“Não gosto de individualizar mas o Chancel Mbemba é um jogador que já conhecia dos tempos da Bélgica. É consistente em todas as posições, faz mais do que uma posição. Não foi por acaso que o meti a central do lado direito e o Pepe do lado esquerdo. Tem características importantes. Ele é uma pessoa tranquila e nós não podemos dissociar o que são os jogadores da pessoa em si. Está lá dentro a sua essência, o que ele é, uma pessoa tranquila, respeitadora do que são as opções da equipa técnica. Soube esperar pela oportunidade, teve a oportunidade, é um jogador importante”. Na antecâmara da receção ao Belenenses SAD, Sérgio Conceição fez uma exceção e falou de um jogador em particular. Aí, ainda não era campeão; agora conquistou a dobradinha.

Mbemba, um herói cada vez mais provável que acabou mais um dia a pensar pela própria cabeça (a crónica da final da Taça de Portugal)

Apesar de nem sempre ter conseguido encontrar o seu lugar na equipa, o central congolês aproveitou da melhor forma a lesão grave de Marcano no regresso aos treinos depois da pandemia, assumiu a titularidade, teve um golo fundamental para o título na deslocação a Paços de Ferreira, lesionou-se. Não foi por acaso que o técnico azul e branco, a três dias da final em Coimbra, anunciou a boa nova da recuperação do defesa. O que dificilmente poderia imaginar era que o internacional teria tanta influência no resultado final do clássico.

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Mbemba até partia com uma curiosidade em relação a todos os jogadores à disposição do FC Porto: era o único que tinha marcador dois golos num encontro frente ao Benfica, em 2013, quando estava no Anderlecht. Questão: nessa derrota do conjunto belga contra os encarnados de Jorge Jesus por 3-2, o central marcou um golo na baliza certa e outro na própria baliza, a que se juntaram ainda remates certeiros de Matic e Rodrigo. Aqui, era uma curiosidade; no final, tornou-se um feito histórico. E bastaram 12 minutos para esse lugar ser conquistado.

Já com o FC Porto reduzido a dez e com Sérgio Conceição na bancada, Mbemba inaugurou o marcador aos 47′ no primeiro lance de perigo da segunda parte no seguimento de um livre lateral marcado por Alex Telles com falha de Vlachodimos; teve um corte providencial após cruzamento de Pizzi e quando Seferovic se preparava para encostar na área (54′); e bisou mais uma vez na sequência de um livre, desta vez marcado por Corona, surgindo apenas três centímetros atrás da linha defensiva contrária para marcar o segundo golo dos azuis e brancos (59′).

Com isso, Mbemba tornou-se apenas o segundo defesa do FC Porto a marcar dois golos no mesmo jogo ao Benfica e, mais do que isso, passou a ser o único defesa a ter bisado numa final da Taça de Portugal.

“Era um jogo importante, sabíamos que era uma final. Agradeço o apoio a todos os adeptos. Sofremos muito, tivemos uma expulsão na primeira parte. Fizemos todos os possíveis para marcar. Não foi fácil mas diria que foi sorte. Não foi nada fácil, sou defesa mas apareceu a oportunidade e marquei”, comentou o congolês na zona de entrevistas rápidas da RTP, antes de contar também a mensagem que foi passada ao intervalo: “Quando o treinador viu o cartão vermelho e o Luis [Díaz] também, ao intervalo, ele disse: ‘Temos de honrar esta camisola, não há que olhar a nada, temos de defender. Somos profissionais, temos de dignificar esta camisola, porque para lá de nós há os adeptos, há o presidente, há muita gente. Há que vestir a camisola’. Foi isso que fizemos, demos uma demonstração de caráter enquanto equipa e conquistámos a vitória”.