As associações angolanas de defesa dos direitos humanos Handeka e Mosaiko – Instituto para a Cidadania repudiaram esta terça-feira a “excessiva carga policial” numa manifestação em Luanda, no sábado, apontando um “recuo no exercício das liberdades fundamentais”.

“Queremos mostrar o nosso veemente repúdio pela forma como se mostrou um recuo ao exercício das liberdades fundamentais, um recuo na prática de repressão de tempos não muito longínquos e de muito má memória a forma como se lida com o cidadão que quer reivindicar um ou mais direitos”, afirmou esta terça-feira Luaty Beirão, em Luanda.

O também presidente da Associação Cívica Handeka, que apresentava em conferência de imprensa o repúdio de ambas as organizações, disse que o que passou no sábado passado, “independentemente de se assacarem responsabilidade de quem terá lançado a primeira pedra, é inaceitável”.

Luaty Beirão sustentou que a “violência que se gerou” é “inaceitável”, afirmando que não se pode “ficar indiferente nem compactuar” com “a forma como o Estado geriu este assunto”.

Não queremos mais voltar a um tempo em que tememos emitir opiniões, em que tememos exercer os nossos direitos, em que tememos discutir abertamente e criticar quem exerce as políticas públicas, isto não pode voltar a acontecer, sublinhou Luaty Beirão, também ativista cívico.

Luaty Beirão foi detido, em 2015, por se ter reunido, em Luanda, para discutir política e alternativas para o país e foi julgado e condenado, a 28 de março de 2016, com outros 16 ativistas acusados de tentativa de golpe de Estado contra o ex-presidente angolano José Eduardo dos Santos.

A tentativa de uma manifestação organizada por jovens da sociedade civil, com apoio de dirigentes do maior partido da oposição angolana – União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) – e de outras forças da oposição, foi frustrada pelas autoridades, tendo resultado em 103 detenções, ferimentos de polícias, e de manifestantes em números não revelados, além da destruição de meios das forças da ordem.  Os protestos ficaram marcados também pelo arremessar de pedras, colocação de barricadas na estrada com contentores de lixo e pneus a arder pelos manifestantes. A marcha visava reivindicar melhores condições de vida, mais emprego e a realização das primeiras eleições autárquicas em Angola.

De acordo com o secretário de Estado do Ministério do Interior, Salvador Rodrigues, que negou a existência de qualquer morte resultante do evento, estão detidos 90 homens e 13 mulheres e seis polícias ficaram feridos nos confrontos com manifestantes. Entre os mais de 100 detidos estão jovens de movimentos cívicos, ativistas e outros manifestantes. Houve também seis jornalistas detidos, três dos quais libertados apenas na segunda-feira e sem explicações. Pelo menos duas pessoas, das mais de 100 detidas, no sábado, das quais uma aguarda julgamento, testaram positivo à Covid-19, disse à Lusa um dos advogados do processo, acrescentando que a defesa pediu ao tribunal “condições para prosseguir”.