Nos últimos anos, os filmes e documentários que levantam o véu sobre algumas das personalidades mais bem sucedidas e mediáticas da história do desporto têm tido um sucesso acima da média. Prova disso é “Senna”, o filme sobre a vida e carreira do piloto brasileiro que morreu em 1994, “Maradona In Mexico”, que acompanha a aventura do argentino a treinar um clube mexicano, e o mais recente “Last Dance”. Este último, com Michael Jordan como personagem principal e os Chicago Bulls de 1997/98 como o cenário perfeito, foi a companhia de milhões durante a quarentena e atraiu até muitas pessoas sem especial ligação ao basquetebol.

Ora, depois do êxito retumbante de “Last Dance”, a ESPN quer aproveitar a boleia e vai lançar um novo documentário ainda durante o atual mês de maio. “LANCE”, um documentário de três horas e meia que será dividido em duas partes, conta o testemunho de vários jornalistas que acompanharam os melhores anos da carreira de Lance Armstrong e também pessoas próximas do ciclista norte-americano. Como fio condutor, o documentário apresenta uma longa entrevista ao próprio Armstrong, que revela ainda mais do que aquilo que já se sabe sobre a utilização de substâncias proibidas durante toda a carreira.

No trailer, o norte-americano de 48 anos deixa claro que não pretende mentir nas respostas. “Não vou mentir. Vou contar a minha verdade”, atira. Vencedor de sete edições consecutivas do Tour de França, um recorde absoluto que lhe garantiu o estatuto de ícone desportivo, o ciclista perdeu em 2012 todos os títulos conquistados a partir de 1998, numa decisão sem precedentes da Agência Anti-Doping dos Estados Unidos que o considerou o líder do “plano de doping mais sofisticado, profissionalizado e bem-sucedido da história do desporto”. Armstrong manteve o discurso de inocência, ainda que sem recorrer da decisão, mas acabou por confessar toda a verdade em janeiro de 2013, numa entrevista a Oprah Winfrey.

Agora, sete anos depois de ter confirmado que foi o autor do maior escândalo de doping de sempre, Lance Armstrong surge como o protagonista do documentário da ESPN para fazer ainda mais revelações sobre a carreira — e a forma como se tornou o ciclista mais bem-sucedido de todos os tempos. Nos excertos que já foram tornados públicos, o norte-americano insiste numa ideia que já tinha sublinhado na entrevista a Oprah: o facto de acreditar que teria vencido os sete Tours mesmo sem utilizar substâncias proibidas.

Lance Armstrong e uma declaração explosiva: “Não mudava nada, mesmo passando de herói a zero”

“Não serve de desculpa, mas toda a gente o fazia e teria vencido na mesma, mesmo se estivesse limpo. A primeira vez que tomei hormonas para o crescimento foi em 1996. A primeira vez que tomei doping tinha 21 anos”, atira Armstrong. O ciclista desvenda então que levou injeções de cortisona logo na primeira temporada como profissional, em 1992 e com apenas 21 anos, e diz não ter certezas de que não foi o uso de doping o gatilho para o cancro testicular que lhe diagnosticado em 1996. “Se fiquei doente por causa do uso de substâncias dopantes? Não posso ter a certeza de que não tenha sido assim. As hormonas de crescimento têm um efeito estimulante no crescimento de alguns tipos de células e são utilizadas para fomentar coisas boas. Mas não faz sentido que, se essas células tivessem algo de mau, não fosse isso também fomentado?”, questiona o norte-americano, que derrotou a doença e acabou por criar a Lance Armstrong Foundation, agora Livestrong Foundation, que apoia outros doentes oncológicos.

“LANCE” só estreia na próxima segunda-feira mas uma coisa é certa: a postura do ciclista mantém-se praticamente inalterada, num misto de pedido de desculpas e afirmações desafiantes que não permitem perceber se, na verdade, Lance Armstrong se arrepende realmente de tudo o que aconteceu.