“A nossa atividade está cancelada. É impensável marcar concertos neste momento. Tem de haver uma maior consciência do governo e do Ministério da Cultura para que, caso aconteça novamente, não estejamos desprotegidos”.

As palavras são de Alexandra Campos Vidal, fundadora e gestora das Damas (bar da Graça, em Lisboa, que funciona também como restaurante e sala de concertos) e ilustram a forma como olha para o que se está a passar em plena pandemia da Covid-19, agora que já começa a ser possível retomar um pouco do que era a vida social há dois meses. Já é possível ir à praia, estar num jardim, organizar jantares, fazer reservas em restaurantes. Mas e a noite? A que era feita de encontros, de troca de afetos e de copos ou de ovações que pediam bis a uma banda? A mesma que chamava milhares de turistas, cruzava nacionalidades e taxas altas de alcoolemia. A noite começa lentamente a desconfinar a partir de junho, mas com muitas dúvidas, incertezas e medo de receber um público que já não é o mesmo. E se esta não for só uma fase de transição, as consequências poderão ser gravíssimas. A noite sabe disso. Mas há esperança: se o setor sobreviveu à crise de 2008, também o vai fazer na de 2020, acreditam os agentes que lhe dão vida.

“É difícil saber quando é que vamos retomar, se fosse já amanhã teria bastante conteúdo para apresentar. Só que isto assim não é uma forma de negócio”, diz Pedro Azevedo, responsável pela programação do Musicbox

Todas estas questões foram discutidas esta quarta-feira num painel promovido pelo Lisbon International Music Network (MIL), que refletiu em voz alta sobre o setor da música ao vivo, para o qual foram convidados mais sete promotores/programadores culturais além de Alexandra Campos Vidal: Daniel Pires (gestor e programador artístico do Maus Hábitos — Espaço de Intervenção Cultural do Porto), Gustavo Rodrigues (co-fundador do Village Underground Lisboa), Márcio Laranjeira (Lovers & Lollypops), Paulo Brandão (diretor artístico do Theatro Circo de Braga), Pedro Azevedo (programador artístico do Musicbox Lisboa), Pedro Fradique (programador artístico do Lux Frágil) e Sérgio Hydalgo (programador artístico da Galeria Zé dos Bois, também em Lisboa).

É que, se é verdade que já se poderá entrar, a partir de junho, num teatro, num cinema ou até numa sala de espectáculo, com regras restritivas, também é verdade que esses mesmos espaços culturais não vão conseguir funcionar a 100% da sua capacidade. A palavra-chave é reinventar. Se abrirem portas, muitos são os que equacionam utilizar as salas para outras atividades, relacionadas com a restauração, por exemplo, ou até para albergar artistas e os respetivos projetos em trabalho criativo, como forma de rentabilizar os espaços e dinamizar a própria comunidade. Entre os promotores ouvidos, há quem tenha decidido que vai retomar já a atividade e há quem garanta que não é ainda a hora de voltar a ter espectáculos ao vivo.

“Não temos data para reabrir porque não temos lugares sentados. As Damas não é um espaço muito grande e tem sempre muita gente. Por outro lado, o nosso restaurante já está aberto, e é a pedra basilar do sustento da nossa programação. Agora, abrir a nossa sala de concertos vai ser complicado. A nossa ideia é transformar essa sala num estúdio comunitário, que receba artistas emergentes e, a partir de junho, vai também acolher uma escola de música comunitária”, afirma Alexandra Campos Vidal.

A norte, existe uma perspetiva ligeiramente mais positiva, sendo que nas últimas semanas a programação foi-se mantendo através das redes sociais. A sala de espetáculos do Maus Hábitos, no Porto, que recebia concertos, agora vai ser utilizada também como restaurante, que tem sido “a salvação” deste sítio nos últimos cinco anos, dando trabalho a 32 funcionários a full time, mas que, nos últimos meses, teve de fazer uso do regime de layoff. A intenção será também a de ter concertos com lugares sentados (44 pessoas no máximo), bem como cinema e sessões de poesia durante a semana. “Vamos abrir agora no dia 2 de junho com o restaurante, mantendo o mesmo número de mesas, mas alargando a possibilidade para as pessoas. Sobre os concertos, vai ter de haver um esforço financeiro da nossa parte para compensar o que a bilheteira dava, apesar do rombo gigantesco que levámos: em dois meses queimámos 113 mil euros e ainda temos algum para queimar”, desabafou Daniel Pires.

Um pouco mais acima, em Braga, o Theatro Circo “está pronto desde que fechou”, como contou Paulo Brandão. “Vamos fazê-lo a partir de 15 de junho, e não o fizemos mais cedo porque as regras tardaram em surgir. Vamos reabrir com cinema e, até final de julho, faremos algo todas as quintas-feiras. Não queremos é ter mais de três pessoas em palco, por exemplo. Estava mais confortável em ter de encher um terço da sala do que ter agora de encher com 400. Mas não vejo isto como um regresso, é um começar do zero”, revelou o diretor artístico.

Daniel Pires, do Maus Hábitos: “Vamos abrir agora no dia 2 de junho com o restaurante, mantendo o mesmo número de mesas, mas alargando a possibilidade para as pessoas”

É precisamente nessa ideia de que esta retoma não é um regresso que o Musicbox Lisboa prefere ir à procura de ocupar espaço público, em vez de trabalhar dentro de portas. Aliás, para Pedro Azevedo, esta retoma nem é um regresso, nem é viável do ponto de vista do negócio. “Nunca parámos, desenvolvemos conteúdos e mantivemos rubricas vivas. Agora é difícil saber quando é que vamos retomar, se fosse já amanhã teria bastante conteúdo para apresentar. Só que isto assim não é uma forma de negócio”, afirma. No mesmo sentido, Sérgio Hydalgo confessa que, com as normas agora apresentadas, “é insustentável abrir a sala de concertos da ZDB”. Primeiro, porque é pequena, e depois porque pode não ser seguro. “A livraria e a sala de exposições estão abertas, mas estamos a tentar encontrar uma alternativa no espaço público que nos permita trabalhar. Talvez tenhamos um espaço, mas é impossível prever se o vamos conseguir fazer”, comenta.

Quem também considera inviável a ideia de que estas medidas possam manter-se a longo prazo é Márcio Laranjeira, já que 80% da faturação da Lovers & Lollypops, entre funções editoriais e de agenciamento, vem da música ao vivo, quer da que é produzida pela empresa, quer a que é vendida.

“Já tínhamos uma programação pensada para junho, com ou sem público. Dia 5 vamos ter concertos presenciais e online. É mais uma vontade de fazer do que um bom negócio. Tem de se normalizar a ideia de haver programação, porque não aguentamos um ano a fazer as coisas devagarinho”.

E talvez se aguente ainda menos tempo, caso os aeroportos se mantenham fechados, diminuindo o número de turistas que também circulam nestes espaços. Essa é pelo menos uma das preocupações de Gustavo Rodrigues, que, não sendo comum a todos os participantes, é, por outro lado, um sintoma de “uma Lisboa vazia”. Assim que os aeroportos trouxerem de novo turistas, este setor “será essencial”. Para já, o Village Underground Lisboa abriu o restaurante e a esplanada há uma semana, fora as sessões de streaming nas semanas anteriores. Mas a sala de espectáculos, essa, é agora um estúdio de televisão e de streaming. “Tem vindo gente cá gravar. A nossa parte de fora, essa estamos a usar como esplanada, mas com estas regras, de marcar os pontos no chão, é um pouco complicado. Não mando nas pessoas nem decido onde ficam de pé. Estamos a tentar sentir o mercado, há muito poucas pessoas na cidade”, conta, acreditando que vai ser possível sobreviver à pandemia.

Nem mesmo para os lados de Santa Apolónia se consegue manter um espírito positivo. Apesar do desconfinamento, o Lux Frágil ainda anda à procura de perceber como é que se pode reinventar.

“Nas últimas doze semanas apresentámos uma programação diferente, sobretudo para os que estavam em casa. Agora é um momento de dúvidas e de reinvenções. Estamos a repensar o espaço. Posso reimaginar o Lux, mas pode não ser o Lux de que as pessoas sentem falta”, diz Pedro Fradique,

que sente uma certa “culpabilização do lazer” por parte de algumas pessoas. Para que se entenda: publicações nas redes sociais a apontar o dedo de quem optou por ir à praia este fim de semana, por exemplo. E publicações que se vão repetir assim que se puder voltar a dançar no Lux. Ou, pelo menos, frequentar um dos seus andares para qualquer que seja o seu fim.

“Posso reimaginar o Lux, mas pode não ser o Lux de que as pessoas sentem falta”, diz Pedro Fradique

Há também outro aspeto que parece ser comum a todos estes promotores/programadores: o streaming não veio salvar o setor e, apesar de ter tido adesão durante a quarentena, não vai substituir a experiência ao vivo — por parte de alguns espaços, nem existe grande vontade de programar tendo fazendo uso deste formato. Trazem novos públicos, sim, mas, por enquanto, de borla. Porque este também é um momento para apoiar as bandas locais, espevitar a comunidade — e as suas carteiras — e tentar que haja uma reaproximação do público português com a sua própria cultura. “As pessoas estão sedentas para exorcizar aquilo pelo que passamos, só que a confiança vai ser determinante, porque é preciso trabalhar os públicos locais”, afirma Pedro Azevedo.

Mesmo assim, ainda será preciso contar com o fator medo, quer do espectador, quer do artista. Porque com a redução de salários e alguma mudança nos hábitos das pessoas, pode haver quem prefira agora passar os seus dias e noites junto da família, e não tanto de desconhecidos. “Acho que as pessoas vão canalizar o dinheiro para outras coisas, mais próxima dos afetos e não tanto uma necessidade de ir a uma discoteca. O público que eu tinha já era”, afirmou Paulo Brandão. Uma das poucas opiniões que gerou alguma discórdia durante o painel.

O que será, por isso, fundamental, é aprender a programar para menos gente e dar um exemplo de que estes espaços conseguem funcionar. Dar confiança ao público que, por sua vez, pode vir a chamar mais público. Passos pequenos que não poderão ser pequenos durante muito tempo. É um regresso aos anos pré-boom de turismo, como defendeu Daniel Pires, a certa altura. Ou seja, a “economia da noite” não irá desaparecer, nem o seu próprio ecossistema. É preciso é reinventá-lo. Ao fim de quase duas horas de debate, ficou, então, um slogan que poderá muito bem fazer parte de um próximo concerto, exposição ou sessão de poesia destes espaços: “Small is beautiful”.

Uma espera “angustiante” e procura de alternativas fora de portas

O Carmo 81, em Viseu, funciona agora como uma sala de ensaios comunitária para duas bandas da cidade, não estando prevista a realização de qualquer concerto naquela sala de espetáculos, que permitia acolher cerca de 80 pessoas, mas onde, com as regras anunciadas pelo Governo, “caberiam 14 a 16”, contou à agência Lusa o programador do espaço, Nuno Leocádio. “Mesmo as regras não sendo tão pesadas como estavam previstas, continuam a impossibilitar um plano de negócios viável”, vincou.

Com uma lotação tão reduzida, a equipa procura num “futuro muito próximo conseguir assumir um espaço público, em colaboração com o município”. Caso contrário, “vai ser muito complicado”, admite Nuno Leocádio.

Já o Band Venue, em Torres Vedras, uma sala privada, não tem perspetiva de reabrir. A programação até já estava pensada para arrancar a 6 de junho, mas foi cancelada por a lotação ter de ser reduzida para um terço, disse à agência Lusa o diretor artístico da sala, Ulisses Dias. “Eles [músicos] já ganham tão pouco. Com capacidades reduzidas a metade como é que os artistas vão ter forma de receber algum?”, questionou.

Também o B.Leza, em Lisboa, está fora dos espaços que vão abrir portas no imediato. “Queremos e precisamos de reabrir, mas ainda não é o momento”, disse à Lusa uma das gerentes do clube, Madalena Saudade e Silva, considerando também que as condições que vigoram tornariam o espaço inviável, para além de que o distanciamento físico no B.Leza iria contra a própria filosofia do espaço, onde o concerto, “mais do que se vê ou do que se ouve, é o que se dança”.

“Tem sido uma grande angústia. Muito ingenuamente, quando fechámos, pensámos que dentro de um mês estaríamos de volta. Não sabemos se será daqui a seis meses. A linha do horizonte está cada vez mais longe”, desabafou.

Madalena Saudade e Silva recorda que “grande parte dos artistas não cabem nos grandes festivais e eventos”, mas cabem em clubes e espaços. “São salas de pequena e média dimensão que funcionam para artistas de nicho ou artistas que começaram há pouco tempo. É também essa rede que está em causa e não são com certeza as transmissões em direto [via digital] que as substituem. E isso é que me dá alguma esperança. Esse carácter de proximidade, a energia que se transmite e se troca num concerto não há direto que algum dia venha ocupar esse espaço”, concluiu.

O Salão Brazil, em Coimbra, apesar de passar de uma lotação de 200 pessoas para 40, conta anunciar para a próxima semana a retoma da programação, afirmou José Miguel, diretor do Jazz ao Centro Clube, entidade que gere aquele espaço. Por contar com apoios públicos, a sala quer assegurar “condições dignas” aos artistas e, por isso, assumir algum prejuízo decorrente da redução das receitas de bilheteira, explicou, avançando que não irá subir o preço de bilhetes praticados até agora.

No entanto, José Miguel assume que nem todas as salas terão a mesma capacidade de absorver esse prejuízo, acreditando que alguns espaços “vão atravessar um período de grandes dificuldades”, ao mesmo tempo que fragiliza a rede informal de pequenas salas de concertos que estava a estruturar-se.