Entre julho e setembro de 2020, a Farfetch faturou mais 62% do que no mesmo período do ano anterior, totalizando 798 milhões de dólares, e mais 10% do que no segundo trimestre de 2020 (721,30 milhões de dólares). Só o volume de negócios da plataforma digital contabilizou 674 milhões de dólares, mais 60% do que no período homólogo. As receitas aumentarem 71% para 437,7 milhões de dólares. Face ao trimestre que terminou em junho, as mesmas receitas também subiram 19%.

A par da subida no volume de negócios está a dos prejuízos depois de impostos: a loja online de moda de luxo liderada por José Neves teve perdas na ordem dos 537 milhões de dólares, cinco vezes mais do que tinha registado no mesmo período de 2019 (90.484 milhões de dólares). Em relação ao trimestre que acabou em junho de 2020, os prejuízos também subiram mais 100 milhões.

Depois da apresentação dos resultados, no fecho da bolsa de Nova Iorque, as ações da empresa subiram mais de 12% no “after market“, motivadas pela subida nas receitas e pelo facto de os prejuízos serem menores do que o esperado, como explica o MarketWatch. Em entrevista ao Observador, o empresário português explica que as perdas são “teóricas” se se prendem com a valorização das ações: “Não é dinheiro que sai da empresa.” E avança que a empresa vai ter lucros operacionais no último trimestre de 2020, antecipando aquilo que eram as últimas previsões.

Entrevista a José Neves: Farfetch vai ter “lucros operacionais já no próximo trimestre de 2020”

No comunicado de imprensa que acompanha a divulgação dos resultados, o empresário português refere que a plataforma da Farfetch continua a acelerar, “alcançando mais um volume de negócios recorde, indicando que estamos a testemunhar uma mudança de paradigma a favor do luxo online”.

“Os recursos desenvolvidos em toda a plataforma da Farfetch nos últimos 13 anos, em antecipação à eventual digitalização da indústria de luxo, posicionam a Farfetch de maneira única para aproveitar esta oportunidade. E a parceria recentemente anunciada com a Alibaba e a Richemont posiciona-nos ainda mais, para que possamos aproveitar a oportunidade de levar a indústria de luxo à próxima geração e impulsionar o crescimento sustentado e a participação no mercado por muitos anos”, afirma José Neves em comunicado.

Em relação aos prejuízos depois de impostos, a subida foi impulsionada “por perdas em itens mantidos a valor justo e remensurações, que aumentaram 405,4 milhões num ano, bem como pelos aumentos em pagamentos baseados em ações [aos colaboradores da empresa], despesas gerais e administrativas e despesas de depreciação e amortização, parcialmente compensadas pelo aumento do lucro bruto”, lê-se na apresentação de resultados.

Em termos de EBITDA [lucros antes de juros, impostos, depreciações e amortizações] ajustado também melhorou face ao do segundo trimestre de 2019 — passou de 35,638 milhões negativos para 10,314 milhões de dólares negativos. A margem (diferença entre as receitas e os custos) nos resultados operacionais também mostrou uma melhoria — passou de 15,6% negativos para 2,7%. Em teoria, quanto mais elevadas forem as margens de um negócio, mais sólido ele é. Quando as margens são negativas, a lógica é inversa: quanto mais estiverem a descer, melhor sinal é.

“Estou muito satisfeito com os resultados do terceiro trimestre, que refletem o forte impulso que há por detrás da plataforma da Farfetch e a aceleração que está a haver no crescimento no mercado. Este forte crescimento nas receitas, a melhoria constante na economia da unidade e a maior eficiência de custos operacionais significa que estamos um passo mais perto de alcançar o marco chave dos lucros operacionais no curto prazo”, disse Elliot Jordan, responsável pelas finanças do unicórnio (empresa avaliada mais de mil milhões de dólares) português.

Na semana passada, a loja online de moda de luxo anunciou que fez uma parceria global com o gigante da tecnologia chinês Alibaba, a empresa suíça Richmont e a francesa Artémis. No total, estas três empresas vão injetar 1,15 mil milhões de dólares na empresa. O investimento é feito tendo por base três instrumentos financeiros: a emissão de títulos de obrigações convertíveis, a criação de uma nova empresa na China, a Farfetch China, e a compra de 50 milhões de ações.

A parceria com as novas empresas vai permitir que o marketplace português chegue a potenciais 757 milhões de consumidores. Espera-se que a subsidiária chinesa seja lançada no decorrer do primeiro semestre de 2021, fruto da joint-venture entre a Farfetch, a Alibaba e a Richemont. Segundo o acordo estabelecido entre as empresas, a marca chinesa e a suíça têm uma opção de compra combinada de mais 24% da Farfetch China três anos depois da formação da joint-venture.

No segundo trimestre do ano, a empresa liderada por José Neves viu as suas receitas crescerem 74% face ao mesmo período de 2019, totalizando 365 milhões de dólares. Já os prejuízos depois de impostos mais do que quadruplicaram face aos mesmos meses de 2019: de 95 milhões passaram a 436 milhões de dólares. O confinamento levou a loja online de moda de luxo a atrair mais de meio milhão de novos consumidores.

Receitas da Farfetch disparam 74% com o confinamento. Prejuízos mais do que quadruplicam