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França, Paris, Stade de France. Um teste à memória do momento mais alto do futebol português. Este era um jogo especial para todos os portugueses que ainda hoje não esquecem aquele rasgo de inspiração de Eder na final de um Campeonato da Europa que poucos ou nenhuns acreditavam ser possível de ganhar antes do seu início. Mas este era sobretudo um jogo especial para Fernando Santos, que na véspera desta partida celebrou o seu 66.º aniversário e que, faz este domingo exatamente seis anos, se estreou no mesmo palco e contra o mesmo adversário no comando da Seleção após passagens pelos três “grandes” do futebol nacional. Memórias, claro está, não faltavam.

Portugal empata em França sem golos e mantém liderança repartida no grupo 3 da Liga das Nações

“A primeira memória que tenho é de quando me sentei no banco pela primeira vez como selecionador e ouvi o hino como representante de Portugal. A final [do Euro-2016] vai também estar sempre presente na nossa memória. Mas o que vou sentir amanhã [hoje] não tem nada a ver, será um jogo diferente. Queremos fazer um bom jogo e vencer. Vingança? Isso está fora do que é o futebol”, comentou o selecionador nacional numa conferência de imprensa feita ainda à distância, devido às condicionantes provocadas pela pandemia. Aliás, os pontos de contacto com os duelos do passado, fossem eles de 2014 ou 2016, ficaram mesmo por aí. E Fernando Santos teve até a oportunidade de detalhar os vários aspetos que mudaram nos gauleses, que foram campeões mundiais em 2018.

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“A França dos últimos quatro anos não foi igual à França dos últimos três jogos em termos estratégicos. Analisámos tudo isso, dando ênfase ao que temos de fazer: processo defensivo, processo ofensivo, o que fazer quando temos a bola. Se retirarmos o ADN do que Portugal sabe fazer, vamos ter dificuldades. Temos a humildade para reconhecer o valor dos adversários e estudá-los. Sabemos o que temos de fazer quando não tivermos posse e toda a liberdade para criar quando tivermos bola. Temos de estar no topo em todos os momentos de jogo, sendo que uma coisa é ter respeito e outra é subserviência. Não será fácil para as duas equipas”, destacou.

Nos jogadores e na forma de jogar, a França mudou. Ou melhor, ainda está a mudar. Nos jogadores e na forma de jogar, Portugal está mudado. A dois níveis. Por um lado, e ao contrário do que acontecia em 2014, é hoje muito complicado vencer a Seleção. Pode nem sempre ganhar, às vezes também perde, mas tem uma competitividade e uma abordagem ao jogo que faz com que as derrotas de Fernando Santos em encontros oficiais se contem pelos dedos de uma mão. Por outro lado, e ao contrário do que acontecia em 2016, as novas opções que chegaram ao conjunto principal deram nova capacidade técnica e tática para abordar os compromissos, sobretudo por haver mais soluções ofensivas pelos corredores laterais em contraponto com as muitas soluções de corredor central que existiam há quatro anos. E também isso teria o seu peso na equipa inicial e nas mexidas ao longo do jogo.

Ficha de jogo

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França-Portugal, 0-0

3.ª jornada do grupo 3 da liga A da Liga das Nações

Stade de France, em Paris

Árbitro: Carlos del Cerro Grande (Espanha)

França: Lloris; Pavard, Varane, Kimpembé, Hernandez; Kanté, Rabiot, Pogba; Griezmann, Mbappé (Coman, 84′) e Giroud (Martial, 74′)

Suplentes não utilizados: Mandanda, Maignan, Lenglet, Digne, Upamecano, Mendy, Tolisso, Camavinga, Nzonzi e Ben Yedder

Selecionador: Didier Deschamps

Portugal: Rui Patrício, Nélson Semedo, Pepe, Rúben Dias, Raphael Guerreiro (João Cancelo, 89′); Danilo, William Carvalho (João Moutinho, 88′), Bruno Fernandes (Renato Sanches, 80′); Bernardo Silva (Diogo Jota, 61′), João Félix (Trincão, 89′) e Cristiano Ronaldo

Suplentes não utilizados: Bruno Varela, Rui Silva, Rúben Semedo, Sérgio Oliveira, Rúben Neves, André Silva e Podence

Selecionador: Fernando Santos

Ação disciplinar: cartão amarelo a Rúben Dias (2′)

Tendo elementos como Francisco Trincão, Diogo Jota, Daniel Podence ou André Silva no banco, alternativas que estão a surgir nos últimos tempos na Seleção, Fernando Santos optou pelos jogadores que fazem habitualmente parte das suas opções mas com uma estratégia em termos táticos que permitiu uma entrada sólida no jogo (apesar do cartão amarelo logo no segundo minuto a Rúben Dias que condicionou de imediato o central): Danilo ficou como médio mais posicional à frente da defesa e William Carvalho ocupou os espaços de médio interior do lado onde estava Cristiano Ronaldo, ficando Bruno Fernandes como interior oposto tendo João Félix ou Bernardo Silva a começar na ala mas a fazer movimentos diagonais. Nos 15 minutos iniciais não houve qualquer remate à baliza mas Portugal conseguiu duas boas aproximações, com um cruzamento de Semedo para defesa de Lloris e um grande passe de Bruno Fernandes que Bernardo Silva não conseguiu receber na área.

O intervalo chegaria sem golos e com um único remate enquadrado com a baliza de Griezmann, quase sem ângulo na área para defesa de Rui Patrício (32′). Do lado de Portugal, houve um corte providencial de Lucas Hernández quando Ronaldo se preparava para alvejar a baliza na área, um remate de Nelson Semedo às malhas laterais e um desvio de João Félix num livre lateral ao primeiro poste que se tivesse passado para Danilo ou Ronaldo poderia ter um melhor fim. No entanto, com mais posse e uma melhor eficácia de passe, Portugal conseguiu controlar o jogo ao longo de quase todo o primeiro tempo, secando por completo  a zona de construção gaulesa mas também retirando profundidade para Mbappé poder desequilibrar em velocidade. Mais do que isso, a ideia que ficou foi que França tem hoje um respeito muito maior a jogar frente à Seleção. E se é certo que o golo de Eder foi o mais importante de sempre pelo troféu que deu, esse respeito foi o outro título ganho a partir de 2016.

A segunda parte começou com uma conversa bem disposta de Ronaldo e Mbappé (que quando era mais novo tinha posters do português no seu quarto) e foram os dois avançados que tiveram as primeiras oportunidades logo a abrir: primeiro o jogador do PSG teve uma arrancada explosiva na área descaído na esquerda mas não conseguiu enganar Rui Patrício que saiu para fazer a “mancha” (47′), apenas dois minutos depois foi o capitão da Seleção a desviar mal um cruzamento largo de Raphael Guerreiro para o segundo poste. No entanto, fosse pela colocação de Griezmann mais encostado aos médios para receber a bola com mais espaço, fosse pelo adiantamento da pressão logo na saída de Portugal, a França entrou melhor e não só impediu os visitantes de levarem a bola até ao último terço como começaram a ter aproximações de maior perigo à baliza nacional (ainda que sem chances).

Fernando Santos trocou Diogo Jota por Bernardo Silva tentando dar outra profundidade e velocidade ao ataque que pudesse também disfarçar alguma quebra física de Danilo e sobretudo William mas foi preciso esperar pelos 70 minutos para que um remate à figura de João Félix (71′) e um golo anulado a Pepe num livre lateral (74′) voltasse a colocar em sentido a formação gaulesa. Também aqui ficou provado como hoje a Seleção, que voltou a ter em Pepe e Rui Patrício dois dos melhores, é encarada de forma distinta: quando se pensava que a França poderia abdicar de um médio (Rabiot ou Pogba) para lançar mais um avançado e tentar ganhar o jogo, só houve trocas por trocas; quando se pensava que Portugal podia abdicar de um dos elementos da frente para reforçar o meio-campo, só houve trocas por trocas. E foi essa “audácia” que quase deu a vitória no final, com Renato Sanches a rematar forte de fora da área para defesa de Lloris (90′) antes de Ronaldo ter a única oportunidade do encontro para nova intervenção do guarda-redes francês numa jogada iniciada e “inventada” por Trincão (90+1′).