O ex-presidente da Comissão Europeia Durão Barroso considera que as instituições europeias “podem” e “devem” fazer mais para reduzir a distância com os cidadãos, mas a chave para esse problema está “na apropriação do projeto europeu pelos países”.

Durão Barroso — que esta sexta-feira encerrou a formação para jornalistas dedicada à presidência portuguesa da União Europeia, organizada pela agência Lusa, em colaboração com a Comissão Europeia — explicitou que essa apropriação do projeto europeu não cabe só aos governos, mas às sociedades como um todo (à comunicação social, ao ensino, aos grupos de interesses, empresas, sindicatos e às organizações da sociedade civil).

Sublinhando que o “problema” da distância entre as instituições e os cidadãos tem “décadas”, o ex-primeiro-ministro português recordou a tendência dos Estados-membros para a “nacionalização do sucesso” e a “europeização do fracasso”.

Falando para dezenas de jornalistas, regionais, nacionais e estrangeiros que participaram na formação, e também em canal aberto nas redes sociais da Lusa, arriscou uma comparação: “Conhecem alguma empresa em que os seus principais acionistas passem a vida a dizer que a empresa não vale nada, que a empresa não presta, que a empresa não resolve nenhum problema?”.

E desenvolveu: “Na Europa, isso é que é quase um milagre, nós temos uma empresa, uma comunidade, em que, sistematicamente, alguns dos principais acionistas estão a dizer mal da própria empresa”.

Durão Barroso mencionou o caso do Reino Unido, que “passou décadas, mesmo com governos relativamente pró-europeus, a apontar as insuficiências da Europa”, e referiu também o exemplo de França, onde “há uma grande crítica à Europa, constante”.

Por isso, considera, “é extraordinário como é que esta empresa europeia continua e progride, apesar de alguns dos seus principais acionistas sistematicamente continuarem a desvalorizá-la”.

Realçando que não pensa que “tudo é perfeito” no projeto europeu e que “há muito a fazer”, o ex-presidente da Comissão assinalou a “complexidade inerente à União Europeia”, que não é um país, nem uma união federal.

Por outro lado, notou, “a União Europeia é complicada porque os governos querem que ela seja complicada”.

Exemplo disso, sustentou, é o Tratado de Lisboa, assinado durante a presidência portuguesa da UE em 2007.

“A Constituição europeia era muitíssimo mais clara, havia um ministro dos negócios estrangeiros, mas os governos não quiseram“, considera, recordando o argumento de que, com o tratado constitucional, a UE “parecia muito um país”. E até se retirou o hino e a bandeira europeus, exemplificou.

O Tratado de Lisboa é “quase que incompreensível, são remissões e remissões, mesmo um especialista em Direito tem dificuldade em seguir aquilo”, assinala o ex-responsável europeu.

Neste cenário, exige-se “participação ativa” dos países e das opiniões públicas, o que impõe uma liderança que siga uma “ética da responsabilidade europeia”, que promova a “cultura do compromisso”, defende.

Todos os interesses nacionais são legítimos e, portanto, a decisão europeia “tem de resultar de um compromisso”, justificou o ex-primeiro-ministro português.