O Centro para a Democracia e Desenvolvimento (CDD), organização da sociedade civil moçambicana, considera “enganosa” a deflação de 0,6% registada em maio pelo Índice de Preços no Consumidor (IPC) do Instituto Nacional de Estatística (INE) moçambicano.

Numa análise aos dados do INE, o CDD refere que o IPC de maio não reflete a “dinâmica do custo de vida” que Moçambique tem vindo a registar nos últimos meses.

“Na conjuntura atual de crise económica provocada pela Covid-19, esta deflação não resulta de um excesso de oferta de produtos no mercado, mas sim da escassez da procura em consequência da deterioração do poder de compra das famílias, principalmente as de baixo rendimento”, diz aquela organização.

O CDD observa que os produtos consumidos por famílias com rendimentos mais altos sofreram uma baixa nos preços, mas os bens adquiridos pelas famílias com rendimentos mais baixos conheceram um incremento acentuado de preços.

As creches e infantários tiveram uma deflação de -30,1%, o ensino primário privado caiu -24,6%, o ensino secundário do primeiro ciclo privado -14,9%, ensino superior privado -14,3% e a gasolina -2,0%.

Em contraponto a essa tendência, o preço do açúcar castanho subiu 11,5%, cebola 6,5%, óleo alimentar 3,4%, arroz em grão 1,7% e peixe fresco 0,8%.

Na análise, o CDD volta a apelar ao governo para “criar e implementar uma política de proteção social para resgatar as famílias de baixo rendimento, que estão cada vez mais sufocadas pela crise causada pela pandemia de Covid-19”.

A tabela dos últimos 29 meses do IPC do INE mostra que o país tem registado deflação mensal sensivelmente a meio do ano: foi assim em junho de 2018 (0,12%) e entre maio e julho de 2019 (0,31%, 0,23% e 0,31% respetivamente).

Desta vez, “o país registou [em maio] face ao mês anterior [abril 2020] uma deflação na ordem de 0,6%”, sobretudo devido à redução de preços nos setores da educação (0,32%) e de alimentação e bebidas não alcoólicas (0,23%), refere o INE.

Apesar de não fazer referência a impactos da Covid-19 nas contas apresentadas, o documento abrange um período em que as escolas já estavam encerradas em Moçambique (desde 23 de março) como medida de prevenção de infeções pelo novo coronavírus.

Por conta da suspensão do ano letivo, vários estabelecimentos têm negociado os valores de propinas com os encarregados de educação.

A inflação média a 12 meses subiu em maio de 2,73% para 2,78% – mantendo-se na casa dos 2,7% desde novembro de 2019.

A inflação homóloga foi de 3,02%, o valor mais baixo de 2020, e o total acumulado deste ano, decorridos cinco meses, é de uma inflação de 1,14%, mais baixo que em 2018 e 2019 no mesmo período.

Os valores do IPC são calculados a partir das variações de preço de um cabaz de bens e serviços, com dados recolhidos nas cidades de Maputo, Beira e Nampula.