“O Benfica é sempre uma motivação extra para qualquer equipa. A história do Benfica e o seu passado, mais concretamente nesta competição, assim o diz. Não queremos passar por esta Liga Europa, queremos chegar ao fim desta Liga Europa. E chegar ao fim é poder estar na final de Gdansk. É esse o objetivo mas um jogo de cada vez. Primeiro temos de passar a fase de grupos. Queremos ser uma das duas equipas apuradas no grupo e temos de começar bem, com uma vitória. Favorito? Reconhecer esse favoritismo é sinal da valorização do Benfica mas isso não impede nem diz que o Benfica antes de jogar tem mais capacidades que o adversário. São duas coisas distintas. Uma coisa é o jogo, outra é a história dos clubes, e por isso o Benfica tem de ser favorito”, destacou Jorge Jesus, antes de voltar a tocar na parte da ambição europeia olhando para uma Champions no futuro.

Benfica começa Liga Europa a ganhar na Polónia com hat-trick de Darwin (4-2)

“Tínhamos objetivos mas esses são conquistados com a noção e tempo das coisas. Também quero ser campeão europeu, mas de conversa não chega. O que é importante, fundamental mesmo, é mostrar o que sabemos dentro do campo. Agora estamos na Liga Europa, é isso o que interessa. Precisamos ter ambições nesta prova e elas passam por vencer, passar o grupo e tentar ir o mais longe possível. Já chegámos mais do que uma vez à final nesta prova mas neste momento a Liga Europa é mais dividida do que há uns anos. Aparecem as equipas de Champions, como o Benfica, uma equipa de Champions que está na Liga Europa. Temos de enfrentar a realidade”, referiu, abordando ainda a eliminação na Liga milionária e os objetivos encarnados para esta competição.

Apesar da penalizadora derrota frente ao PAOK na terceira pré-eliminatória da Liga dos Campeões, Jorge Jesus, o treinador com mais jogos na Liga Europa pelo Benfica, começava a fase de grupos de peito cheio, confiante nas possibilidades da equipa e com um discurso que se não fosse o contexto e o fato de treino poderia ser atribuído a qualquer candidato à presidência dos encarnados. Tem razões para isso. Pelo menos as suficientes para arriscar esse estado de espírito. Mas existe uma diferença entre aquilo que o treinador projeta e aquilo que já existe, no bom e no mau. E foi essa fronteira que escreveu a complicada vitória na Polónia por 4-2.

Por um lado, Darwin Núñez é cada vez mais o destaque da equipa. Se até esta noite era o jogador que tinha mais assistências, agora fez um hat-trick de classe – e com a curiosidade de ter marcado mais golos de cabeça apenas em 90 minutos do que no resto da carreira como sénior, nomeadamente no Almería na derradeira época (um). Por outro, a linha defensiva é cada vez mais o destaque da equipa mas pela negativa. Dos espaços nas costas dos laterais (em especial Grimaldo) aos posicionamentos centrais que algumas vezes não acertavam a linha de fora de jogo, o Lech Poznan expôs de forma bem visível a parte do projeto futebolístico de Jesus que está mais atrasado na sua construção. E com mais um apontamento que se tornou um dos tópicos mais comentados: com Gabriel em campo (e muitas vezes a segurar as pontas soltas nas transições, como aconteceu sobretudo na primeira parte a ajudar Grimaldo), com Vertonghen em campo, com Vlachodimos em campo, Otamendi foi o escolhido para ficar com a braçadeira após a saída de Pizzi. Uma opção surpreendente mas que mostra a confiança do técnico.

Além da esperada troca de André Almeida por Gilberto, Jorge Jesus optou por colocar Taarabt na posição ‘8’ e Pizzi mais na direita como falso ala prescindindo de Rafa. A equipa perdia vertigem na frente para ganhar outro peso no corredor central, mantendo ainda assim as mesmas zonas de pressão alta que já se tinham visto com o Rio Ave (e antes, acrescente-se). Depois de uma entrada forte, a começar logo num pontapé de saída que em vez de colocar a bola para trás em circulação ou arriscar um pontapé longo teve o condão de colocar a equipa a jogar com bola no pé para a frente, o Lech Poznan ainda tentou duas saídas que poderiam ter criado perigo até chegarem ao último terço antes do golo inaugural no encontro, com Pizzi a beneficiar de uma mão de Dejewski na área para fazer o 1-0 de grande penalidade num lance com direito a dedicatória especial para o lesionado André Almeida (8′).

À semelhança do que aconteceu com Famalicão ou Rio Ave, os encarnados conseguiam marcar cedo na condição de visitante, o que poderia colocar o encontro ainda mais a jeito das características desta equipa de Jesus versão 2.0. No entanto, e ao contrário do que aconteceu com Famalicão ou Rio Ave, o Lech Poznan conseguiu explorar da melhor forma aquela que é ainda hoje a maior debilidade dos encarnados nesta fase da época: as costas de uma defesa que joga muito subida, que prefere recuperar no meio-campo adversário em vez de descer para montar a organização defensiva mas que fica também exposta à profundidade. E foi assim que os polacos chegaram mesmo ao empate, com Czerwinski a ganhar em velocidade no corredor de Grimaldo para assistir Ishak (15′).

Voltava tudo à estaca zero mas com uma diferença nos estados emocionais dos dois conjuntos que se notou nos minutos seguintes, com o Lech Poznan a aproveitar o balanceamento ofensivo pelos corredores laterais para levar a bola à área em situações de potencial perigo sem remate, a que se juntou uma bola na trave de Moder na sequência de um canto batido por Ramírez onde Grimaldo voltou a não ficar bem na fotografia. Jesus procura estabilizar de novo a equipa e bastou a colocação de Gabriel mais descaído na esquerda sem bola para os polacos deixarem de ter tantas opções de saída e abrandarem o ritmo de parada e resposta que se instalara. O jogo equilibrou, o Benfica melhorou de forma automática. E conseguiria mesmo chegar à vantagem antes do intervalo, com Gilberto a ter mais um bom cruzamento da direita para cabeceamento certeiro no terceiro andar de Darwin Núñez (42′).

Jesus trocou Pizzi por Rafa ao intervalo mas a bipolaridade do futebol encarnado continuava e não foram sequer necessários cinco minutos para se ver isso mesmo: com grande facilidade desde que jogando com velocidade e em apoio, o Benfica criou mais uma oportunidade flagrante com Darwin Núñez a não evitar a defesa de Bednarek e, na recarga, Waldschmidt a encontrar Crnomarkovic perto da linha para limpar o perigo; com grande facilidade desde que jogando nas costas dos laterais em profundidade, o Lech Poznan criou mais uma oportunidade flagrante com Kaminski a aparecer na área descaído na esquerda para rematar rasteiro, Vlachodimos a defender para a frente e Ishak, avançado sueco filho de sírios, a encostar para novo empate (48′). Diferença? Ao contrário do que se passou na primeira parte, a resposta não demorou porque os encarnados estabilizaram de imediato e apareceu o génio de Darwin Núñez, a inventar um lance na área antes de rematar rasteiro para o 3-2 (60′).

Logo a seguir ao golo, Weigl e Pedrinho entraram para os lugares de Taarabt e Waldschmidt (mais tarde Grimaldo daria também lugar a Nuno Tavares) mas a ideia de Jorge Jesus em controlar o resultado nunca chegou a passar à prática: Gabriel até cumpriu melhor jogando mais recuado do que como ‘8’, Pedrinho pouco ou nada acrescentou na capacidade de aumentar a qualidade da posse e o encontro andou entre o possível empate que Vlachodimos evitou por mais do que uma vez e o golo decisivo que Everton teve nos pés por duas ocasiões. Já nos descontos, na sequência de uma grande jogada de Rafa, apareceu de novo Darwin Núñez para fechar as contas (90+3′) de cabeça ao segundo poste. O Benfica ganhou mas a ambição europeia andou demasiado dependente de um único jogador, que disfarçou com um hat-trick as carências de uma linha defensiva que teve o jogo menos conseguido.