Primeiro dia, duas sessões de treinos, duas bandeiras vermelhas. O dia inicial do regresso da Fórmula 1 a Portugal, 24 anos depois, foi acidentado e imprevisível. Começou com o incêndio no carro de Pierre Gasly, teve a colisão entre Stroll e Verstappen, acabou com Bottas a ser o mais rápido e os Ferrari e os McLaren à frente de Lewis Hamilton. Ainda sim, foram só treinos — o desenho final da grelha de partida só ficava definido este sábado.

Um sábado onde já se sentia a enchente de 27.500 espectadores que este fim de semana vão levar cor às bancadas ao Autódromo Internacional do Algarve. Em Portimão, Bottas voltou a terminar a última sessão de treinos em primeiro mas Hamilton, numa prestação muito acima da dia anterior, ficou a escassos 26 centésimos do colega de equipa. Logo a seguir, aparecia Verstappen, seguido de Gasly e Alexander Albon. E Hamilton, o campeão mundial, garantia que conduzir no Algarve não era como conduzir em qualquer outro lado.

“É um circuito difícil, extremamente desafiador. As ondulações são incríveis, há pontos em que simplesmente não vemos para onde estamos a ir. Na saída da curva 8, por exemplo, ficamos a encarar o céu por muito tempo sem a menor ideia do que há por trás da subida. Também na curva 11, vamos aproximando-nos sem ter muita certeza de onde é que estamos na pista e depois, do nada, chegamos à curva. É muito desafiador. E a superfície é macia, então vemos muita gente a errar, a derrapar e a rodar. Não foi um dia fácil”, disse o piloto da Mercedes depois das primeiras sessões de treinos.

Mas se a sexta-feira foi inesperada, o sábado não ficou nada atrás. A terceira sessão de treinos livres acabou interrompida devido a uma tampa de escoamento que se soltou na curva 14, depois da passagem de um dos Ferrari, e a qualificação, originalmente marcada para as 14h, teve de ser atrasada meia-hora para a reparação da pista. Ultrapassado o problema, que acabou por ser um azar neste regresso da Fórmula 1 a Portugal, a ronda de apuramento para a grelha de partida deste domingo arrancou.

Perante os já milhares de espectadores espalhados pelas diferentes bancadas do Autódromo, Lewis Hamilton superou Valtteri Bottas numa primeira sessão de qualificação em que Gasly foi a surpresa, continuando a manter um ótimo ritmo que o colocava no pódio da grelha. Nas bancadas, pelo menos pelo que se pode medir pelo barulho, os adeptos portugueses continuam a ter uma especial predileção pelos Ferrari, criando-se mais burburinho sempre que Leclerc ou Vettel passavam.

Na segunda ronda, Bottas recuperou o tempo mais rápido, seguido de Hamilton e Verstappen, e Gasly caiu para sétimo. Vettel não fez mais do que o 15.º melhor tempo e ficou desde logo de fora das voltas seguintes, enquanto que Leclerc foi o oitavo piloto mais veloz. Nesta altura, o vento forte que se fazia sentir em Portimão ia sendo o protagonista da qualificação, tornando a pista consideravelmente mais lenta em certos pontos e elevando o nível de dificuldade em várias curvas.

Na terceira e última ronda, a ideia de que este Grande Prémio de Portugal tem tudo para ser um dos mais extraordinários da temporada ficou confirmada. Bottas começou na liderança, Hamilton fez o melhor tempo do fim de semana até então, o finlandês respondeu também abaixo do minuto e 17 segundos e Verstappen ainda se intrometeu na disputa na última volta que completou. No fim, o último esforço de Hamilton foi suficiente para ser o mais rápido de uma qualificação entusiasmante e imprevisível: o piloto inglês ficou com a pole-position na conclusão de uma performance acima da média, Bottas vai sair de segundo, Verstappen completa o pódio da grelha de partida. Destaque ainda para Leclerc, que fez o quarto melhor tempo, um resultado francamente positivo para a Ferrari tendo em conta o que a equipa tem feito esta época.

Lewis Hamilton — que ouviu muitas palmas do público português — vai assim arrancar do melhor lugar possível para fazer história este domingo em Portimão, já que basta ao inglês da Mercedes ganhar a corrida para se tornar o piloto com mais vitórias na Fórmula 1, quebrando o recorde que ainda pertence a Michael Schumacher. “Foi fantástico. Não consigo dizer o quão difícil isto foi hoje. Temos um ótimo carro mas também temos de conduzir. No fim, decidi fazer três voltas para ter a oportunidade de o bater [a Bottas] e correu bem”, disse Hamilton logo depois da qualificação, onde ainda acrescentou que o circuito de Portimão é “um dos mais desafiantes” onde já correu e que a superfície do alcatrão é “muito macia”, o que faz com que os pneus tenham uma aderência diferente. No fim da qualificação, a larga maioria dos espectadores saiu de imediato, ciente das filas de trânsito que se iriam formar à saída do circuito. Este domingo, os semáforos apagam finalmente em Portugal. 24 anos depois.

O Observador viajou a convite da Mission Winnow, uma iniciativa da Philip Morris International e principal parceiro a Scuderia Ferrari