo, numa entrevista à TV Globo, o ainda ministro ateou mais ainda a fogueira que já ardia entre ambos pelas diferentes posições públicas que assumiam. Mandetta não poupou nas palavras, nem nos recados ao Bolsonaro, exprimindo que o povo brasileiro não sabia se escutava o ministro da saúde ou o Presidente brasileiro.

Um mês antes, a 15 de março, já contrariando as orientações do Ministério da Saúde, Bolsonaro participou em manifestações pró-governo. Na altura havia 200 casos confirmados no Brasil e 1.917 sob suspeita. O Presidente apareceu em público a tocar nos telemóveis dos seus simpatizantes e a fazer selfies para as redes sociais. Quando questionado pelo seu comportamento respondeu: “É ilegal? Não. E continua sendo para todo o mundo”.

Segundo a Folha, o Presidente chegou a avisar o ministro da Saúde que devia mudar o seu discurso, o que ele terá passado a fazer, embora sem nunca deixar de defender o isolamento social para prevenir a propagação do novo coronavírus.

Nesta batalha a duas vozes, Bolsonaro chegou a dizer a 2 de abril que faltava “humildade” ao ministro da Saúde. “O Mandetta quer fazer muito a vontade dele. Pode ser que ele esteja certo. Pode ser. Mas está faltando um pouco mais de humildade para ele, para conduzir o Brasil neste momento difícil que encontramos e que precisamos dele para vencer esta batalha”. Três dias depois assumia mesmo admitir “usar a caneta” contra ministros que “viraram estrelas”, num claro recado ao detentor da pasta da Saúde.

O desafio de Mandetta e o “Mito da Caverna” de Platão

Ainda segundo o jornal Folha de São Paulo, no dia seguinte, Mandetta chegou a perguntar-lhe numa reunião de ministros  porque não o demitia se não o considerava e se não o ouvia. Bolsonaro não terá respondido, mas já devia estar a preparar o caminho para a saída. Dias depois, o ainda ministro da Saúde acabaria por fazer um discurso com mais um recado ao Presidente, em que insistia na ciência e citava o “Mito da Caverna”, de Platão, numa analogia entre a ignorância e o conhecimento. Deixava também uma palavra de apoio a todos os estados que, contra o Presidente, estavam a apoiar o isolamento social.

Já depois da entrevista deste domingo, o ainda ministro da Saúde reconheceu, no entanto, aos seus próximos que cometera um erro que lhe podia custar o cargo. Na manhã desta quarta-feira Bolsonaro avisava publicamente que iria resolver o problema da Saúde. E nesse mesmo dia Mandetta dava uma entrevista em tom de despedida, afirmando que havia um “descompasso” entre o que defendia Bolsonaro e o caminho da ciência. O ponto final desta guerra política foi dado hoje, quinta-feira, com Mandetta a anunciar rede social Twitter a sua demissão.

Acabo de ouvir do Presidente Jair Bolsonaro o aviso da minha demissão do Ministério da Saúde. Quero agradecer a oportunidade que me foi dada, de ser gerente do nosso SUS [Sistema Único de Saúde], de pôr de pé o projeto de melhoria da saúde dos brasileiros e de planear o enfrentamento da pandemia do coronavírus, o grande desafio que o nosso sistema de saúde está por enfrentar”, confirmou Mandetta na rede social Twitter.

Nelson Teich é o novo ministro da Saúde do Brasil

Entretanto o Presidente Jair Bolsonaro anunciou quem é o senhor que se segue. Trata-se de Nelson Teich, que também tem defendido o isolamento social. “O que eu conversei ao longo desse tempo com o oncologista doutor Nelson, aqui ao meu lado, foi fazer com que ele entendesse a situação como um todo”, afirmou o Presidente quando o anunciou publicamente, esta quinta-feira, como o novo ministro da Saúde.

O que conversei com doutor Nelson? Que gradativamente nós temos que abrir o emprego no Brasil. Essa grande massa de humildes não tem como ficar dentro de casa”, acrescentou.

Nelson Teich é oncologista e desde setembro de 2019 até janeiro deste ano prestou orientações à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos em Saúde (SCTIE) do Ministério da Saúde. Nas últimas semanas, o oncologista tem usado as redes sociais para partilhar artigos sobre o coronavírus.

“Não me coloco aqui como alguém que defende um lado ou outro. Na verdade, é o oposto. Não pode existir lado. O fundamental é analisar criticamente e de forma contínua a situação e as projeções, integrando continuadamente a nova informação na análise. A informação que chega a cada dia precisa ser complexa, detalhada e em tempo real. É necessário rever diariamente a realidade, os cenários, as projeções e as ações. Como comentado, projeções e posições radicais e emocionais só levam a mais confusão e problema”, escreveu a 24 de março, num artigo intitulado “Covid-19: Histeria ou Sabedoria?”.

O Brasil regista já um total de 3.058 infetados e 204 mortos.