Houve um fenómeno transversal de aplaudir entre otimistas, esperançosos, cautelosos e pessimistas depois da etapa rainha da Volta a Itália com passagem pelo mítico Stelvio: todos perceberam que a descida de João Almeida ao quinto lugar da classificação geral foi apenas a concretização do cenário mais provável de alguém que fazia a sua estreia no World Tour e em corridas de três semanas e que o “improvável” era mesmo que isso não acontecesse. E essa foi, aliás, a grande nota que se retirou depois da 18.ª etapa – o reconhecimento da própria equipa, de outros corredores e dos adeptos de ciclismo pela prestação de sonho que o jovem de A-dos-Francos conseguiu na prova, tornando-se o primeiro abaixo dos 23 anos a ter a camisola rosa durante 15 dias consecutivos. No entanto, como em tudo, há sempre aquela pontinha de esperança. E até as alterações na penúltima etapa ajudavam.

Rúben já ganhou a azul, Welderman mantém a rosa mas a camisola do dia (do caos) foi para João Almeida: a do respeito

Com o percurso a riscar a passagem por França pelo atual contexto da situação pandémica no país, a 20.ª tirada passaria a ter uma tripla subida a Sestriere em vez de uma única passagem, sendo que uma era por Pragelato e as duas outras por Cesena. Ou seja, um grau de dificuldade grande mas menor, o que poderia beneficiar a participação de João Almeida já sem a pressão também de defender a camisola desejada por todos. A isso juntava-se ainda uma grande incógnita centrada na tática a utilizar pela Team Sunweb, com Kelderman e Jai Hindley separados por 12 segundos na liderança com a sombra de Tao Geoghegan Hart a 15 segundos, com essa certeza de que a Ineos teria de atacar. E também outros pontos, como o papel de Pello Bilbao depois da grande etapa na quinta-feira (1.19) e as possibilidades de Fuglsang procurar ainda um outro lugar (3.59). João Almeida, a 2.16, estava aqui no meio.

As apostas entre os especialistas dividiam-se: o corredor da Deceuninck Quick-Step tinha condições para arriscar fazer um brilharete, até pela forma como reagiu antes nas etapas de montanha menos agressivas, mas ao mesmo tempo poderia não contar com o mesmo apoio da equipa e havia sempre uma posição na geral em jogo que, sem arriscar, permitira garantir o avanço em relação a Fuglsang antes do contrarrelógio de 15,7 quilómetros a fechar. Só isto, por si, era uma vitória: aos 22 anos, o português entrava na zona das decisões não como “escudeiro” mas sim como opção válida na luta pelos lugares cimeiros. Mas esse era apenas um dos pontos a ter em conta, na medida em que, com a camisola azul virtualmente ganha, Rúben Guerreiro iria também testar as suas capacidades numa etapa de montanha a seu gosto sem colocar em causa a possibilidade de ter algum imprevisto.

O início da etapa, ainda muito marcada pelo que se passara na véspera e com o diretor da corrida a dizer ainda que alguém vai ter de pagar na chegada a Milão aquele protesto que reduziu para metade a 19.ª tirada, teve talvez como maior surpresa o bom tempo e o sol, a que se juntou a habitual fuga de vários corredores que, quando ficou mesmo consolidada, juntava 21 nomes de quase todas as equipas. Por lá andava Arnaud Démare, que aproveitou o sprint intermédio para somar mais 12 pontos e consolidar a classificação dos pontos à frente de Ballerini e Vendrame. Geoffrey Bouchard, Jan Tratnik, Filippo Fiorelli, Kamil Malecki, Elia Viviani, Mikkel Honoré, Pieter Serry, Tanel Kangert, Simon Guglielmi, Davide Cimolai, Matthew Holmes, Einer Rubio, Davide Villella, Amanuel Gebreigzabhier, Matteo Sobrero, Julien Bernard, Nicola Conci e Brandon McNulty também lá estavam.

Só a partir dos últimos 40 quilómetros a etapa teve jogo a sério em termos táticos, com Tao Geoghegan Hart e a sua Ineos a quererem agarrar no ritmo do pelotão (que na primeira passagem por Sestriere ficou mais curto) e Davide Ballerini, companheiro de equipa de João Almeida, a arriscar a fuga na frente para tentar aproveitar uma fase em que a equipa britânica e a Team Sunweb estariam a estudar-se antes das subidas mais complicadas. A receita resultou até dez quilómetros do final, altura em que foi alcançado Jai Hindley e Tao Geoghegan Hart, que partiram o que restava do pelotão tendo Rohan Dennis mais uma vez a puxar e com Kelderman sem hipóteses de defender a rosa num grupo mais atrás onde se fixou João Almeida e também Pello Bilbao, o que pelo menos garantia que o português iria terminar o dia no quinto lugar da classificação e podendo ganhar tempo no domingo.

João Almeida fica no 4.º lugar em Sestriere, Tao vence etapa e Hindley fica de rosa

Hindley ainda atacou duas vezes Tao Geoghegan Hart na subida mas o britânico aguentou com a ajuda de Rohan Dennis no primeiro (e o companheiro da Ineos tem um papel decisivo neste Giro), sendo que cá atrás foi João Almeida a dar mais um autêntico festival e a descolar de Kelderman e Pello Bilbao para tentar garantir um terceiro ou quarto lugar na etapa (Dennis não quebrou, ficando em quarto) que lhe permitisse ainda subir ao quarto da geral no contrarrelógio. E esta foi a grande prova de algo que há muito se começava a notar: vários anos depois, Portugal voltou a ter um corredor para provas de três semanas, tendo ainda 22 anos. E a história ainda não acabou, tendo em conta que João Almeida está agora a 23 segundos de Pello Bilbao na luta pelo quarto lugar da classificação geral, que será decidida entre Hindley e Tao Geoghegan Hart que partem com o mesmo tempo, já com 1.32 minutos de avanço de Kelderman, mais uma vez o grande derrotado do dia.

E se João Almeida foi brilhante, Rúben Guerreiro não ficou em nada atrás: o vencedor virtual da camisola azul da montanha, que tinha apenas de gerir o seu ritmo tendo em conta o objetivo de se tornar o primeiro português de sempre a conquistar uma camisola numa grande Volta, terminou a etapa no 13.º lugar a 2.09, chegando logo atrás de Vincenzo Nibali, a par de Pozzovivo e na frente de Patrick Konrad e Jakob Fuglsang. Para já, fica o registo de gala de João Almeida: além de ter superado os recordes de Acácio da Silva e Joaquim Agostinho em grandes Voltas, e de ter sido o primeiro corredor com menos de 23 anos a ter 15 dias consecutivos a camisola rosa, o corredor de A-dos-Francos terminou dez das 20 etapas no top 10, sendo que foi ao pódio em Palermo, em Camigliatello Silano, em Tortoreto e em Monselice. Amanhã, em Milão, é mais um dia para brilhar.