Os médicos que trabalham no serviço de ginecologia e obstetrícia do hospital Garcia de Orta, em Almada, ameaçam demitir-se em bloco na sequência da demissão do diretor do serviço, Alcides Pereira, avança a TSF.

Numa carta dirigida à Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, os profissionais alegam que Alcides Pereira foi demitido do cargo por ter criticado algumas decisões da administração e da direção clínica do Garcia de Orta, relacionadas com medidas postas em prática durante o combate à Covid-19.

À TSF, Alcides Pereira dá um exemplo: a decisão de juntar na mesma enfermaria grávidas com e sem Covid-19, quando “havia enfermarias dedicadas a doentes Covid completamente livres”. Mais defende que deviam ter sido criadas instalações fora do hospital para receber doentes infetados.

“Por dizer que tinham sido feitas escolhas erradas, por criticar a gestão clínica fui demitido”, afirma Alcides Pereira.

A administração do Hospital Garcia de Orta explica que tomou a decisão de demitir o médico Alcides Pereira na “sequência de uma atuação institucionalmente incorreta da exclusiva iniciativa do Diretor do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia para com o Conselho de Administração, que o próprio tornou pública”.

“A saúde dos utentes e a segurança dos profissionais foi, tem sido e será a maior preocupação deste Conselho de Administração”, lê-se na nota enviada, onde os administradores escrevem também que “em momento algum” atuaram “de forma não concertada” com os “todos os grupos profissionais, Serviços clínicos e seus Diretores”.

O Sindicato Independente dos Médicos (SIM) também criticou esta sexta-feira a demissão do diretor de Obstetrícia do Hospital Garcia de Orta, que a administração justifica com “atuação institucionalmente incorreta”. Em declarações à agência Lusa, o presidente do SIM, Jorge Roque da Cunha, afirmou que “nem no tempo do fascismo havia não-justificações menos explícitas”, salientando que o conselho de administração tem o poder para tomar essa decisão mas que o fez de forma “leviana” ao demitir Alcides Pereira.

Roque da Cunha afirmou à Lusa que no princípio de março, “os médicos do serviço já tinham ultrapassado as 150 horas semanais” de trabalho e que na reabertura dos serviços regulares, “o conselho de administração, sem ouvir o diretor do serviço, quis impor uma carga horária ainda maior e um espaçamento entre consultas que põe em risco pacientes e profissionais”.

Roque da Cunha indicou que dezenas de profissionais do serviço subscreveram uma carta dirigida à administração e declaram “veemente apoio” à continuidade em funções de Alcides Pereira.

“No que é do nosso conhecimento, a discordância que pode ter ocorrido entre o Dr. Alcides e o CA resulta da sua permanente preocupação com as utentes e os profissionais do Serviço (e não só), que todos agradecem”, afirmam os profissionais na carta a que a Lusa teve acesso, apelando a que “a decisão seja revista”.

Roque da Cunha acusou a administração de conduzir uma “política de chicote” em vez de diálogo e pede “bom senso”, salientando que a unidade de obstetrícia e ginecologia do Garcia de Orta “é dos mais importantes da região de Lisboa”, recebendo as grávidas da região de Lisboa mas também a maior parte das emergências, gravidezes de risco ou partos prematuros de toda a região Sul.