Um ano e três meses depois do enfarte, um ano e três meses depois de jogar pela última vez, semanas depois de se saber que vai regressar ao Real Madrid para ser assessor de Florentino Pérez e poucos dias depois de ver o FC Porto conquistar a Taça de Portugal, Iker Casillas anunciou oficialmente a decisão que pairava desde maio do ano passado. Num post no Instagram, o guarda-redes espanhol anunciou o final da carreira, numa carta que termina com os emblemas do Real Madrid, do FC Porto e da Federação Espanhola de Futebol, em representação da seleção.

“O importante é o caminho que percorres e as pessoas que te acompanham, não o destino onde te levam. Porque isso, com trabalho e esforço, chega sozinho. E acho que posso dizer, sem dúvidas, que foram o caminho e o destino sonhados”, escreveu Casillas na legenda que acompanha a longa carta de despedida, onde começa por dizer que “chegou o momento de dizer adeus”.

“Hoje é um dos dias mais importantes e talvez mais difíceis da minha vida desportiva: chegou o momento de dizer adeus. O meu percurso no mundo do futebol começou há 30 anos. Tem sido um caminho longo e como todos os caminhos teve momentos bons e menos bons, alegrias mas também tristezas. Neste momento da minha vida e com perspetiva, posso dizer sem lugar para dúvidas que valeu a pena”, continua o guarda-redes, que recorda em seguida os primeiros passos que deu no futebol, nos “campos de terra” de Móstoles, a zona de Madrid onde cresceu, até chegar ao Santiago Bernabéu e ao Dragão.

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Casillas garante que este é “um dia difícil mas não um dia triste” e agradece à família, à mulher e aos filhos, antes de dedicar algumas palavras aos dois clubes que representou. “Aos meus clubes: ao Real Madrid, onde passei toda uma vida, onde me educaram, onde me fizeram e me viram crescer, por me introduzirem os seus valores e, em definitivo, por ser aquilo que sou; ao FC Porto, por me terem acolhido como acolheram, por me ensinarem a ver as coisas de outro ângulo, por me darem a oportunidade de conhecer bem um clube e uma cidade pela qual me apaixonei e que sempre levarei no meu coração. Vão sempre fazer parte de mim”, acrescenta o espanhol, para depois deixar agradecimentos aos presidentes dos merengues e dos dragões, aos colegas de equipa, aos adeptos e aos adversários, antes de deixar o adeus final — e o mais importante.

“Sobretudo, obrigado ao futebol por me ter permitido fazer parte dele, por ser um desporto maravilhoso, por me permitir viver uma vida cheia de paixão e emoções. Por me dar momentos de felicidade e por me fazer crescer como desportista e como pessoa. Por me dar a oportunidade de conhecer e partilhar momentos com tantas e tantas pessoas incríveis. Em definitivo, obrigado por me teres dado tudo”, diz Casillas, referindo depois que este não se trata de um “ponto final” e que “a viagem não acaba aqui”. “Hoje deixo para trás esses três ferros que me viram crescer como guarda-redes, os que em cada momento me colocaram no meu sítio e me obrigaram a manter os pés na terra, esses três ferros a que tanto devo e que de certeza que vou sentir saudades. E ali também vos deixo a vocês, minhas fiéis aliadas, ali também deixo as luvas”, termina o espanhol, que no passado sábado levantou em conjunto com o capitão Danilo o troféu da Taça de Portugal conquistado pelo FC Porto.

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Iker Casillas entrou na formação do Real Madrid no início dos anos 90, tendo chegado à equipa principal com apenas 16 anos, para um jogo da Liga dos Campeões contra o Rosenborg em que não chegou a sair do banco de suplentes. A estreia chegou em setembro de 1999, num jogo da liga espanhola contra o Athl. Bilbao, e três dias depois tornou-se o guarda-redes mais novo de sempre a atuar na Liga dos Campeões, com apenas 18 anos e 177 dias — um recorde entretanto quebrado por Mile Svilar, ao serviço do Benfica, em outubro de 2017. No ano seguinte, apenas dias depois de completar 19 anos, tornou-se o guarda-redes mais novo da história a jogar e ganhar uma final da Liga dos Campeões, quando o Real Madrid de Vicente del Bosque venceu o Valencia.

No Santiago Bernabéu, para além de ter chegado aos mil jogos oficiais e de se ter tornado de forma indiscutível um dos melhores guarda-redes de todos os tempos, conquistou cinco ligas espanholas, três Ligas dos Campeões, duas Taças do Rei, quatro Supertaças, um Mundial de Clubes, duas Supertaças Europeias e duas Taças Intercontinentais. Em 2015, de forma surpreendente, deixou em lágrimas o clube onde cresceu e se tornou homem e rumou a Portugal para assinar pelo FC Porto. Viveu um período complicado, já com Sérgio Conceição e onde acabou por ser preterido no onze face a José Sá, mas recuperou a titularidade e tornou-se um dos elementos mais importantes no balneário dos dragões.

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No primeiro dia de maio de 2019, antes do final da temporada passada, o mundo do desporto ficou em choque com a notícia de que Casillas, aos 38 anos, tinha sofrido um enfarte do miocárdio durante um treino. Assistido rapidamente pelo médico Nélson Puga ainda no relvado, foi depois transportado para o hospital, de onde saiu pelo próprio pé cinco dias depois. Não voltou a jogar — nem depois de nos últimos dias desta época ter surgido um movimento de adeptos que pedia que atuasse um minuto, para ser também campeão nacional — mas esteve sempre perto da equipa, partilhando de cada alegria e cada conquista. Despede-se do Dragão com uma Liga e uma Supertaça, para além do estatuto de um dos nomes mais importantes dos últimos anos no FC Porto.

Depois de ter liderado a geração de ouro da seleção espanhola, ao conquistar os Europeus de 2008 e 2012 e o Mundial de 2010, ensaiou uma candidatura à presidência do organismo, contra o incumbente Luis Rubiales. Desistiu meses depois, por acreditar não ter oportunidade de reunir apoios antes das eleições face aos entraves apresentados pela pandemia. Recebeu um convite de Pinto da Costa para integrar a estrutura do FC Porto mas a família e a a vontade de regressar a Espanha levaram-no a aceitar a outra opção, a de ser assessor pessoal de Florentino Pérez no Real Madrid.