A Fox News interrompeu esta quinta-feira a transmissão de uma conferência de imprensa de Kayleigh McEnany, assessora da Casa Branca quando a porta-voz da campanha de Donald Trump  disse que os democratas tinham sabotado o processo eleitoral. O pivô argumentou que ela não estava a apresentar provas para o que estava a dizer.

Kayleigh McEnany acusou o Partido Democrata de se opor à verificação das assinaturas dos eleitores e de “manter os observadores fora das salas de contagem”: “Não se tomam estas posições porque se querem eleições honestas. Ninguém se opõe à auditoria dos votos quem quer uma contagem precisa. Ninguém se opõe aos nossos esforços de clareza e transparência porque não se tem nada a esconder”, prosseguiu.

Tomam-se estas posições por que se aceita a fraude e a votação ilegal”, concluiu Kayleigh McEnany: “Queremos proteger o direito ao voto do povo americano. Queremos uma contagem honesta, precisa e legal dos votos. Queremos um máximo de clareza, queremos um máximo de transparência”.

É quando a porta-voz da Casa Branca e da campanha de Donald Trump começa a insistir que os republicanos querem “que todos os votos legais se contem e que todos os votos ilegais sejam descartados” que o pivô Neil Cavuto interrompe Kayleigh McEnany:

“Ei, ei, ei. Só acho que temos de ser muito claros: ela está a acusar o outro lado de dar boas-vindas à fraude e ao voto ilegal. A menos que tenha mais detalhes para comprovar isso, não posso de bom grado continuar a mostrar-vos isto”.

Não é a primeira vez que um canal de televisão interrompe um comunicado de imprensa republicano por considerar que o protagonista está a fazer acusações sem fundamento. A 6 de novembro, três televisões de canal aberto norte-americanas — ABC, CBS e MSNBC — interromperam a emissão da conferência de imprensa de Donald Trump precisamente pelo mesmo motivo.

O Presidente em funções dos Estados Unidos referiu que tinha sido reeleito, pelo menos se se tivessem em conta apenas os “votos legais”, e que o sistema de contagem de boletins tinha sido manipulado pelos democratas. “Se contarmos os votos legais, ganho facilmente. Se contarmos os votos ilegais, podem tentar roubar-nos a eleição”, disse Donald Trump logo no início do discurso, interrompendo-o de seguida as três televisões.

Eleições EUA. Trump insistiu na tese de fraude. Três televisões interromperam a transmissão por ser “falso”

Agora é um pivô da Fox News, durante muitos anos percecionada como uma aliada da administração Trump, que trava a transmissão de uma conferência de imprensa republicana. Até agora não foram tornadas públicas quaisquer provas ou indicações de que as eleições presidenciais de 2020 foram palco de um grande esquema de fraude eleitoral capaz de alterar significativamente o resultado eleitoral — a campanha de Trump diz que as entregará aos tribunais.

Facebook remove páginas de Steve Bannon

O Facebook também tem agido para evitar a propagação de informações infundadas sobre alegados casos de fraude eleitoral nos Estados Unidos. Durante o fim de semana, várias páginas ligadas a Steve Bannon, antigo conselheiro de Trump foram removidas porque “usavam táticas de comportamento não autêntico para expandir artificialmente quantas pessoas veem o seu conteúdo”.

Entre os conteúdos eliminados estão grupos como “Conservative Values”, “We Build the Wall Inc.” ou “Trump at War” — fóruns que têm defendido que terá havido fraude nas eleições presidenciais. Outra conta de Steve Bannon no Twitter, @WarRoomPandemic, já tinha sido apagada por ter pedido a morte de altos funcionários norte-americanos, como Anthony Fauci, o imunologista que tem sido o rosto da task force contra a Covid-19.

Durante a campanha para as presidenciais, Donald Trump insistiu em várias ocasiões na potencialidade de o voto postal, uma ferramenta que atingiu novos recordes em ano de pandemia de Covid-19 e em que o leitor vota à distância por antecipação, poder ser utilizado em grandes esquemas de fraude eleitoral. Mas em 2017, um estudo do Centro Brennan para a Justiça indicou que a taxa de votação fraudulenta nos Estados Unidos era de 0,0009%.

Outro estudo publicado no ano seguinte pela Escola de Direito de Loyola, Los Angeles, e noticiado pelo The Washington Post em 2014 encontrou apenas 31 casos de falsificação (em que um eleitor vota mais do que uma vez ou em que uma pessoa vota sem ser elegível para isso) num universo de mil milhões de boletins depositados entre 2000 e 2014. É um caso de fraude em cada 32 milhões de votos — tão pouco que não tem peso significativo no resultado eleitoral.

Outra investigação, ordenada pela administração de George W. Bush e noticiada pelo The New York Times em 2007, que durou cinco anos, encontrou apenas 86 casos de fraude eleitoral durante as eleições de 2006. Tal como concluído pelo estudo citado anteriormente, a maior parte destes casos eram de pessoas que não tinham compreendido as regras de elegibilidade ou que preencheram incorretamente os documentos necessários para exercer o direito ao voto.