Milhares de pessoas, uma estrada de acesso. Os problemas deste sábado no Autódromo Internacional do Algarve começaram logo pelas primeiras horas da manhã. Com qualificação marcada para as 14h, a verdade é que a grande maioria dos espectadores com bilhete comprado para este sábado quiseram chegar ao circuito mais cedo, não só para aproveitar a experiência por completo mas também para ainda assistir à terceira sessão de treinos livres, da parte da manhã. Os que não madrugaram, porém, dificilmente chegaram a tempo de ver Valtteri Bottas ser o mais rápido das derradeiras voltas de treinos e já só viram Lewis Hamilton conquistar a 97.ª pole position da carreira.

Isto porque o acesso ao Autódromo, em Portimão, faz-se através de uma única estrada. Uma estrada que está cortada e limitada pela GNR, é certo, mas que é insuficiente para os milhares de pessoas que este sábado já se deslocaram ao circuito. Sem acesso diferenciados – entre espectadores, comunicação social e convidados –, carros pessoais misturaram-se com autocarros e shuttles, originando filas de trânsito que chegaram às duas horas de demora e que, a dada altura, estavam simplesmente paradas durante largos minutos. A forma como a situação se resolveu, aliás, foi ainda mais o espelho de um certo nervosismo que ainda se fazia sentir este sábado no que toca à organização do evento.

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De um momento para o outro, sem que nada o explicasse, a fila de trânsito começou a andar. “A GNR começou a deixar passar”, ouviu-se na comitiva onde viajava o Observador. Na verdade, já esta sexta-feira era notório que as autoridades estavam algo distantes da organização, pelo menos de um ponto de vista organizacional, já que as decisões tomadas no que toca ao encerramento de acessos, ao corte de estradas e à limitação ou não de veículos pareciam um pouco ambíguas. Este sábado não foi exceção e, de um segundo para o outro, uma fila de centenas de carros que se prolongava por quilómetros há mais de uma hora começou a andar a um ritmo elevado.

Nesta estrada de acesso, originalmente com duas faixas, só uma está em utilização. À partida, esta decisão interpreta-se com o facto de impedir que a berma da estrada sirva como estacionamento para os milhares de espectadores que este fim de semana vão visitar o Autódromo. O problema, porém, é que o parque de estacionamento do circuito fica a largos minutos a pé da entrada do Autódromo – o que, num dia em que muita gente chegou já atrasada devido ao trânsito, não é favorável.

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Ultrapassada a enchente nos acessos, os problemas apareceram na pista. A terceira sessão de treinos foi interrompida de forma prematura devido a uma tampa de escoamento que se soltou na curva 14 depois da passagem de um carro. As reparações demoraram mais do que o previsto e a qualificação, inicialmente marcada para as 14h, só começou meia hora depois disso. Às 14h30, os carros de Fórmula 1 voltaram à pista algarvia, Lewis Hamilton fez o melhor tempo já na última volta, Bottas e Verstappen completaram o pódio e o piloto inglês ainda ouviu palmas das bancadas antes de referir que este é “um dos circuitos mais desafiantes” onde já competiu. Assim que Hamilton cruzou a linha da meta pela última vez e foi confirmado que a pole position estava entregue, centenas de espectadores abandonaram desde logo as bancadas do Autódromo – com receio, certamente, de novas filas à saída. Um receio que acabou por confirmar-se: mas o terceiro problema deste sábado também já tinha aparecido.

As imagens televisivas captadas nas bancadas do circuito tornaram-se virais e depressa foram motivo de notícias. No Autódromo, o distanciamento parecia escasso e as regras de segurança sanitária mostravam-se quase ignoradas. Ao que o Observador conseguiu testemunhar, faltou principalmente uma coisa, neste sábado, no Algarve: a já habitual cadeira de separação entre cada pessoa. Atualmente, no teatro, no cinema ou em qualquer outro espetáculo, todas as pessoas estão separadas por uma cadeira, mesmo se estiverem juntas naquele local. Ora, no Autódromo, faltou a vigilância a esse pormenor e grupos de pessoas estavam totalmente juntos, em cadeiras contíguas, sem qualquer tipo de distância entre si. A formação de grupos em filas consecutivas motivou ajuntamentos que já não são usuais nesta altura e que chegam até a provocar estranheza – já que estavam sempre vários seguranças e elementos da organização do evento em todas as bancadas, sem que o problema fosse solucionado.

A este tópico acrescenta-se o facto de, a espaços, ser possível ver pessoas sem máscara, com a máscara no queixo, com a máscara abaixo do nariz. Mais uma vez, pecou a vigilância. Algo que Paulo Pinheiro, administrador ao Autódromo, garante que não vai faltar este domingo. “O Autódromo tem 11 bancadas e em nove correu tudo bem e nas outras duas mal. Quem não cumprir o que está assinalado nas bancadas e sair do seu lugar vai imediatamente para a rua”, explicou ao Jornal de Notícias, acrescentando que estes problemas aconteceram principalmente nas bancadas “Portimão” e “Portimão 2”, que estão quase lado a lado.

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Este domingo, com a corrida marcada para as 13h10 e os olhos do mundo do desporto motorizado colocados no Algarve, será praticamente impossível cometer erros. O Autódromo, assim como Portugal, pode entrar diretamente para a história da Fórmula 1 se Lewis Hamilton ganhar o Grande Prémio, tornando-se assim o piloto com mais vitórias na modalidade. A ideia, claro, é que todas as notícias sejam sobre Hamilton – e não sobre o circuito em si.

O Observador viajou a convite da Mission Winnow, uma iniciativa da Philip Morris International e principal parceiro a Scuderia Ferrari