Não posso deixar de comentar aqui aquilo a que temos assistido nos últimos tempos, relativamente a uma atitude de menino mimado que assumiu um jogador de futebol em face de ter sido apenas tratado como um jogador de futebol.

O facto foi que um jogador de futebol, que já foi o melhor jogador de futebol do Mundo – acho muito difícil ter a certeza de que foi o melhor de todos os tempos, pela dificuldade de comparar realidades radicalmente distintas –, foi chamado pelo treinador para se preparar para ser utilizado durante uma parte do jogo e que, pelas circunstâncias extremamente competitivas em que se desenrolavam os acontecimentos, não foi opção do treinador colocá-lo na equipa.

A partir daqui todos os argumentos se tornam puramente opinativos e muito dificilmente conseguiremos alguma vez chegar a qualquer conclusão sobre a razão daquilo que se passou.

Como em todos os momentos da intervenção da justiça nas nossas vidas, apenas os factos devem contar para concluir daquilo que é justo e que deve ser aplicado por isso, a única forma de avaliar esta situação é olhar os factos.

Independentemente da conclusão sobre o comportamento dos intervenientes, que na minha opinião se resume à actuação muito pouco correcta do jogador, aquilo que importa mesmo é entender qual será o resultado efectivo deste tristíssimo incidente.

Na realidade, aquilo que importa à seleção é assegurar a sua excelência competitiva.

As questões que estão a ser o factor de distorção do comportamento de alguns dos actores é, como sempre, a questão económica e as vaidades pequenas das importâncias de cada um, não compreendendo que grandes são os humildes e pequenos os vaidosos.

De tudo o que foi dito fica a convicção de que tudo isto resulta essencialmente de um enorme desvio da razoabilidade de comportamentos que, desde há muito tempo, se verifica nesta estrutura futebolística.

Por razões que desconheço foi permitido a um jogador o título de dono da seleção.

Não sei quem tem o direito de atribuir essa propriedade que pertence a todos nós.

Foram escolhidos selecionadores em função da comodidade de um jogador, foram tomadas decisões que prejudicaram o país para que esse jogador pudesse mandar na seleção e foi, como percebemos pela forma como vimos a seleção jogar nos últimos dias, perdido um campeonato do Mundo por se ter submetido tudo ao poder de um só, que não tem mandato e que não tem direito, mas que tem dinheiro e acesso a dar dinheiro a quem devia ter o poder e o mandato para decidir.

Importa reconhecer que, ainda que muitos argumentos tenham sido utilizados no sentido de introduzir considerações não factuais sobre a decisão tomada pelo jogador em causa, a maioria dos comentadores acabou sempre por reconhecer, com mais ou menos pena e com maior ou menor isenção, que independentemente da avaliação do facto sucedido, a solução de futuro deveria ser sempre a continuidade do bom trabalho do selecionador nacional, nos jogos realizados e na capacidade que a seleção mostrou ter de conseguir atingir os objectivos que todos os portugueses ambicionam.

Ainda assim, neste país marcado pelo medo e pelo primado das pequenas e pequeníssimas vaidades, em que quem tem dinheiro vale sempre mais do que quem tem razão e do que a própria justiça, que um jogador de futebol, que foi em tempos o melhor do Mundo e que em pouco tempo não será mais que um homem rico, possa condicionar a possibilidade desta seleção dar a Portugal e aos portugueses a enorme felicidade de ser a melhor seleção do Mundo e a felicidade de todo um povo.