Os mais novos, de bata vestida, já estavam no campo de futebol alinhados com as educadoras, e os moradores já se viam das janelas, com telemóvel em punho, tudo para receber a visita do Presidente da República no Centro Social no Bairro do Lagarteiro. Marcelo Rebelo de Sousa entrou em campo ao som de aplausos, como se de uma estrela de futebol se tratasse, e fez questão de perguntar o nome de cada criança que o esperava. Ouviu poemas, recebeu presentes e sentou-se na relva de pernas cruzadas para tirar o típico retrato de família. “Tudo a levantar depressa”, dizia o presidente enquanto se punha de pé num ápice, arranjava a gravata e se dirigia à próxima paragem: o Centro Social de S. Roque da Lameira.

“Se viver 100 anos, votarei sempre em si”, ouvia Marcelo de uma janela com a roupa pendurada a secar. Em resposta, mandava beijinhos com a mão através da máscara e acenava aos que estavam mais longe fisicamente. Não é a primeira vez que o Presidente da República visita bairros social no Porto, mas desta vez a sua presença parece marcar “coerência” no mandato.

“Comecei o meu mandato há cinco anos, aqui no Porto, dois dias depois de tomar posse em Lisboa, vim tomar posse simbolicamente no Porto. Fui ao bairro social do Cerco para dizer que, para mim, o mais importante são as pessoas e os que menos têm, mais sofrem e mais necessitam dos outros. Termino o meu mandato, de alguma maneira, visitando dois centros da mesma obra [Diocesana do Porto]. Quis que fosse um mandato coerente, preocupado com os sem-abrigo, preocupado com as instituições de solidariedade social, preocupado no tempo em que não havia pandemia, preocupado no tempo em que há pandemia”, referiu.

No Porto, Marcelo sublinhou que “dure o que durar a pandemia”, “não há portuguesas de primeira ou de segunda” e que “não há pandemia que trave a solidariedade do povo português”. Ao mesmo tempo que o primeiro-ministro António Costa falava, depois do Conselho de Ministro, anunciado as novas medidas de combate à Covid-19, o Presidente reagia, dizendo que teve conhecimento prévio das mesmas e que vão ao encontro do que defendem os especialistas. “A ideia é encontrar soluções diferentes para realidades que se entendam diferentes. Uma ideia que corresponde aquilo que os especialistas têm defendido que é não haver soluções gerais, mas soluções especificas para situações especificas.”

O chefe de Estado considera que as últimas coordenadas comunicadas por António Costa tiveram em consideração a dimensão social e de saúde pública e são, por isso, “suficientes”. “Certamente pesou no pensamento do Governo a ideia de que, para esses diretamente envolvidos, há uma dupla preocupação: de um lado da saúde publica, do outro lado o emprego e a continuação da atividade económica”, disse, acrescentando que o atual Executivo ponderou “em função de dados concretos, do levantamento do terreno, e entendeu que era suficiente o leque de medidas neste momento adotadas”.

Em declarações aos jornalistas, Marcelo Rebelo de Sousa aproveitou para responder às críticas do social democrata Morais Sarmento, a propósito da nomeação do próximo governador do banco de Portugal, classificando-as de “distração lateral”.

“Eu ouvi as intervenções do PSD, que é o partido liderante da oposição, e verifico que o PSD decidiu abrir caminho à nomeação do professor Mário Centeno para o Banco de Portugal, na medida em que adotou uma posição sobre a lei que vai ser votada no parlamento que abre esse caminho. Esse é o facto politicamente importante. Depois, há o facto lateral, digamos assim, uma espécie de distração lateral”, disse, reiterando que o importante é a posição dos sociais-democratas.

O vice-presidente do PSD Nuno Morais Sarmento classificou como “incompreensíveis” as comparações do Presidente da República entre o caso Centeno e anteriores nomeações de ministros das Finanças para governadores do Banco de Portugal. Esta quinta-feira, o chefe de Estado salientou que “qualquer jurista com curso de direito” perceberia que o conflito de interesses existente entre Governo e Banco de Portugal diminui com a alteração, em 1998, do regime do Banco de Portugal, que permitiu aumentar a sua independência em relação ao poder governativo. “O ministro das Finanças, a partir de 1998, passou a ter menos poderes sobre o Banco de Portugal do que tinha, portanto passou a haver menos conflito de interesses entre o ministro das finanças e o Banco de Portugal”, sustentou, sublinhou.

“A duração da pandemia determina a gravidade da crise”

Já ao final da tarde, Marcelo trocou de máscara, calçou as luvas e entrou na cozinha do Serviço Porta Solidária do Centro Paroquial Social da Paróquia da Senhora da Conceição, no Marquês. À sua espera não estavam crianças de bata vestida, mas uma fila de pessoas carenciadas. Uns cumprimentavam-no sorridentes, outros queixavam-se de não ter emprego, casa ou até mesmo dentes. Outros, de cabeça baixa, quase o ignoravam.

Habituado a vestir o papel de voluntário, o Presidente da República distribuiu refeições quentes a pessoas em situação de sem abrigo, trabalhadores da construção civil e camionistas. Um deles foi António Vieira, recém desempregado. “Venho aqui todos os dias, felizmente ou infelizmente”, diz em entrevista ao Observador. Vive num quarto sozinho e conta com o apoio social para conseguir comer. “O subsídio de desemprego vai terminar no final deste mês, não sei o que vou fazer.”

De saco plástico vazio na mão, várias centenas de pessoas aproximavam-se da mesa, ainda com uma decoração alusiva ao S. João, e recebiam das mãos do Presidente sopa, pão, um prato quente, fruta, bolachas e três sandes. “A fila nunca mais acaba?”, perguntava Marcelo Rebelo de Sousa entre dois voluntários. Num processo quase automático, um utente pede, quase a segredar, cinco euros a Marcelo, que lhe dá uma nota para a mão de forma discreta.

“Há coisas que controlamos e outras que não controlamos, a duração da pandemia determina a gravidade da crise. Uma pandemia que dure muito mais provoca uma crise maior”, disse no final da ronda, reconhecendo que “a iniciativa crucial para os sem abrigo é a habitação”.

“Há municípios que estão a fazer isso. O Estado compromete-se a fazer isso. São umas centenas de fogos. Tudo somado serão umas largas centenas de fogos. O que nós desejamos agora é que se desenvolvam rapidamente e que as casas venham a ser construídas porque o número de sem-abrigo aumentou e o facto de ter aumentado significa que em muitos casos aumentou a necessidade de habitação”, acrescentou.

Manifestado o desejo de que a crise não seja longa, o Presidente expressou o desejo que a “Europa tome decisões nos dias 17 e 18 de junho que permitam corresponder à gravidade da crise”. “Todos nós desejamos que seja possível, com as medidas tomadas e outras a tomar, limitar o desemprego e ajudar ao arranque da atividade económica.”

Uma crise que, segundo o chefe de Estado, “poder ser muito profunda”. “Tenho usado a palavra brutal e a dúvida é saber se é brutal num ano, dois ou três. Quanto tempo demorará essa crise? Como é que é possível ao longo da crise enfrentá-la, olhando para os problemas cruciais e aqueles que mais necessitam?”

Nos efeitos da pandemia, o sofrimento é para Marcelo uma inevitabilidade. “Vão sofrer todos, vão sofrer as classes médias que o deixam de ser, vão sofrer os que estão em risco de pobreza que passam a situação de pobreza, vão sofrer os que estão em situação de pobreza e que ficam numa pobreza mais profunda.” É, por isso, necessário um “esforço coletivo” para fazer “tudo o que for possível fazer”, da parte do Estado, das autarquias, das empresas e da sociedade civil. “Obviamente que o Estado tem um papel muito importante (…) já sabemos o que deverá ser feito e é para ser feito durante muito tempo. Não é uma coisa para semanas ou para poucos meses, é para anos.”

Na noite desta quinta-feira, o Presidente da República distribuiu refeições a pessoas sem situação de sem abrigo pelas ruas da baixa portuense com o grupo de voluntários “Coração na Rua”, onde não comentou a proposta do Governo ao nomear Mário Centeno para governador do Banco de Portugal. “Não comento. Vi-a [a informação] nas notícias, portanto não vou comentar. Agradeço muito à comunicação social o ter transmitido, mas não vou comentar (…) aquilo que soube através da comunicação social.”