Quando a Cotovia fechou portas no final do ano passado, não foi revelado que destino teriam os inúmeros livros publicados ao longo de mais de 30 anos de atividade. Agora, a editora Fernanda Mira Barros veio anunciar que toda a coleção de Poesia, uma das mais importantes da Cotovia, foi adquirida por uma livraria lisboeta, a Livraria Poesia Incompleta, que se dedica exclusivamente à venda de livros de poemas.

Num email enviado às redações esta quinta-feira, Fernanda Mira Barros, que assumiu a direção da editora em 2017 após a morte do editor André Fernandes Jorge, adiantou que a Cotovia permanece ainda aberta “por razões burocráticas”. “Uma dessas razões é o destino a dar a um stock de livros excelentes, não datados, publicados ao longo de 35 anos com dedicação, cuidado e consciência do seu valor para a cultura do país.”

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Parte desse stock, referente à coleção de Poesia, iniciada nos anos 80 por Fernandes Jorge e que inclui traduções de poetas como Paul Clean, Luis Cerrnuda ou Josef Brodskii, “foi agora adquirida pela Livraria Poesia Incompleta, em Lisboa, no bairro da Lapa, muito perto da Infante Santo e do Jardim da Estrela”.

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Fundada em 2008, encerrada em 2012 e reaberta em 2018, a Livraria Poesia Incompleta “é praticamente única no mundo; e digo ‘praticamente’ porque, como ela, ou seja, dedicada inteira e exclusivamente à poesia do mundo, existem duas ou três no mundo. E nós temos uma, em Lisboa”, escreveu a editora, frisando que “a importância desta notícia está agora clara: não só os livros que ainda existem de uma coleção de Poesia extraordinária como a da Cotovia encontraram uma nova casa, como essa casa é, também ela, como esses livros, extraordinária”.

Esta nova casa “extraordinária” é um projeto de um só homem, Mário Guerra, que após uma aventura brasileira que correu mal, regressou a Portugal e decidiu reabrir a Livraria Poesia Incompleta porque estava “cansado” de passar o dia em pé no restaurante em que trabalhava, confessou ao Jornal de Notícias em 2018. Desde então que a livraria funciona no n.º 26 da Rua de São Ciro e a partir de agora contará com a coleção da Cotovia nas suas prateleiras.

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A Cotovia foi fundada em 1986, pelos irmãos André Fernandes Jorge e João Miguel Fernandes Jorge. A editora dedicou sempre especial atenção à publicação de teatro e poesia, sendo também conhecida pela sua coleção de autores clássicos. Ao fim de 35 anos de atividade, anunciou em agosto passado que ia fechar e que no final de 2020 o site deixaria de funcionar, sem adiantar, contudo, o que acontecia ao seu imenso stock. A página permanece online, mas apenas para consulta de catálogo. Os livros continuam também disponíveis para venda, mediante o contacto por email com a editora.

Desconhece-se também o que acontecerá às edições em si. Até ao momento, sabe-se apenas que a coleção “Livrinhos de Teatro”, publicada em parceria com os Artistas Unidos, passará a ser editada pela editora e livraria independente Snob, também de Lisboa.

Artigo corrigido às 17h52