O ténis tem sido das modalidades mais resistentes às contingências associadas à Covid-19. O futebol decorre sem público nos estádios há mais de um ano e, embora todos os jogadores tenham saudades dos adeptos, nenhum colocou em causa a necessidade de evitar os ajuntamentos; as Finals da NBA decorreram numa bolha isolada na Disneyworld e, embora todos os jogadores tenham sublinhado a ausência dos adeptos, nenhum colocou em causa a necessidade de evitar os ajuntamentos; no ténis, desde o escândalo do Adria Tour até à problemática quarentena do Open da Austrália, nada tem sido assim tão simples.

E a voz mais recente desta revolta foi Benoît Paire, tenista francês de 31 anos que em 2016 chegou a estar no top 20 do ranking ATP mas que atualmente é o número 35 mundial — e que vai estar na próxima edição do Estoril Open. Paire, que foi eliminado logo na primeira ronda do Masters 1000 de Monte Carlo que está a decorrer no Mónaco, não escondeu o descontentamento por jogar em recintos vazios, que apelidou de “cemitérios”.

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“Não me importa nada este jogo. Tenho um jogo de pares e depois vou para casa, a duas horas de carro. Vir a estes cemitérios deprime-me. Diziam-nos que vinhas a Monte Carlo, um dos melhores torneios do mundo e chegas aqui e vês que está vazio, há um ambiente triste que nunca se viu. Sinto-me um miserável quando estou em campo. Todos os jogadores pensam o mesmo. Eu talvez seja o único que o diz. O ténis já não me traz nada de bom. Não tenho mais chama. O circuito ficou podre. Mas ao menos tenho 12 mil euros. Vão dizer: ‘Está a falar de muito dinheiro’. Mas ganhei 12 mil euros para estar tranquilo no hotel e ir logo para casa. É perfeito”, disse o francês logo depois da derrota em três sets com o australiano Jordan Thompson, mencionando o valor que recebem os jogadores que são eliminados logo na primeira ronda da prova.

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Mas esta não é a primeira vez que Benoît Paire tem uma opinião semelhante. Em março, em entrevista ao L’Équipe, o atleta mostrou-se pouco preocupado com a série de derrotas que estava a atravessar — tinha perdido 13 partidas em 15 disputadas — e lembrava precisamente que faz muito dinheiro mesmo quando é afastado logo nas primeiras rondas. “Quando vou aos torneios, chego lá, ganho algum dinheiro e vou para o próximo. Faço o meu trabalho. O surpreendente no circuito é que podem perder-se muitos lucros. Alguns ganham um ATP 250 e levam 30 mil dólares enquanto que eu, em alguns torneios, ganhei 10 mil apesar de perder logo na primeira ronda. Para quê ficar louco para ganhar mais?”, questionou Paire, que tinha acabado de ser eliminado em Acapulco e mostrou-se desconfortável com o facto de ter de cumprir as bolhas de isolamento para participar nas competições.

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“Perdi na primeira ronda, é o melhor. Posso deixar rapidamente a bolha de desfrutar de uns dias antes de jogar em Miami [torneio que começou no fim de março e acabou no início de abril]. Mal posso esperar por chegar à praia ou à piscina. O ténis não é a minha prioridade neste momento. Só quero sair da bolha e esse é o meu objetivo em todos os torneios. Não me sinto nada feliz. Os meus pais dizem-me que não sou o Benoît Paire que conhecem. Os que amam o ténis, que só têm isso em mente e treinam 24 horas por dia, estão felizes e a bolha não muda nada para eles. Mas para os que gostam de ar livre, da vida, da liberdade, de comer e desfrutar, é muito duro. Este circuito não é para nós. Mas a verdade é que estou melhor aqui do que em França, onde temos de nos confinar às seis da tarde”, atirou, na altura, o tenista, mencionando o recolher obrigatório que estava na altura em vigor em território francês.

De recordar que, também em Monte Carlo, João Sousa perdeu em dois sets com o italiano Thomas Fabbiano e falhou o acesso ao quadro principal do torneio. Ainda assim, e na atualização do ranking ATP que foi anunciada esta segunda-feira, o tenista português subiu uma posição, ocupando agora o 106.º lugar a nível mundial. O top 10 não sofreu alterações, continuando a ser liderado por Novak Djokovic, seguido de Daniil Medvedev e Rafa Nadal. No ranking WTA, a australiana Ashleigh Barty continua a ser a número 1 mundial, seguida por Naomi Osaka e Simona Halep.