Para os jovens LGBTI, “a escola não é um lugar seguro”. Existe bullying em todos os estabelecimentos de ensino do país, mas as pessoas LGBTI, para além das agressões físicas ou verbais associadas ao bullying em meio escolar, “são fustigadas” pelo preconceito, a discriminação e até sujeitas a “crimes de ódio”, acusa Sofia Neves, presidente da Associação Plano i. Uma escalada de violência que, em casos extremos, pode resultar em suicídio.

É neste contexto que esta associação revelou esta quarta-feira,  através das plataformas digitais, os primeiros kits pedagógicos de combate ao bullying contra pessoas LGBTI (abreviação de Lésbica, Gay, Bissexual, Trans e Intersexo) desenvolvidos para o contexto escolar. Estão disponíveis seis kits, direcionados para cada ciclo de estudos, (desde o pré-escolar ao ensino secundário e profissional) e incluem, entre outros instrumentos, um manual de formação para docentes e educadores de infância – de forma a guiá-los nas atividades a desenvolver com os alunos nas sessões de sensibilização para a temática do bullying contra jovens LGBTI – e diversos materiais didáticos, como seja um jogo de tabuleiro ou cartas ilustradas dirigidas aos mais novos.

A mais-valia deste projeto pioneiro, intitulado “Gis vai à Escola”, e que se inspirou em outros modelos pedagógicos já disponíveis em outros países, é o facto de ter sido construído em co-autoria com 11 escolas, todas localizadas no concelho de Matosinhos, onde foi possível fazer a “validação” do ponto de vista científico, explica Paula Allen, vice-presidente da Plano i. Uma proximidade geográfica que permitiu a associação levar este projeto a bom porto – e que, agora, pode ser distribuído por qualquer escola do país – mas que teve alguns revés, como explica Marina Hintze, responsável pela execução do projeto. “Não nos foi possível obter a validação dos kits nos contextos pré-escolar e no 1º ciclo. Todas as escolas nos colocaram barreiras. Assim como os encarregados de educação”, conta.
No final, foram os educadores de infância e professores de 1º ciclo que aprovaram os conteúdos e materiais didáticos – que nunca chegaram a passar pelas mãos das crianças mais pequenas. Sendo que nessas idades, explica a responsável, “o enfoque é nos Direitos Humanos e na diversidade”.

Todos os conteúdos dos kits, segundo ainda Marina Hintze, seguem as linhas orientadoras da Estratégia Nacional para a Igualdade e a Não Discriminação (2018-2030), o que permitiu à Associação Plano i auferir de um financiamento de oito mil euros atribuído pela Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG).

Uma “pequena” subvenção, segundo Teresa Fragoso, Presidente da CIG, mas um passo em frente no combate à discriminação e preconceito, que deve “começar no ensino básico”. E dá como exemplo a nova telescola, onde alguns docentes, “com a melhor das intenções”, através da escolha de textos, palavras ou até imagens, tendem a “reproduzir estereótipos de género”, abrindo a porta à discriminação entre homens e mulheres, a raiz de todos os problemas. Algumas queixas até já chegaram à CIG. Como a de uma professora de Estudo do Meio que, durante uma aula, se referiu ao “fogão da mãe”, e em casa alguém não gostou do que ouviu.

Com o encerramento das escolas devido à Covid-19, podia julgar-se que isso seria motivo de alívio para muitos jovens LGBTI – protegidos do bullying de que são alvo em contexto escolar. Mas não é o que relata a Associação Plano i. Se a escola não é um lugar seguro, também não é em casa, com a família, que a maioria dos jovens LGBTI se sente protegido. Pelo contrário. Veja-se os números: em média, a associação, através do Centro Gis, atendia (até março) 50 a 60 rapazes ou raparigas à procura de aconselhamento ou a relatarem situações de violência. Em abril, o número disparou para mais de 200 atendimentos – por skype ou zoom. Um número “expressivo” que revela, segundo Paula Allen, a vulnerabilidade das vítimas, “agredidas em casa pelo pai ou a mãe”, que se recusam a aceitar a sua orientação sexual. Há casos ainda de jovens independentes, obrigados a regressar a casa devido à crise económica, incapazes de continuar a pagar uma renda. E sem outra rede de apoio, não lhes restou outra opção que não “voltar a entrar dentro do armário”.