O clima é de alta tensão na cúpula do Banco Montepio. A propósito do plano de corte de pessoal que o Observador avançou a 17 de julho, que foi posteriormente desvalorizado pela comissão executiva nas reuniões com as estruturas, gerou-se um conflito aberto entre Pedro Leitão, o presidente da comissão executiva, e Carlos Tavares, que preside ao conselho de administração do banco. Segundo apurou o Observador, Carlos Tavares enviou um e-mail a Pedro Leitão a fazer críticas duríssimas à conduta recente da comissão executiva, acusando Pedro Leitão de ter enviado o plano de reestruturação ao Banco de Portugal dando ao conselho de administração “menos de uma hora de antecedência” para se poder pronunciar e, além disso, excluindo desse documento as reservas que o conselho de administração fez questão que fossem incluídas.

Num extenso e-mail, enviado à hora de jantar de dia 16 de setembro, com conhecimento de todos os administradores, Carlos Tavares arrasou a conduta de Pedro Leitão pela forma como este processo está a ser conduzido. “Compreendo que há muito trabalho envolvido na produção destes documentos e a pressão dos prazos. Mas isso não pode fazer esquecer o respeito pelas competências e responsabilidades do Conselho de Administração e de cada um dos seus membros”.

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De que se queixava Carlos Tavares? Em primeiro lugar, do facto de “certamente por lapso” o envio ao supervisor (Banco de Portugal) dos documentos relativos ao plano de reestruturação do banco ter sido feito pelos serviços do banco e não pelo gabinete do Conselho de Administração “sem aprovação telemática dos seus termos pelos membros do conselho de administração, conforme havia sido acordado na reunião do conselho de administração no passado dia 10″. Ou seja, menos de uma semana antes, tinha ficado combinado – como também prevê a conduta normal numa situação destas – que o conselho de administração iria dar a sua opinião, através de videoconferência, sobre os planos de corte de pessoal.

Pior: “os termos em que foram transmitidos [estes planos, ao Banco de Portugal] excedem o texto dos documentos apreciados pelo Conselho de Administração e não parecem traduzir o espírito da discussão das várias reuniões do Conselho de Administração sobre o tema”, pode ler-se no e-mail cujo conteúdo o Observador teve acesso. Por outras palavras, Carlos Tavares acusa Pedro Leitão de entregar ao Banco de Portugal planos que não coincidem com o que foi falado no Conselho de Administração.

Carlos Tavares tinha pedido que os seus comentários, e da restante administração, fossem registados em ata em que isso fosse incluído na comunicação ao supervisor – “julgo que na reunião ficou claro o espírito que presidiu à discussão que tivemos e aos cuidados que deveriam rodear a transmissão do conteúdo dos documentos quer ao Banco de Portugal quer à Montepio Geral Associação Mutualista”, a acionista maioritária que controla o Banco Montepio.

Relativamente ao Banco de Portugal, para além do cuidado que deveria merecer a redação final do documento – distribuído ao Conselho de Administração com menos de uma hora de antecedência relativamente ao envio ao supervisor – eu próprio tinha sugerido que fosse acompanhado do extrato da ata relativo à sua discussão, de modo a que fosse plenamente entendido o espírito do documento que vários colegas e eu próprio classificámos como “ponto de partida e não de chegada”.

Ou seja, Carlos Tavares e outros membros do conselho de administração queriam que ficasse claro que, na sua análise, esta redução de custos cujos primeiros contornos foram revelados pelo Observador a 17 de julho, seria uma parte de um plano mais abrangente de reestruturação e rentabilização do banco – e não apenas um corte de custos isolado. O presidente do conselho de administração, Carlos Tavares, atira, de forma mordaz: “Peço sugestão sobre a forma mais eficaz de repor as condições estabelecidas pelo Conselho de Administração relativamente à aprovação e transmissão do documento em apreço”.

Esta quinta-feira à tarde há uma reunião do conselho de administração que poderá ser tensa, tendo em conta o ambiente que se gerou na cúpula do Banco Montepio e que está patente nos termos do e-mail enviado por Carlos Tavares a Pedro Leitão. Uma tensão que já vem da altura em que o Observador noticiou a apresentação que tinha sido feita a uma agência de rating, a DBRS, sobre os planos de redução de custos que o banco estava a preparar.

Pedro Leitão foi escolhido para presidente da comissão executiva no início de 2020, vindo da área digital do Banco Atlântico Europa, banco de capitais angolanos que foi liderado pelo banqueiro Carlos Silva (a atual presidente é Conceição Lucas).

O Observador pediu ao Banco Montepio um comentário oficial sobre esta matéria. Esta notícia será atualizada com esse comentário, caso ele seja prestado.