Dezassete anos depois, o Benfica voltou a ter uma eleição com três candidatos. E a própria campanha ficou quase resumida a esses 17 anos com Luís Filipe Vieira mais os três em que Manuel Vilarinho resgatou um clube de rastos após a passagem de João Vale e Azevedo para Luz. Ainda assim, e como seria de esperar num clube centenário, há outros presidentes que tiveram um papel preponderante naquilo que é hoje o Benfica, entre os anos 50, 60, 70 e 80. E há três que, por razões variadas, se distinguem dos demais pelo legado que conseguiram deixar.

Maurício Vieira de Brito, o Gulbenkian do futebol

Quis o sortilégio do ato eleitoral que Maurício Vieira de Brito tivesse deixado a presidência do Benfica apenas um mês antes da final da Taça dos Clubes Campeões Europeus de Amesterdão mas nem assim deixou de ser o grande obreiro das duas temporadas que ficarão para sempre assinaladas como as mais gloriosas de sempre do clube no futebol, com a conquista das únicas taças europeias do clube até hoje (com ou sem maldição de Guttmann, estas são as contas apesar das muitas finais atingidas). Mais: foi o líder que esteve associado a outros dois momentos de grande relevo para o que é hoje a história dos encarnados, da contratação de Eusébio à vinda do técnico húngaro, além de avanços importantes no clube como a iluminação ou o início da construção do Terceiro Anel.

“M de mecenas, A de ativo, U de útil, R de realizador, I de inteligente, C de carola, I de insuprível, O de objetivo. Oito letras, oito objetivos, um retrato. É o Gulbenkian do futebol”, escreveu um dia o carismático Ribeiro dos Reis, um faz tudo que jogava tão bem com os pés como escrevia com as mãos. E tudo começou com a contratação de Bela Guttmann, desviado do FC Porto em 1959 no rescaldo ainda do célebre Campeonato que ficou conhecido como a Liga do Calabote em alusão ao antigo árbitro Inocêncio Calabote. E a negociação foi rápida. “Quero ganhar 400 contos líquidos por ano, 150 se for campeão, 50 pela Taça e 200 pela Taça dos Campeões Europeus”, pediu o húngaro. “Só 200? Ponha mais 100”, disse o presidente. Em vez de 400 acabou por pagar 600 contos mas provavelmente até pagaria mais se fosse preciso. E no segundo título lá fora já contou com aquela que se tornaria na maior figura de sempre das águias, Eusébio, “resgatado” na luta com o Sporting e campeão europeu em 1962. Liderou também o clube noutras vitórias nacionais, como a vitória em dois Campeonatos nesse período.

Borges Coutinho, o gentleman que soube fazer consensos

O nome de Borges Coutinho pode não dizer muito às novas gerações, entrava pelos ouvidos da geração anterior por dar nome ao antigo pavilhão, ganhou os corações da geração anterior a essa. Numa palavra, é definido hoje como um gentleman; na altura, atribuíam outros predicados entre generoso e humilde, entre elegante a cordato. Alguém que, criando consensos no seu presente para ganhar muito mais do que os adversários, soube antecipar o que vinha no futuro. No campo, o Benfica conseguiu mais títulos, consolidando a hegemonia do futebol nacional tendo a primeira vitória de sempre num Campeonato sem derrotas em 1973, último ano de Jimmy Hagan na Luz.

A história de vida do líder dos encarnados dá ainda mais força ao que foi depois no Benfica: após crescer no então palacete do Rato, onde fica hoje a sede do PS, foi viver depois para Londres e participou mesmo na Segunda Guerra Mundial, combatendo com aviões da Royal Air Force com 18 anos… tal como Hagan. Um mês depois da vitória é campeão, um mês depois da festa segura Eusébio e foi essa renovação de contrato por 4.000 contos por época em dinheiro ou géneros, como prédios, que permitiu que as águias ganhassem um total de sete Campeonatos e três Taças de Portugal, entre outros projetos de sucesso como a negociação dos terrenos anexos ao estádio para construir mais três campos, dois deles relvados, e uma pista para o atletismo. Artur Correia, o Ruço, Vítor Baptista, Bento, Fernando Chalana ou Pietra foram algumas das figuras que chegaram na sua gestão ao futebol.

Ferreira Queimado, o leilão para o Estádio e a mística benfiquista

O antigo Estádio da Luz, a que se sucederia o atual recinto num espaço próximo entre ambos (aliás, para um ser construído o outro teve de ir abaixo, primeiro de forma parcial e depois na sua totalidade), foi um dos momentos mais importantes na história do Benfica e teve o carimbo de Ferreira Queimado, que numa passagem de cinco anos pelos encarnados viria a ter um papel muito relevante para o que se seguiria. E até a forma como foi feita a obra mostra o engenho que possuía para fazer grandes coisas com meios que pareciam pequenos: um leilão, que foi de garrafas boas de vinho do Porto a gaiolas para periquitos, envolvendo pessoas dos mais diversos quadrantes da sociedade. “Se a obra é para todos tem de ser uma obra de todos”, salientou na altura o presidente. “Sem ser rico salvou o clube da bancarrota e deu alma aos Benfica”, descrevia anos depois o antigo jogador Francisco Calado.

Antigo guarda-redes sem sucesso, Ferreira Queimado foi de tudo um pouco nas águias: vice da Direção, delegado, figura da comissão de futebol, tesoureiro, membro da Comissão de Estatutos e Regulamentos, líder do Conselho Fiscal, destaque no Comité entretanto criado para reunir fundos para o parque de jogos e as piscinas. Para o plantel trouxe Coluna (pretendido por FC Porto e Sporting), para o banco apostou em Otto Glória. É com ele na liderança que o Benfica avança para a profissionalização do futebol, com o técnico brasileiro a fazer força para que fosse criado o Lar do Jogador que mudou a forma como os jogadores estavam no futebol perante os estágios antes dos encontros. Ganhou dois Campeonatos e quatro Taças mas foi o segundo lugar na Pequena Taça do Mundo, na Venzuela, em 1956, que ficou como marco pela receção apoteótica no aeroporto com mais de 10.000 adeptos do clube. Para muitos, esse momento foi o primeiro em que se sentiria a “mística benfiquista”.