Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Um dos principais termómetros da recuperação económica é o mercado de luxo, que até já demonstrou força em crises anteriores. Nas últimas semanas, no entanto, os efeitos do surto da Covid-19, assim como dos meses de confinamento, começaram já a alterar as prioridades dos consumidores das marcas de luxo, assim como as dos designers, numa clara demonstração que a indústria da moda não sairá poupada desta crise global.

Este domingo, dia 24 de maio – precisamente um ano após o seu desfile Gucci Resort 2020 no Musei Capitolini, em Roma – Alessandro Michele, diretor criativo da Gucci, utilizou a sua conta do Instagram para divulgar, num post com o sugestivo título Notes from the Silence, o novo caminho que deverá ser seguido pela lendária marca italiana, que pretende rejeitar os desfiles sazonais a favor de uma expressão mais pessoal. “Agora sabemos que a nossa atuação foi furiosa demais… Foi por isso que decidi construir um novo caminho … longe dos prazos que a indústria impunha … e de uma excessiva representação que hoje realmente não tem raison d’être“, escreveu Alessandro Michele no post.  Acrescentando ainda que só faz sentido “reunir apenas duas vezes por ano para compartilhar os capítulos de uma nova história”.

Apesar de alguns detalhes ainda estarem a ser delineados, os dois desfiles de moda da Gucci, em comparação com os cinco atuais, deverão ser agendados no outono e na primavera. Para já, um desfile em setembro é cada vez mais improvável – tendo Alessandro Michele assumido que o mesmo pode não estar pronto a tempo. “Gostaria de abandonar a parafernália de siglas que colonizaram o nosso mundo: resort, pré-outono, primavera-verão, outono-inverno. Siglas que me parecem obsoletas”, continuou o designer. E disse, ainda, que espera que um novo calendário e novos ritmos sejam decididos dentro do sistema de moda e em cooperação com outros estilistas. Para já, Resort, um dos cinco grandes shows que a Gucci produz, será filmado em estúdio. O desfile digital resultante será apresentado na Milan Digital Fashion Week, a 17 de julho, e “funcionará como uma espécie de epílogo para a maneira antiga da casa de fazer as coisas”, como escreveu a Vogue.

O anúncio da Gucci surge algumas semanas depois da marca Yves Saint Laurent, propriedade do grupo francês Kering, (e do qual fazem parte marcas famosas como a própria Gucci), ter revelado que não vai apresentar as suas coleções “em nenhuma das datas pré-estabelecidas de 2020”. Em comunicado, Saint Laurent explicou que vai “assumir o controlo” da programação da moda “consciente das circunstâncias atuais e de suas ondas de mudanças radicais”. Outras marcas de luxo, entretanto, também já estão a reavaliar o sistema tradicional de desfiles, com o objetivo de seguir os mesmos passos da Saint Laurent e da Gucci.

O mercado de artigos de luxo está avaliado em 800 mil milhões de euros na Europa, o que representa 4% do PIB. No entanto, a pandemia que a sociedade enfrenta deverá afetar o valor deste sector, não só na Europa como em todo o mundo.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR