Está marcada para as 17h deste sábado, 30 de maio, uma vigília de familiares e amigos dos utentes do lar do Centro de Bem-Estar Social de Queluz (CBESQ).

À porta da instituição, onde na última semana foram confirmados 38 casos de infeção pelo novo coronavírus, seis funcionários e 32 idosos — dois dos quais engrossaram entretanto a lista de óbitos provocados pela pandemia —, os familiares vão reunir-se em protesto contra a forma como a direção do lar está a lidar com a situação. E exigir, através da entrega de uma carta aberta, a demissão da atual direção.

O documento, a que o Observador teve acesso, acusa a direção do CBESQ de “incúria, negligência”, por não ter tido “o cuidado constante de controlar e monitorizar o estado de saúde dos seus utentes” e refere denúncias anónimas de trabalhadores do lar que relatam “um clima de medo e assédio moral bem como insustentáveis carências de recursos humanos, higiene pessoal (em virtude da baixa de várias funcionárias), equipamento de proteção individual”.

Na carta aberta, que pretendem entregar este sábado a Fernanda Braz, presidente da direção do CBESQ, os familiares dos utentes aludem ainda à medida imposta assim que foram conhecidos os primeiros casos no lar, no passado fim de semana, que passou a limitar as comunicações entre os idosos e o exterior.

“Durante uma semana, a Direção impediu os utentes de contactarem por via telefónica ou por videoconferência com os seus familiares, contrariando as orientações da DGS, o direito à personalidade e à reserva da vida privada e familiar, bem como a própria Constituição da República, não sendo a Direção capaz de justificar tal decisão, remetendo-a para uma ‘equipa médica’ não identificada”, acusam os familiares, passando depois a concluir que, por todos estes factos, “a atual Direção perdeu a confiança dos utentes e das famílias”.

Idoso infetado em lar impedido de contactar com a família: “Há uma possibilidade de não voltarmos a falar com o nosso pai”

Da carta aberta consta ainda a informação de que várias famílias apresentaram queixas ao Instituto da Segurança Social, à Direção-Geral de Saúde e à Polícia de Segurança Pública. António Santos, filho de um dos três primeiros utentes infetados, que entretanto já saiu do lar e foi hospitalizado, com um diagnóstico de pneumonia e infeção bacteriana, terá sido um dos primeiros a fazê-lo, já tinha revelado durante a semana ao Observador.

Indignado por não conseguir falar com o pai, na altura isolado num quarto do lar, em Queluz, o filho mais novo de António Joaquim Santos, denunciou a situação e acusou o CBESQ de se sobrepor “à lei portuguesa, à DGS e à própria Constituição”. “Ele tem 89 anos, uma saúde frágil e um quadro clínico complicado. Não querendo agoirar, isto quer dizer que há uma possibilidade real de não voltarmos a falar com o nosso pai”, disse na altura.

Contactada também durante a semana, Fernanda Braz explicou ao Observador que o corte de telefonemas e vídeochamadas dos idosos para o exterior teve como objetivo zelar pela segurança dos utentes e travar novas infeções. Na altura eram conhecidos apenas nove casos de infeção no CBESQ, seis funcionários e três utentes: “A equipa de saúde falou comigo e achou por bem que ficassem suspensas as comunicações enquanto os outros utentes não forem testados — estamos a testar cerca de 60 pessoas, devemos ter os resultados entre terça e quarta-feira —, para que os tablets e os telefones não andassem de mão em mão. A partir daí as comunicações com a família passaram a ser feitas pela equipa de enfermagem”.