“Acho que cometi um erro. Pensava que era um logro, mas não é”, disse um homem de 30 anos à enfermeira que o tratava pouco antes de morrer com Covid-19. Este é um exemplo dos casos que se têm reportado entre jovens e jovens adultos que não acreditam que o vírus seja real ou que só querem desafiar a sorte.

O caso deste homem, que disse ter estado numa “Covid Party”, foi relatado por Jane Appleby, diretora médica no Methodist Healthcare, no sul do Texas. A médica tinha como objetivo alertar para o aumento do número de casos naquela região, sobretudo entre pessoas mais jovens. “Nenhum de nós é invencível.”

Festas de varicela

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Antes de haver vacina contra a varicela — e ainda hoje em dia —, os pais juntavam as crianças num mesmo espaço para que a criança infetada passasse a doença aos restantes. Os pais defendem que a infeção na infância é melhor do que na idade adulta ou que preferem uma imunização natural do que pela vacina. Os médicos, no entanto, desaconselham este tipo de festas e asseguram que a vacina é a forma mais segura de se proteger contra a doença.

A ideia das “festas Covid” é terem entre os presentes uma ou mais pessoas infetadas, seja com o objetivo de infetar os restantes — como se fazia com a varicela antes de haver vacina —, seja porque as pessoas acham que assim vão provar que o vírus não existe. As dúvidas sobre a existência do vírus têm sido propagadas por teorias da conspiração e informações falsas que órgãos de comunicação, como o Observador, têm procurado rebater.

As 149 informações falsas sobre o coronavírus que já encontrámos nas redes sociais

Mas se as “festas Covid”, as que têm como objetivo infetar intencionalmente pessoas, existem ou não ainda há dúvidas. Os médicos no sul do estado de Washington dizem ainda não ter provas de que as pessoas se juntam para ficarem infetadas ou se as infeções resultam de ajuntamentos “inocentes”, refere o jornal The New York Times.

A revista Wired diz que os relatos das “festas Covid” entre jovens no Alabama, que apostariam sobre quem ficaria infetado primeiro não são verdadeiros. Mas ressalva que apesar de não haver prova de que as pessoas estão a fazer “festas Covid”, a verdade é que têm promovido festas onde o coronavírus se espalha e infeta outras pessoas.

Robert Glatter, médico de emergência do Hospital Lenox Hill (Manhattan), classifica estas potenciais “festas Covid” de “perigosas, irresponsáveis e potencialmente mortais”.

Participar numa festa destas pode ser o caminho para uma morte precoce ou, se sobreviver, para uma fadiga crónica e implacável, dor no peito, dificuldade em respirar e febre diária”, diz Robert Glatter, médico de emergência do Hospital Lenox Hill.

Thomas Macias, de 51 anos, também morreu no final de junho na Califórnia depois de uma festa de amigos, noticiou a CNN. Mas, neste caso, nem ele nem os restantes amigos presentes no churrasco sabia que um deles estava infetado — e ninguém estava de máscara. O amigo infetado não disse nada a ninguém porque não tinha sintomas e achava que não poderia transmitir o vírus, mas a verdade é que pelo menos uma dezena de pessoas ficou infetada. Thomas Macias foi apanhado numa das poucas saídas que fez desde a declaração da pandemia.

Foi também sem saber que estava infetada que Alice Stockton-Rossini, uma jornalista que tem estado a cobrir a pandemia na região de Nova Iorque, infetou pelo menos seis pessoas numa festa, duas das quais morreram. A festa era para a mãe que fazia 90 anos e juntou 25 convidados. A mãe e o pai ficaram doentes e a melhor amiga da mãe morreu com a doença.

Jovem morre depois de festa religiosa

A história de Carsyn Leigh Davis, de 17 anos, mistura uma festa (religiosa) com desinformação e mau aconselhamento parental, mas um destino igualmente fatal para a jovem, segundo a agência News Press. A jovem, doente crónica, participou numa festa religiosa com cerca de 100 pessoas, onde não usou máscara, nem cumpriu o distanciamento social.

A igreja evangélica de Fort Myers, na Florida, recusou que se tratasse de uma festa com o objetivo de infetar os presentes, mas o que se sabe é que os pais de Carsyn Leigh Davis, ambos profissionais de saúde, lhe deram o antibiótico azitromicina — promovido como preventivo e tratamento para a Covid-19, mas sem fundamento científico — nos dias que antecederam a festa.

A jovem ficou doente três dias depois do encontro, mas só seis dias depois disso, e quando os níveis de oxigénio estavam muito baixos, é que a mãe lhe deu oxigénio e hidroxicloroquina — outro medicamento promovido por Donald Trump, mas que não provou ser eficaz no tratamento da doença.

Sem melhorias, a jovem foi levada para o hospital, mas os pais recusaram que fosse entubada para ventilação mecânica e optaram pelo tratamento com plasma de doentes recuperados. O estado de saúde agravou-se e, mesmo depois de entubada, Carsyn Leigh Davis já não sobreviveu.