De forma, talvez, surpreendente, a Bundesliga foi das últimas ligas europeias a acordar para a gravidade da pandemia que em março atingiu definitivamente a Europa. No fim de semana em que tudo mudou, no fim de semana em que grande parte do continente encerrou escolas, fechou cafés e restaurantes e confinou a larga maioria da população, a Bundesliga só suspendeu a competição à última da hora. Até aí, pretendia ainda jogar à porta fechada — mas continuar a jogar.

Por isso, provavelmente, assumiu desde aí um papel pioneiro nos avanços durante a pandemia — desde a redução de salários, desde o desenhar de protocolos para o regresso aos trabalhos, desde o alinhavar de planos para voltar à competição. Logo no primeiro tópico, o Bayern Munique tomou mesmo a dianteira do panorama europeu, tornando-se um dos primeiros clubes a anunciar uma redução salarial no plantel para fazer face aos desafios financeiros provocados pela pandemia. Em abril, Lewandowski, Müller, Neuer e companhia aceitaram um corte de 20% nos respetivos salários: e este sábado, mais de um mês depois, provaram que a atitude não tinha sido apenas para agradar.

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Em declarações ao jornal Bild, o presidente Herbert Hainer anunciou que os jogadores do Bayern decidiram prolongar o corte salarial até ao final da temporada — sem detalhar se se trata dos mesmos 20% ou de outra percentagem. “É muito bom constatar que a nossa equipa compreende plenamente a situação e prescinde de parte do salário até final da época”, limitou-se a dizer Hainer.

Este sábado, o Bayern Munique recebia o Fortuna Düsseldorf, equipa no antepenúltimo lugar da Bundesliga, e procurava dar mais um passo rumo ao quase certo oitavo título alemão consecutivo — isto depois de, na semana passada, ter vencido o Borussia em Dortmund e ter cavado uma distância de sete pontos para o segundo lugar. De regresso à Allianz Arena, Hansi Flick lançava o central Lucas Hernández ao lado de Alaba, remetendo Boateng para o banco de suplentes, mas não fazia qualquer outra alteração à equipa do fim de semana anterior.

Contra o Fortuna, os primeiros minutos mostraram o mais do que expectável: um Bayern muito ofensivo, com a equipa completamente tombada para a frente, e um Fortuna na expectativa, à procura de espaços para o contra-ataque, ciente de que não tinha absolutamente nada a perder. Num jogo aparentemente simples, Lewandowski tinha uma motivação extra — o Fortuna era a única equipa do atual alinhamento da Bundesliga a quem o avançado ainda não tinha marcado. Um golo, este sábado, significava para o homem-golo do Bayern a conclusão de uma caderneta de 17 cromos, 17 clubes, a quem Lewandowski já marcou pelo menos uma vez.

O inaugurar do marcador, porém, ficou entregue a um nome menos previsível. Quando tinha passado apenas um quarto de hora da primeira parte, o Bayern chegou de forma natural à vantagem, sem necessidade de acelerar muito nem de aplicar um brilhantismo acima da média. Num lance de insistência, Muller procurou Gnabry ao segundo poste, o alemão tocou para trás e surgiu Pavard, o lateral direito francês, a desviar para a baliza (15′). Antes de entrar, a bola tocou no central Jorgensen e a jogada foi interpretada como auto-golo do jogador dinamarquês.

Mesmo com o marcador desequilibrado, o jogo pouco ou nada se alterou. O Bayern continuou totalmente por cima mas a privilegiar a posse de bola e o controlo das situações do que os lances de perigo, de forma a não abrir suscetibilidades que pudessem motivar respostas rápidas do Fortuna. O aumentar da vantagem, mais uma vez, surgiu com muita naturalidade — e, desta vez, Pavard conseguiu mesmo inscrever o nome na ficha de jogo. Na sequência de um canto batido na direita, o lateral apareceu na zona central sem grande oposição e cabeceou forte para o interior da baliza (29′).

Até ao intervalo, o Bayern tirou ligeiramente o pé do acelerador e permitiu que o Fortuna Düsseldorf fosse adquirindo alguns metros no terreno de jogo. Principalmente através da ala esquerda do ataque, onde Erik Thommy apanhava muitas vezes Pavard adiantado e conseguia enganar a dobra de Kimmich, o Fortuna começou a causar alguns desequilíbrios na hora da transição ofensiva. Karaman protagonizou a melhor oportunidade, ao rematar sozinho já na grande área, mas Alaba evitou que a bola chegasse à baliza de Neuer (33′). Mas até ao fim da primeira parte, num lance brilhante de envolvimento ofensivo, o Bayern chegou ao terceiro golo. Kimmich correu até ficar na cara do guarda-redes e tocou para Müller, Müller soltou para Lewandoswki e o polaco só precisou de empurrar (43′). O avançado, que até aqui até estava algo apagado no ataque e sem grande intervenção nas investidas da equipa, marcou pela primeira vez ao Fortuna e carimbou o último selo da caderneta de cromos da Bundesliga.

No início da segunda parte, Hansi Flick tirou Lucas Hernández — o central francês, que esteve muito tempo parado devido a uma lesão grave, foi o elemento ‘menos’ do Bayern durante a primeira parte e acabou por não ficar para a segunda. Entrou Cuisance para o meio-campo e Kimmich recuou para a posição de central, em mais uma confirmação de que o alemão cumpre várias posições do terreno de jogo e sempre com a mesma qualidade.

A história da segunda parte foi semelhante à da primeira. Com apenas cinco minutos cumpridos, Lewandowski marcou novamente, chegou aos 43 golos em todas as competições na presente temporada, igualou o melhor registo pessoal e superou Immobile na corrida pela Bota de Ouro (ainda que o italiano ainda não tenha voltado a jogar). Num lance de insistência, Gnabry cruzou rasteiro a partir da direita e o avançado polaco encostou de calcanhar (50′), num momento de grande qualidade técnica em que voltou a mostrar que é muito mais do que um simples finalizador. Dois minutos depois, foi a vez de Alphonso Davies: o lateral canadiano tirou vários defesas adversários da frente para entrar na grande área e rematou rasteiro e cruzado para levar o resultado para os 5-0 (52′).

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Até ao fim, pouca história. O Bayern tirou o pé do acelerador, o Fortuna aproveitou para se libertar um pouco da pressão, o resultado não voltou a alterar-se e Hansi Flick ainda teve tempo de oferecer a estreia ao jovem Oliver Batista Meier. Flick já ultrapassou a impressionante barreira dos 60 golos desde que assumiu o comando técnico do Bayern Munique — em apenas 19 jogos — e somou o oitavo encontro seguido sem sofrer golos. Lewandowski completou a caderneta, Pavard aproveitou uma tarde inspirada para estar em dois golos e Davies voltou a brilhar: pelo meio, o Bayern, que continua a cortar nos salários, mostrou que está longe de cortar nos golos.