Um, bom. Dois, excelente. Três, em grande. A Volta a Itália entrava no último dia da primeira semana, a camisola rosa de João Almeida estava em risco na chegada a subir a Roccaraso mas não só o corredor da Deceuninck Quick-Step aguentou a liderança como foi o outro português em prova, Rúben Guerreiro (EF Pro Cycling), a ganhar a etapa e a camisola azul da montanha. Sete, muito bom. Oito, mesmo excelente. Nove, majestoso. A Volta a Itália já estava na segunda semana, João Almeida aproveitava todas as janelas de oportunidade para ganhar aqui e ali mais uns segundos e foram essas portas que lhe garantiram a entrada pela porta do primeiro lugar na última semana, depois de uma chegada a Piancavallo contra tudo e contra todos onde segurou no limite a camisola rosa.

João Almeida segura camisola rosa e mantém as distâncias, Rúben Guerreiro recupera a camisola azul

O impossível tornou-se improvável, o improvável tornou-se possível, o possível tornou-se real. Depois do segundo e último dia de descanso na passada segunda-feira, o corredor de A-dos-Francos ainda foi buscar mais dois segundos na chegada a San Daniele del Friuli num sprint à frente do grupo que juntava os principais candidatos quase 13 minutos após o vencedor, Jan Tratnik, e aguentou da melhor forma a subida a Madonna di Campiglio numa etapa onde a Deceuninck Quick-Step teve o grande desempenho até ao momento em termos coletivos, marcando o ritmo da etapa até à subida escudando o português antes de responder da melhor forma aos ataques das outras equipas, nomeadamente da Team Sunweb. E era também por aí que passaria a decisão do dia D da Volta a Itália, a etapa rainha da prova com chegada a Passo dello Stelvio. Sair com a rosa daqui tornava o sonho mais do que real. Muito real. Possível, mesmo havendo outra vez montanha mais dura no sábado. E voltou-se ao impossível.

“Na verdade gosto dessa subida. Sei que posso ficar para trás aí mas gosto dela. Creio que é uma excelente subida. No final de contas espero apenas que o mais forte ganhe”, frisou o português, que contava com Fausto Masnada na frente dos gregários para ajudarem no mais difícil teste (e já foram muitos até ao momento) no Giro. “Estamos mais do que satisfeitos. Estamos na frente da corrida, por isso temos de correr de uma forma defensiva. Não faz sentido atacar. Temos de controlar as coisas e foi isso mesmo que fizemos”, assumiu o italiano, que partia para a 18.ª etapa na décima posição a 4.26 minutos de João Almeida. O corredor contava com o apoio da Deceuninck Quick-Step na estrada e dos pais fora dela, na parte mais alta, de gorro e luvas para combater o frio que mesmo assim não desfez a ideia de pintarem no chão o nome do filho. Hoje, era mesmo impossível.

O dia começou da melhor forma para os portugueses, neste caso Rúben Guerreiro. Ainda antes da partida, o líder da camisola azul da montanha ficou a saber que o italiano Giovanni Visconti, segundo classificado e grande rival neste prémio, tinha abandonado a corrida devido a recorrentes problemas físicos. “Tem sofrido há vários dias de uma tendinite patelar, que foi tratada depois da etapa de ontem [quarta-feira], mas esta manhã voltou a ter dores, até a descer as escadas, fazendo-nos decidir pelo abandono”, explicou a equipa. Mais tarde, o português, que passou a ter Thomas de Gendt, Ben O’Connor e Rohan Dennis como principais rivais, conseguiu ser o mais forte no Campo Carlo Magno. Fabio Felline, Stéphane Rosseto, Daniel Navarro, Thomas de Gendt, Dario Cataldo, Filippo Ganna, Alessandro Tonelli, Héctor Carretero, Ben O’Connor e Ben Swift seguiram depois no grupo de fugitivos mas o corredor da EF Pro Cycling conseguiu chegar e ser segundo em Passo Castrin, atrás de De Gendt.

Depois, chegou o Stelvio. E o cabo das Tormentas para todos os ciclistas, sendo que o grupo fugitivo foi apanhado, Rúben Guerreiro ainda deu uma “ajuda” a João Almeida quando percebeu que o português passava pelas primeiras dificuldades na subida mas o esforço da Team Sunweb, entre os ataques da Ineos, acabou por causar a sua mossa a 50 quilómetros na meta, quando os grupos começaram a ceder. João Almeida ficou a um minuto e meio, Pozzovivo já tinha cedido, Vincenzo Nibali também caiu a pique, Fuglsang perdeu o comboio e eram as duas equipas que mais conseguiram marcar o ritmo a dividir entre si os holofotes numa história que estava longe de acabar.

Com Ben O’Connor na frente a arriscar um dia de glória, Wilco Kelderman também quebrou, Jai Hindley seguiu sem esperar pelo companheiro de equipa como tinha acontecido na chegada a Piancavallo e lutava com Tao Geoghegan Hart, que tinha a ajuda de um super Rohan Dennis. A 40 quilómetros do final, e quando a pior parte do Stelvio já estava quase a passar, Masnada já não conseguia acompanhar João Almeida, que estava a 2.45 minutos do trio da frente, tendo pelo meio Kelderman, a 40 segundos dos primeiros, e o grupo de Pello Bilbao, a 1.24. Aliás, foi nessa fase que o português mais quebrou, passando pela zona onde estavam os seus pais, no alto do Stelvio, a 3.45 minutos. “Peço desculpa mas agora vou ter de gritar”, dizia a mãe do corredor em direto no Eurosport enquanto o português passava, a lutar com as forças que já não tinha contra um impossível desconhecido.

João Almeida chegou à Volta a Itália formatado para ser apenas mais um, numa equipa talhada para ser apenas mais uma. No entanto, e com o passar dos dias, tornou-se tudo menos mais um. Aliás, foi o um, número um ao longo de 15 dias que colocaram Portugal pintado de rosa numa onde que começou mais local, em A-dos-Francos, e rapidamente se tornou transversal, como se viu no Parlamento esta quinta-feira com vários deputados com t-shirts e máscaras rosas em homenagem ao corredor nacional. Agora, saiu do pódio mas tem ainda a possibilidade de reentrar se aguentar a montanha de sábado e fizer um contrarrelógio ao seu nível no domingo. Quanto à Volta a Itália, será discutida entre Tao Geoghegan Hart e Jai Hindley, sendo que Kelderman ficou sozinho a fazer vários quilómetros sem qualquer apoio e a manifestar à equipa o seu desagrado pelo que aconteceu.

Até aqui, João Almeida superou o registo de dois dias com a rosa no Giro de Acácio da Silva em 1989, bateu os cinco dias de Joaquim Agostinho na liderança da Vuelta e ultrapassou ainda os seis dias de liderança numa Grande Volta de Acácio da Silva entre Tour e Giro. Foi, é e continuará a ser gigante. Mas esta edição da Volta a Itália tem tudo para não mais ser esquecida no ciclismo nacional, tendo em conta as grandes hipóteses de Rúben Guerreiro segurar a camisola da montanha e tornar-se o primeiro português de sempre a ganhar uma classificação final de uma Grande Volta. Depois de duas semanas de sonhos cor de rosa, o futuro será ouro sobre azul. Desta etapa, Hindley conseguiu a vitória, ficou à frente de Geoghegan Hart por três segundos e Kelderman ficou com a rosa mas ficando apenas com 12 segundos à frente na liderança. Pello Bilbao subiu a quarto da geral, João Almeida desceu a quinto da geral, depois de terminar a etapa no sétimo lugar ao lado de Vincenzo Nibali.

Contas feitas, Kelderman ficou com a camisola rosa da liderança, Hindley está a 12 segundos e Geoghegan Hart a 15 segundos, abrindo-se depois um fosso para Pello Bilbao (1.19), João Almeida (2.16), Jakob Fuglsang (3.59), Patrick Konrad (5.40) e Vincenzo Nibali (5.47). Em condições normais, a luta pelo pódio estaria arrumada. No entanto, há vários fatores em jogo este sábado na montanha: 1) como vai a Team Sunweb gerir a situação de Kelderman e Hindley, ainda para mais percebendo-se a visível irritação do holandês com a estratégia da equipa; 2) como vai aguentar Rohan Dennis nova subida depois da grande etapa desta quinta-feira ou se há mais algum corredor da Ineos capaz de escudar Geoghegan Hart para o topo; 3) quem vai marcar o ritmo da etapa, numa disputa a dois (Team Sunweb e Ineos) que pode abrir margem para as restantes equipas. Esta é a esperança do português para a penúltima etapa do Giro, sabendo que, no contrarrelógio de domingo, pode ganhar tempo a todos.