O cancelamento de festas e romarias motivado pela pandemia da covid-19 paralisou as empresas nacionais de diversão itinerantes, as empresas de pirotecnia e até as bandas filarmónicas. Sem meios de subsistência, os três setores reclamam a ajuda do Governo e anteveem já prejuízos avultados, de vários milhões de euros.

Em declarações à agência Lusa, Francisco Bernardo, presidente da Associação Portuguesa de Empresas de Diversão (APED), salientou que o setor corre o risco de passar por uma paralisação “muito extensa”, provavelmente superior a um ano, sem outras alternativas, pelo que estão a ser debatidas com o Governo medidas de apoio para as empresas.

“Queríamos que fossem criadas condições de apoio, quando estas empresas estão realmente em período de carência”, disse o dirigente, referindo que já houve uma reunião com o secretário de Estado do Comércio, João Torres, uma vez que correm o risco de só regressarem à atividade na primavera de 2021.

O presidente da APED, que tem sede em Pedrógão Grande, no distrito de Leiria, realça que o setor agrega cerca de 800 empresas, na sua maioria familiares, “que dependem ativamente da realização e organização destes eventos [festas, feiras e romarias]”.

Francisco Bernardo salienta que as empresas do setor das diversões itinerantes “dinamizam a economia”, contribuindo “ativamente com verbas muito avultadas” para municípios, Juntas de Freguesia e comissões de festas de norte a sul do país, que são os promotores dos eventos em que participam.

“Muitas vezes, se não fossem os nossos contributos, [os promotores] não teriam capacidade financeira para organizar estes eventos e contratarem artistas, ornamentadores e fogo-de-artifício, que as pessoas tanto gostam de ver”, frisou.

“Somos muitas famílias e dinamizamos os comércios locais, com o nosso consumo de bens alimentares, de combustíveis e até mesmo de oficinas, além de que esse mesmo comércio vai usufruir do excedente populacional que nós atraímos na altura do período das festas”, recorda.

Sem conseguir quantificar os prejuízos do setor, que está dependente de muitos fatores, entre eles as condições meteorológicas e o cartaz dos eventos, Francisco Bernardo fala em despesas muito avultadas já realizadas pelos empresários com os seguros e certificados de inspeção anual dos equipamentos e dos veículos de transporte, além da Segurança Social e contabilidade mensal.

“Temos tentado negociar junto dos mediadores de seguros, na tentativa de os convencer de que era muito importante para apoiar o setor a suspensão dos prazos ou das validades das apólices”, referiu.

O empresário sublinha que o setor está numa posição em que já não usufrui da cobertura das apólices durante o período em que não têm atividade, que abrange o outono e inverno.

“Situação idêntica acontece também com os certificados anuais de inspeção dos equipamentos de diversão, que muitas pessoas já pagaram em janeiro e agora não vão usufruir dele”, acrescenta o presidente da APED.

A associação pretende que haja também uma atenção do Governo para o imposto único de circulação das viaturas de transporte dos equipamentos de diversão, que vão estar parados por falta de atividade.

“Se não temos outra fonte de rendimento e estamos parados, a nossa receita é nula. Portanto como é que nós vamos conseguir pagar estas despesas”, questiona Francisco Bernardo.

Empresas de pirotecnia prevêem prejuízos de dois milhões de euros

As empresas de pirotecnia estão em circunstâncias idênticas — totalmente paradas desde o início de março — e já prevêem prejuízos a rondar os dois milhões de euros devido ao cancelamento de festas e romarias.

“Estamos parados a 100% desde o início de março, porque foi tudo cancelado”, referiu o presidente da Associação Portuguesa dos Industriais de Pirotecnia e Explosivos (APIPE) à agência Lusa, admitindo que “na melhor das hipóteses, o ano está perdido a 90%”.

Carlos Macedo ainda tem esperança de que as empresas consigam “faturar alguma coisa nas festas de final de ano”, mas reconhece que “mesmo que isso aconteça, o ano de 2020 será terrível”.

Segundo o presidente da APIPE, a indústria da pirotecnia, que conta com cerca de 80 empresas e mais de 10.000 trabalhadores, “parou antes das festas da Páscoa”, o que faz com que muitas empresas ainda não tenham faturado “nada este ano”.

Carlos Macedo recorreu ao exemplo da sua própria empresa para explicar a situação: “Passei a última fatura em dezembro de 2019, relativa à festa de fim de ano, e vamos ver se a próxima que passo não é só em dezembro de 2020”.

O responsável da APIPE admitiu que os poucos eventos que ainda não foram cancelados “serão em breve, porque são organizados por entidades privadas ou grupos, que, devido à atual situação, não conseguiram angariar fundos para a realização das festas”.

Carlos Macedo considerou “compreensíveis” os cancelamentos das festas organizadas por comissões ou privados, mas tem outra opinião sobre alguns eventos cancelados por autarquias e entidades públicas.

“Há eventos agendados para setembro e outubro que já foram cancelados pelas câmaras municipais. Penso que será um pouco prematuro, até porque as verbas para essas festas não precisam de ser angariadas, pois estão previstas nos orçamentos anuais”, explica.

Com milhares de festas canceladas, a indústria enfrenta outro problema grave relacionado com o armazenamento de foguetes que estavam preparados para as festividades da Páscoa – não podem ser utilizados durante a época de incêndios, que termina em 30 de setembro.

“Tencionamos pedir ao ministério da Administração Interna que abra uma exceção de forma a permitir o aumento da capacidade de armazenamento do material”, afirmou, lembrando que “a exportação de material, que rondava os 10% da produção, foi também afetada na totalidade pela covid-19”.

A APIPE admite também a possibilidade de pedir à Secretaria de Estado do Turismo que a indústria pirotécnica seja considerada complemento turístico, de forma a poder usufruir dos apoios que estão a ser dados ao setor, devido à pandemia.

“Devemos ser considerados um complemento turístico. Somos uma área fundamental para o turismo, sobretudo para o interno e o religioso”, disse o responsável, esclarecendo que o Código das Atividades Económicas (CAE) da indústria pirotécnica não permite a integração no setor do turismo.

Bandas filarmónicas especialmente afetadas por decisão da Conferência Episcopal Portuguesa

A Confederação Musical Portuguesa (CMP) também vai pedir apoio ao Governo para as bandas filarmónicas, face à perda de receitas originada pelo cancelamento das festas populares/religiosas, iniciativas que lhes garantiam a maior fatia das suas receitas.

À agência Lusa, o presidente da organização, Martim Caetano, garantiu que os prejuízos financeiros são de “elevado montante” porque, na maioria dos casos, “o financiamento anual de uma banda filarmónica provém das receitas dos seus serviços”.

“O prejuízo é enorme, até porque existe já uma decisão da Conferência Episcopal Portuguesa que adia um ano todos os eventos de cariz religioso, nomeadamente as festas e romarias, onde obrigatória e historicamente as bandas filarmónicas portuguesas têm uma presença contínua e indispensável”, sublinha.

Neste quadro, o presidente da CMP teme o encerramento de algumas bandas, sobretudo aquelas que “têm pouco apoio financeiro das Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia”, que têm um “papel fundamental” no financiamento das filarmónicas.

“É muito importante que esses apoios se mantenham e sejam reforçados”, enfatiza Martim Caetano, considerando que se “não houver um reforço de apoios pode acontecer que algumas fechem portas, como já aconteceu no passado durante outras crises”.

A CMP está, neste momento, a elaborar um dossiê nacional para fundamentar a “necessidade de apoio financeiro imediato, dentro daquilo que são necessidades imediatas, para evitar uma paragem das bandas filarmónicas mais carenciadas financeiramente”.

“Esse dossiê nacional passa por recolher uma declaração das necessidades financeiras imediatas das bandas de música, que estão a ser contactadas individualmente até ao fim da próxima semana”, assegurou.

O documento vai ser depois apresentado a várias entidades públicas, entre elas o Governo, e a várias entidades mecenáticas, “no sentido de se conseguir um apoio financeiro extraordinário, exatamente para fazer face a estas carências financeiras extraordinárias, que decorrem da paragem da atividade”.

O presidente da Filarmónica União Taveirense, Filipe Teixeira, disse à agência Lusa, que, neste momento, a banda “já perdeu cerca de 10 mil euros” em serviços agendados para festas que não se vão realizar.

“O montante deverá chegar aos 15 mil euros, que é o valor que anualmente costumamos realizar em saídas para as festas religiosas”, referiu o dirigente da banda de Taveiro, no concelho de Coimbra, que tem um orçamento anual na ordem dos 50 mil euros.

Com 10 mil euros de apoio anual do município de Coimbra, a Filarmónica União Taveirense precisa de “30 a 35 mil euros de receitas em atividades que não se estão a fazer”, refere Filipe Teixeira.

“Apostamos mais nos concertos do que nas festas religiosas e estavam previstos várias apresentações na cidade de Coimbra, em parceria com a Câmara, que não se vão realizar ou então vão decorrer com um número muito baixo de espetadores, reduzindo o encaixa financeiro”, salientou.

“Felizmente, temos uma situação financeira estável, fruto da gestão dos últimos anos, o que nos permite manter a atividade”, acrescentou Filipe Teixeira, que se mostra igualmente preocupado com os impactos a nível artístico, pelo facto de os músicos “não poderem fazer música juntos”.

Na Sociedade Filarmónica Aurora Pedroguense, em Pedrógão Pequeno, no concelho da Sertã, distrito de Castelo Branco, o cancelamento das festas populares e religiosas vai representar uma quebra de receita na ordem dos 18 mil euros, disse à agência Lusa o maestro Pedro Cordeiro.

“São cerca de 30 festas que deixamos de fazer, que ajudavam em muito à sustentabilidade da banda”, refere o músico, salientando as despesas de manutenção com a sede, instrumentos e o pagamento ao maestro e aos professores da escola de música.

Com 42 músicos no ativo, a banda conta, no entanto, com um subsídio da Câmara Municipal da Sertã, que ajuda a manter a atividade.

Em Vila Nova de Anços, no concelho de Soure, distrito de Coimbra, na Sociedade Filarmónica Recreativa e Beneficente Vilanovense a perda de receitas também varia entre os 10 e os 15 mil euros.

“Vai ser um ano extremamente complicado. O que pensávamos ser um ano extraordinário, com cerca de 25 saídas, rapidamente se transformou num pesadelo”, relata à agência Lusa Marta Santos, presidente da direção da coletividade.

Segundo a dirigente, as saídas “representam uma boa parte das receitas” da filarmónica, que continua a ter despesas fixas com “água, eletricidade e ordenado do maestro”, e sem “receitas a entrar”.

“Para este ano, ainda temos dinheiro para suportar as despesas, para o ano vamos ver”, sublinhou.

A Sociedade Filarmónica Recreativa e Beneficente Vilanovense conta com 62 músicos e cinco escolas de música, frequentadas por 50 alunos, que lhe permite receber um subsídio da Câmara de Soure.

Além da crise financeira provocada pela pandemia da covid-19, o presidente da CMP, Martim Caetano, realça ainda os “prejuízos ao nível artístico”, com o cancelamento dos ensaios presenciais e das atuações das bandas e das escolas de música.